Dia dos pais

Quando nasce um filho, também nasce um pai

ZH acompanhou Evandro Schulz, 41 anos, em sua espera pela primeira filha, Helena.

10/08/2014 | 05h02
Quando nasce um filho, também nasce um pai Tadeu Vilani/Agencia RBS
Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

No dia em que a filha deve nascer, 22 de julho de 2014, Evandro Schultz sente-se assombrado pelo momento em que ele próprio veio ao mundo. Percorre salas e corredores do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, mas não consegue desprender o pensamento da residência perdida no Interior onde sua mãe deu à luz, 41 anos antes. Para surpresa dos pais, dos irmãos, da família inteira, Evandro nasceu com a perna direita pela metade, encerrada logo abaixo do joelho.

Há pouco mais de duas semanas, no hospital, o nervosismo esperado em alguém prestes a se tornar pai é turbinado pelo medo de que a história se repita com Helena, sua primeira filha. Durante a gestação, Evandro vivenciara cada ecografia como um calvário. Esforçando-se para esconder os temores da mulher, Jaline Schultz, 29 anos, ele procurava com avidez os órgãos vitais do feto e contabilizava mãos, braços, pernas. Tudo parecia perfeito com a menina, mas Evandro não se tranquilizava.

Agora, do lado de fora da sala de parto, enquanto passa as mãos trêmulas pela cabeça e solta sopros ruidosos a cada três ou quatro minutos, ele explica-se:

— Aprendi a caminhar com perna de pau, um toco de madeira feito por sapateiro. Foi tudo muito difícil. O nervosismo vem daí. Se o limite da adrenalina é 10, estou em 11. Só vou sentir alívio quando estiver com o bebê no colo e puder contar os olhinhos, os dedinhos, ver que ela está saudável, e então acabar com todos os mitos.

Já era para Helena ter chegado há mais tempo. Cinco anos atrás, quando o casal planejava o primeiro filho, o projeto foi atropelado por um novo problema de saúde, esta vez na perna esquerda de Evandro. Um tumor no joelho obrigou-o a tratar-se com radioterapia, a enfrentar três cirurgias e a parar de trabalhar, porque não se aguentava de pé. Os planos de ser pai ficaram adiados.

— Quando isso apareceu, pensei: “Pô, de novo comigo! Logo agora que eu estou me ajeitando”. Parecia que eu tinha nascido do lado errado da Terra. Eu me perguntava: “Será que a mulher vai aguentar ficar comigo?”

No final do ano passado, enquanto Jaline disputava um torneio de golfe (ela liderava o ranking feminino no Rio Grande do Sul), Evandro recebeu um telefonema e invadiu o campo do clube para contar a novidade: a mulher estava grávida.

— Por que foi me contar bem no meio do jogo? — questionou Jaline, nervosa.

— Dane-se o jogo — respondeu Evandro.

Passadas 38 semanas, o casal chega ao Mãe de Deus às 7h. O planejado é que Jaline seja medicada para induzir o parto normal. Ela não quer cesariana. Depois de entregar a mulher às enfermeiras, o pai sai escondido, às pressas, para comprar um tip top do Grêmio. Quer fazer uma surpresa a Jaline, logo após o nascimento, devolvendo-lhe a filha com as cores do time.

Nos cálculos dele, a menina estará em seus braços por volta das 10h. A ideia é passar o dia no hospital, curtindo a mulher e a filha. No fim da tarde, sairá para o curso intensivo de inglês. Está aprendendo o idioma porque viajará ao Japão, no mês que vem, como representante brasileiro no campeonato mundial de golfe para deficientes.

Mas quando chegam 10h, não há nem sinal de que Helena esteja vindo. Jaline segue estendida na sala de parto, à espera de que a indução faça efeito. A tensão de Evandro começa a crescer. Ele anda de um lado para o outro, agitado. Fita as mãos, que tremem sem parar, depois espalma-as na testa, até assoprar seu suspiro característico:

— Fuuuuuu!

Jaline, serena, percebe a sacola plástica que o marido trouxera.

— O que é isso? Comprou uma camisa do Grêmio?

Evandro não conseguira manter a surpresa por mais do que uns minutos. Abre o pacote e exibe o tip top:

— Vou mostrar, para não ficar ansiosa.

— Meu Deus! Comprou tamanho G? Ela só vai usar isso quando tiver seis meses — reage Jaline.

Às 10h30min, Evandro ataca uma enfermeira:

— Falta muito?

— Para nascer?

— Para a dilatação chegar a 10. Esta só em dois.

— Agora que começou. Ela está bem.

Evandro reage esfregando as mãos na face e soltando mais um suspiro. Mexe no celular, senta, levanta, senta de novo. Volta a suspirar.

— Ô, periquitinho, vamos nascer?

Às 11h30min, fora da sala de parto, o nervosismo vaza em desabafo:

— Eu já podia estar com o bebê no colo. É uma agonia que só aumenta. Nada acontece. São 45 mil chamadas no telefone: “Como está, como não está?”. E a Jaline morrendo de fome, em jejum desde ontem. Dá uma sensação estranha, de estar amarrado, de não poder fazer nada. Fuuuuuu!

No começo da tarde, Evandro chega à conclusão de que não terá condições psicológicas de ir à aula de inglês. Jaline está com contrações, mas a dilatação

não é satisfatória. A possibilidade de uma cesariana cresce.

– Está punk! Está punk! – brada Evandro.

– Ela fica agoniada, porque não quer cesariana. Daí o cara se estressa – assume.

Ele mostra as mãos, empapadas de suor, e volta para junto da mulher. Às 15h20min, Evandro aborda de novo uma enfermeira:

– Ela está agoniada. Não pode comer nada?

– Não pode.

– O nível das contrações?

– Não te preocupa. Ela está monitorada.

Quando a profissional se afasta, Evandro confidencia:

– Que enfermeira braba, velho!

Às 15h30min, o obstetra Sergio Martins Costa, gestor do Instituto da Mulher, anuncia que Helena virá ao mundo por cesariana. Ele marca o parto para as 16h. Evandro passa a mão na cabeça. Depois a estende diante dos olhos para avaliar o nível de tremedeira. A mão treme como se tivesse vida própria.

– Tudo vai dar certo. Tudo vai dar certo. É o primeiro filho. É complicado. Mas tudo vai dar certo – repete para si mesmo.

Jaline é levada para a sala de cirurgia. Evandro recebe orientação para vestir a roupa cirúrgica. Reaparece trajado, com máscara e touca. Fica a poucos metros da porta, à espera de que o chamem para assistir ao parto. Está fora de controle. Junta as mãos e reza. Senta em uma cadeira no corredor e fica olhando para o chão, cabisbaixo. Depois entrelaça os dedos e começa a girar um polegar ao redor do outro, para frente e para trás. Bate as palmas, uma na outra. Enfia os dedos na boca. Pressiona o queixo. Faz o sinal da cruz.

Respira profundamente. Suspira.

– Demora sempre assim?

De pé, começa a cantar o hino do Grêmio como estratégia para se acalmar. Sentado, junta os braços e ensaia embalar Helena no colo.

– Quando fiz minha cirurgia, foi muito mais fácil – garante.

Às 16h20min, é chamado para ver o 10º parto do dia no Mãe de Deus. Antes de entrar na sala, benze-se mais uma vez.

– Agora é a hora. Cruzem os dedos e rezem para dar tudo certo. Se eu desmaiar, me levantem.

Evandro senta à cabeceira da cama e fica à espera do choro. Para ele, parece uma eternidade. Começa a achar que há alguma coisa errada. Às 16h29min, um integrante da equipe cutuca-o para sinalizar que Helena está nascendo. Aturdido, Evandro se ergue rápido demais e sente a calça do hospital sofrer um rasgão nos fundilhos, bem na hora em que vê a filha ser erguida diante de si. Os olhos correm rápido dos pés à cabeça e da cabeça aos pés da menina, conferindo se está tudo no lugar.

– Foi a maior emoção do mundo. Eu não estava nervoso. Eu estava era louco. Então recebi a Helena no colo e vi que ela é linda e perfeita. É forte. Nasceu um pai – conta, minutos depois.

O Evandro que emerge da sala de cirurgia com Helena nos braços em nada lembra o de 10 minutos antes. Em lugar do nervosismo fora de controle, estampa um sorriso rasgado, que se espalha pelo rosto todo.

– Ô, menininha do papai! Está aqui a gremista linda! Tem mais cabelo do que o pai!

Na sala de admissão, o bebê é pesado (3,02 quilos), medido (47,5 centímetros) e examinado pelo pediatra. A enfermeira coloca a pulseira com a identificação da mãe.

– Essa é a única pulseira de plástico que tu vais aceitar. Depois dessa é só de ouro – instrui ela.

Evandro acompanha os procedimentos de olhos cravados na menina. Inclina-se sobre Helena, beija suas mãos, faz cócegas nos pés e sente a filha agarrar-lhe o nariz.

– Olha a top model! Não é porque sou o pai, mas ela está bonitinha – exibe-se.

Já embrulhada, Helena é entregue ao pai. Ele sai da sala com ela no colo e ergue uma mão fechada, apenas com o polegar e o dedo mínimo levantados:

– Rock’n’roll!

Vem o momento das vacinas, uma injeção em cada coxa de Helena. Apenas Evandro e a enfermeira estão na sala. O pai consola a menina, diz para

ela se acalmar, que não vai ser nada. Helena faz cara de choro no momento em que a agulha atravessa sua pele. No mesmo instante, vira a cabeça em

direção a Evandro, procura os olhos dele e arregala os seus. Os dois se encaram. Helena agarra o dedo do pai com toda a força. Evandro sente que tudo mudou:

– Naquela hora, ela dependia só de mim. Com os olhos, me dizia: “Confio em ti. Não sai daí. Tu és meu pai”.

Os primeiros dias com Helena

Setenta e duas horas depois do nascimento de Helena, no apartamento do bairro Cavalhada, Evandro encontrava-se submerso nas agruras de ser pai. Desde o dia do parto, mal conseguira ver a filha. A mulher estava de bronca com ele. O curso de inglês, antes uma prioridade, fora praticamente esquecido. Os preparativos em casa descambaram em pandemônio. Era tanta atrapalhação que Evandro sequer conseguira ir ao hospital buscar mãe e filha. Fazia horas que as duas haviam recebido alta.

– Ser pai é uma correria. Não dá para ter agenda – lamentou.

A primeira noite após o parto ainda foi de enlevo. Depois de sair do Mãe de Deus, às 22h30min, Evandro parou em um posto de gasolina para jantar um sanduíche e correu para casa. Baixou as fotos batidas com o celular, escolheu as melhores para postar nas redes sociais e disparou e-mails. Foi para a cama à 1h. Estava esgotado, com o joelho doendo e a perna a latejar, mas não conseguiu dormir. A mente excitada recapitulava o dia e evocava o rosto de Helena.

As complicações começaram no dia seguinte. Evandro levantou às 7h, com uma sensação nova: saudade da filha. Mas não pôde realizar o desejo de vê-la. Tinha de esperar o sujeito que montaria os móveis novos. Os antigos haviam sido descartados porque estavam tomados pelo mofo – e Evandro temia algum prejuízo para a saúde do bebê. O profissional se atrasou e só foi terminar o serviço às 13h.

De novo, o pai não não conseguiu seguir para o hospital. Havia planejado uma surpresa para receber Jaline, uma cama nova. Marcara reunião com um patrocinador de sua viagem ao Japão, para acertar o contrato que lhe garantiria o colchão. Inventou uma desculpa para chegar tarde ao Mãe de Deus, mas a mulher não gostou. No caminho, ainda teve de parar em quatro farmácias, à procura de uma concha de amamentação. Chegou de mãos abanando. Mal apareceu, já saiu para a aula de inglês.

– Fiquei boiando, sem entender nada. Não tinha estudado, não tinha feito os trabalhos e fui embora mais cedo. Percebi que o semestre estava perdido. Nem vou fazer as provas – contou.

No outro dia, Evandro teve de levantar cedo de novo, para desmontar a cama velha e esperar a cama nova. Também tinha de receber o ar-condicionado, com o

qual pretendia proteger Helena do frio e da umidade. Às 10h, a sogra telefonou, dizendo que ele deveria estar no hospital às 11h, para uma gravação do vídeo do nascimento. Evandro recebeu o condicionador de ar, pediu para a entrega do colchão ficar para o fim da tarde e saiu correndo.

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