Falha na odontologia

Estudantes usam equipamento sem esterilização e universidade abre sindicância

Dois alunos do penúltimo semestre atenderam pacientes sem esterilizar instrumentos usados em procedimentos dentários e foram punidos com a reprovação em três disciplinas

07/08/2014 | 05h01
Estudantes usam equipamento sem esterilização e universidade abre sindicância Adriana Franciosi/Agencia RBS
A cada semestre, cerca de 200 alunos prestam atendimento, como ocorreu nesta quarta-feira Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Alunos do penúltimo semestre do curso de Odontologia da Ulbra, em Canoas, atenderam pacientes sem esterilizar instrumentos. A descoberta ocorreu em maio, levando a Ulbra a abrir sindicância e a reprovar dois estudantes em três disciplinas. Seis pacientes atendidos sem as condições de higiene adequadas foram avisados pela universidade e terão a saúde monitorada durante os próximos meses.

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Ainda está sendo apurado se houve mais casos. A coordenação do curso afirmou que os procedimentos realizados nesses seis pacientes têm baixo risco de contaminação, já que não envolveram cirurgia ou corte de tecidos. A gravidade do assunto fez com que gestores suspendessem as férias de julho para elaborar novas normas de controle e segurança para o atendimento dos 6 mil pacientes cadastrados. Na terça-feira, em reunião preparatória de retorno às aulas, no auditório da Odontologia, o coordenador do curso, professor Adair Luiz Stefanello Busato, falou do problema e das novas regras para cerca de 300 alunos:

– E os pacientes? O que vamos fazer com os pacientes que foram atendidos sem material esterilizado? Foram contaminados, não foram? Como vamos tratar disso? Esse é outro problema, gravíssimo. Se o paciente não tinha ou já tinha HIV e diz que não tinha? Isso é muito grave, é muito grave, é gravíssimo. Porque nós estamos contaminando as pessoas, quando, na verdade, numa casa de saúde, de ensino, deveríamos zelar pelo contrário.

A falha foi percebida em 19 de maio por um professor que alertou a coordenação do curso por escrito. Uma comissão de sindicância investigou o caso. A conclusão foi de que dois estudantes (a universidade não revelou os nomes dos alunos) atenderam pacientes sem esterilizar os instrumentos.

O caso foi analisado pelo conselho de administração do curso, que decidiu reprovar administrativamente os dois alunos. Os dois recorreram à Justiça. Uma decisão liminar autorizou que eles seguissem frequentando as três disciplinas para concluí-las no semestre passado. Eles agora cursam o último semestre.

– Para nós, eles seguem reprovados. Não vão se formar se não refizerem as três disciplinas em que foram reprovados – garantiu ontem a Zero Hora o coordenador do curso, Adair Busato.

Segundo o professor, os procedimentos de controle de esterilização estão sendo aprimorados, mas também dependem da conduta de cada aluno:

– É uma falta de responsabilidade, de consciência ética e bioética. Não pode um aluno que está no penúltimo semestre, com todos ensinamentos que foram colocados, negligenciar esse aspecto. Se não existisse o 10º semestre, amanhã ele estaria atendendo no consultório. Como seria?

Uma das novas regras determina que um funcionário da faculdade confira o comprovante de esterilização dos instrumentos antes de cada aluno ingressar nas clínicas para atendimento.

O que diz Romeu Forneck, diretor-executivo e pró-reitor de Planejamento e Administração da Ulbra

É um episódio lamentável. O professor sempre orienta os alunos, mas eles, por algum motivo, deixaram de esterilizar os equipamentos. Foi constatado o problema, e os alunos foram reprovados. Analisamos os equipamentos, e não se constataram irregularidades. Também identificamos e fizemos contato com os pacientes, e eles estão sendo acompanhados. Não se verificou nenhum caso de contaminação.

Surpreso, conselho determina fiscalização

O atendimento a pacientes por alunos sem esterilizar instrumentos surpreendeu o Conselho Regional de Odontologia (CRO-RS).

– A estrutura do curso de Odontologia da Ulbra é uma das mais modernas do país. O coordenador é um cientista respeitado. Nunca ouvimos falar disso antes. Em hipótese alguma podem atender sem esterilizar materiais – afirmou Flávio Borella, presidente do conselho.

Ao saber do caso pela reportagem de Zero Hora, a entidade determinou a visita de um fiscal à faculdade para verificar o ocorrido. O CRO quer ter acesso às conclusões da sindicância aberta pela coordenação do curso para saber quando ocorreu e quando foi detectado o problema, quem são os professores, os alunos e os pacientes envolvidos e quais medidas foram adotadas.

Conforme o procurador jurídico do CRO, Ricardo Martins Limongi, dependendo das informações, o conselho pode encaminhar representação à Vigilância Sanitária para tomada de providências e para o Ministério Público apurar responsabilidades, seja por parte de alunos ou professores. Além disso, o CRO também poderá instaurar um processo ético contra os professores, caso fique comprovado alguma negligência.

Segundo a assessoria de comunicação da prefeitura de Canoas, o setor de Vigilância em Saúde do município não tem registro de notificação à faculdade de Odontologia da Ulbra relacionada a esse fato. Na Vigilância Sanitária Estadual também nada consta, conforme apurou ZH.

Como funcionam os atendimentos

O curso de Odontologia da Ulbra tem 486 alunos. Cerca de 200 atuam nos atendimentos ao público a cada semestre.

Há 6 mil pacientes cadastrados atualmente para atendimentos.

Não há restrição por renda, ou seja, qualquer pessoa pode se cadastrar para o serviço.

O custo para o paciente é de R$ 12 por consulta. Se houver serviços de laboratório, o paciente paga também.

Os pacientes são atendidos em cinco clínicas situadas dentro do prédio da Odontologia.

Ocorrem entre 800 e mil atendimentos semanais.

Foi detectado problema no atendimento de seis pacientes, feito por dois alunos do 9º semestre.

O uso de equipamentos não esterilizados teria ocorrido nos dias 19 e 26 de maio e 4 de junho.

A coordenação do curso garante que os procedimentos feitos nestes pacientes foram apenas de restaurações, ou seja, não houve cirurgia ou casos envolvendo cortes e sangue, o que, segundo a coordenação do curso, reduz o risco de infecções mais graves.

Os riscos de contaminação por instrumentais são decorrentes do sangue, da saliva e de resíduos orgânicos, como o tecido cariado. Podem ser transmitidos vírus da gripe e causadores de doenças respiratórias e infectocontagiosas como o vírus do HIV e de hepatites.

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