De Buenos Aires a Jerusalem

Um exemplo argentino para o convívio entre israelenses e palestinos

Criado a partir da iniciativa de dois professores, um judeu e outro palestino, o Consenso Argentino pela Paz Palestino-Israelense se apoia na convivência harmoniosa existente no país sul-americano para inspirar saída política

09/08/2014 | 18h01
Um exemplo argentino para o convívio entre israelenses e palestinos Telam/ef/Telam/ef
Kaufman (E) e Salem foram os iniciadores do Consenso pela Paz Palestina-Israelense, que inspirou grupo argentino Foto: Telam/ef / Telam/ef

Longe dos extremismos, dos interesses imediatistas e dos compromissos políticos, a voz límpida mostra que é possível a sensatez imperar entre israelenses e palestinos. O exemplo vem da Argentina. O movimento Consenso Argentino pela Paz Palestino-Israelense (Cappi) tem como máxima "exportar convivência no lugar de importar o conflito". Pretende levar ao Oriente Médio a convivência existente entre árabes e judeus na América do Sul. Aposta na "diplomacia cidadã” como contraponto à violência e à intransigência diplomática. Enfatiza a legitimidade dos dois Estados, as raízes de judeus e árabes com a terra que reivindicam como suas e a necessidade de se voltar às fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias (em 1967).

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Em um texto cujo título é "o conflito inaceitável", elaborado durante a recente guerra entre Israel e Hamas, o grupo, formado por árabes e judeus, pontificou: "A paz não é fácil, nem seus benefícios são imediatos. Mas o que temos hoje é insuportável".

O Cappi é o braço argentino do Consenso pela Paz Palestina-Israelense, criado pelo professor Edward Kaufman, das universidades de Haifa (Israel) e Maryland (EUA), em parceria com Walid Salem, professor da Universidade de Quds, em Jerusalém. Não esconde que se inspira também em iniciativas como a da Orquestra Divã Leste-Oeste, criada pelo maestro judeu argentino Daniel Barenboim e pelo ensaísta palestino Edward Said (que morreu em 2003), reunindo jovens músicos de Israel, dos territórios palestinos e de outros países árabes, para promover o "diálogo intercultural".

Os principais integrantes do Cappi são Mariela Volcovich, Omar al-Kaddour, Pablo Lumerman e Ignasio Asis. A psicóloga judia Mariela, 50 anos, e o licenciado em relações internacionais árabe (de origem síria e religião cristã) Kaddour, 37, conversaram com Zero Hora a respeito da sua iniciativa.

"Todos temos direito à existência", diz judia argentina

A psicóloga Mariela Volcovich é uma judia argentina que sonha com o Estado de Israel soberano e seguro. Considera essencial aquilo que define como "neossionismo": se em 1948 o sionismo preconizava o Estado judeu, atualmente essa reivindicação deve ser acompanhada do reconhecimento de que a Palestina como Estado é parte desse sonho ancestral.

A mensagem de vocês é de que uma pessoa pode, ao mesmo tempo, defender a integridade de Israel e a criação do Estado palestino?
Sim, claro. Defendemos a ideia de dois Estados para dois povos. Parte da nossa tarefa é de esclarecimento, mostrando que os extremos, tanto de um lado quanto de outro, não estão dispostos a conversar. Se integrantes do Hamas não aceitam a existência e pregam a eliminação de Israel, não é possível conversar. Assim também com gente que não suportou o discurso (pacifista) de Ytzak Rabin (premier israelense morto por um judeu ortodoxo em 1995). Sou judia e plenamente identificada, religiosamente judia e participante ativa do judaísmo, com meus filhos. E não aceito a ideia de não incorporar o outro. Todos temos o direito à existência.

Quando Fatah e Hamas celebraram uma aliança, era o momento de o governo israelense atrair o Hamas à mesa de negociações, aceitando o Estado judeu?
Com a violência e a virulência atuais, não. Mas, sim, perdeu-se uma oportunidade, naquele momento, para fazê-los aceitar a ideia de dois Estados. Por enquanto, do lado de Israel, há um sentimento de ameaça a sua existência. Do lado palestino, também de ameaça, porque os assentamentos com colonos israelenses continuam. Ambos têm de entender o sentido transcendente da existência do outro. Israel se sente ameaçado pela intenção de destruí-lo e tem o direito legítimo à existência. Ao mesmo tempo, a continuação dos assentamentos é um problema que impede o entendimento. É fundamental entenderem que o Hamas não são todos os palestinos e que o governo de Binyamin Netanyahu não são todos os israelenses. Não somos políticos. Sou psicóloga, há antropólogos, sociólogos, professores universitários, acadêmicos. Dizemos que, após 60 anos de guerras, a via militar não foi exitosa. Não é o momento de mudar isso? Não é o momento da sociedade civil?

Que influência o trabalho de vocês poderá ter?
Não somos ingênuos a ponto de acreditar que isso está em nossas mãos. O que queremos é, em vez de importarmos o conflito, exportar uma convivência que tivemos ao longo de toda a nossa vida. Convivo, em Buenos Aires, ao lado de um muçulmano, de um budista e de um agnóstico. Creio que a "pátria grande", a América do Sul, tem algo a dizer. Somos um modelo de convivência, no Brasil, no Uruguai, no Chile, na Argentina, no Equador. E não é fácil: temos recebido tanto apoios quanto insultos. Queremos que a sociedade civil seja um interlocutor válido.

Há certo consenso de que o mapa para dois Estados e paz é pré-1967 (a Palestina em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Leste). Por que algo que em tese é fácil, especialmente quando comparado a outras regiões, se complica tanto?
É certo que seria mais fácil de resolver do que o que está ocorrendo em outros países da região. O problema são os ódios atávicos e os revisionismos. Se todos formos fazer um registro histórico, nem os americanos poderiam estar pisando o solo que pisam, nem nós, portenhos, em Buenos Aires. Todos teríamos de devolver as terras aos donos originais. Toda a América é assim. O que fazemos? Devolvemos todas as terras?

Tanto árabes quanto judeus se consideram originários. Isso não simplifica?
Sim. Por isso, nós, do Cappi, nos definimos como um grupo de primos. Somos primos abraâmicos. Se antes dividimos a mesma terra, por que não voltamos a fazê-lo, em dois Estados? A militarização não deu resultados. A violência leva a paradoxos como o de que 65% dos israelenses defendem dois Estados, mas votam num governo de direita.

Não é a busca de segurança que leva o israelense a votar na direita?
Existe a ideia de que um governo de esquerda seria brando num país que vive rodeado de países que têm em seus territórios facções e às vezes até governos que querem destruir Israel. Aí, o israelense pensa que um governo de esquerda seria fraco. Mas, ao mesmo tempo, defende que se devolvam as colônias (na Cisjordânia). Então, há uma explicação, mas que não me convence. É um paradoxo que vejo no mundo inteiro. Diferentes governos da Europa e da América do Sul, como a França e o Chile, com postura mais socialista, acabam, entre aspas, direitizando-se.

O sionismo, movimento de libertação nacional, é visto como de direita. Como isso ocorre?
Definimos o neossionismo, que é o que existe hoje, como a garantia de que Israel exista em fronteiras seguras e que haja também o Estado palestino, igualmente com fronteiras seguras, viabilidade e autossustentabilidade. Não sou sionista de 1948, em que se falava no Estado de Israel. Sou profundamente sionista como alguém que defende a existência dos Estados de Israel e palestino com fronteiras seguras.

"Deve haver um antes e um depois", afirma árabe argentino

Licenciado em relações internacionais, Omar al-Kaddour é um árabe argentino, filho de sírios, que crê na criação do Estado palestino e critica as ocupações israelenses, definindo-as como empecilho para a paz. Ainda assim, admite: o reconhecimento da legitimidade de Israel é prioridade a ser levada em conta por grupos como o Hamas, para que se faça do amor o combustível de projetos práticos.

Qual é a mensagem do Cappi?
O Cappi clama pelo reconhecimento pleno e legítimo do Estado de Israel por parte da Palestina e dos países árabes islâmicos, reconhecimento de Israel e seu direito a existir com fronteiras seguras e estáveis e, também, pelo fim da ocupação de Israel na Cisjordânia e pela criação e reconhecimento, pleno e legítimo, do Estado palestino, viável, em condições de desenvolvimento e com fronteiras seguras. Acreditamos que as colônias são a principal causa do conflito. Precisam terminar para que as duas partes se ponham de acordo para a criação dos dois Estados independentes e soberanos.

Não é essencial que grupos como o Hamas aceitem o Estado de Israel?
Sim, por isso falo no reconhecimento de Israel pelos palestinos. O Hamas é uma expressão de resistência à ocupação. No momento em que houver uma resolução certeira, com vontade política real, por parte especialmente de Israel, que ocupa o território e faz daquela uma realidade difícil, creio que um interlocutor palestino vai tomar as ações necessárias para uma coexistência justa e pacífica.

Até onde pode influenciar a mensagem de convivência pacífica do Cappi?
A coexistência na América do Sul, a convivência entre as comunidades, é um bom exemplo para exportar. Não devemos importar o conflito, mas exportar a boa convivência. Solucionaremos o problema quando os líderes abraçarem em seus corações o desejo da paz. Que abracem com convicção. Depois, com o coração, para passar à ação. Há a dimensão material e a espiritual. Quando falo em espiritual, não falo em religião, falo em estarem convencidos da paz. Levamos 60 anos de enfrentamentos. Chega o momento de começar a transitar um caminho certeiro de construção da paz justa, pelo qual os dois Estados sejam possíveis e convivam.

Com as fronteiras anteriores a 1967 servindo de base para resolver o conflito, isso não poderia ser mais simples?
Sim, o fundamental é haver vontade política dos líderes de ambas as partes para estabelecer a paz. Não sou ingênuo em pensar em ações de voluntariado, mas de gerar ações concretas que nos levem ao caminho da paz. A Palestina precisa ceder o reconhecimento e a garantia de segurança para Israel. Imagino que a bola está mais no campo israelense do que no palestino.

A aliança entre Fatah e Hamas era uma oportunidade de Israel negociar com os palestinos unidos e conseguir, assim, um acordo sustentável?
O governo de Israel não aproveitou a oportunidade. O Hamas, de alguma forma, cedeu e aceitou um acordo com a Autoridade Nacional Palestina, com Mahmoud Abbas. Então, era uma boa oportunidade de pôr na mesa de negociações todas as exigências e pontos de acordo para encarar definitivamente a paz. Deve haver um antes e um depois desse último conflito. Expresso com ênfase que não deve haver enfrentamentos armados como os que vivemos nas últimas semanas. Deus queira que o sangue derramado, nesse e nos conflitos anteriores, sirva para construir essa alternativa de paz e reconciliação, para criar o espaço de coexistência entre os dois Estados. Ninguém pode recuperar as perdas humanas, mas essas vidas perdidas podem servir para que não nos acostumemos e que nos levantemos contra isso.

Isso é um desejo ou uma esperança?
As feridas são profundas, mas o caminho da paz é uma missão a que estamos chamando os que se importam, seja por origem árabe ou judaica ou só por querer a paz. É uma questão humanista, por convicção moral ou religiosa. Precisamos do humanismo cristão, judaico e muçulmano. Uso palavras de Amós Oz (escritor israelense) para falar do apagão moral dessas guerras. O Cappi é espaço de diplomacia cidadã, homens que se encontram na origem comum, abraâmica, nas identidades judaica e árabe. Essa raiz abraâmica nos une e é o que temos de aprofundar. Não falo de romanticismo idealista, falo de algo prático. Quem ama é justo, busca a paz e reconhece a dignidade do outro.

Na Colômbia, onde se negocia a paz, familiares de vítimas falam em superar ressentimentos. É outro exemplo?
São pessoas de uma riqueza espiritual, ética e moral digna de ser compartilhada. O testemunho dessas pessoas deve transcender, estar nos meios de comunicação, que têm o compromisso com a construção da paz, na Colômbia ou no Oriente Médio. Esse testemunho engrandece os seres humanos e os valores que precisamos ressaltar. O perdão é instrumento até político, para curar feridas. São pessoas iluminadas. É importante pôr coração e convicção na razão. Para te dar um número da guerra, um míssil que sai de Gaza custa entre US$ 50 e US$ 60. O antimíssil israelense custa US$ 100 mil. Em uma situação de ataque e defesa, são quase US$ 200 mil que evaporam.

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