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Correndo mais que o relógio: a trajetória de Tarso Genro

Pontual ao extremo, Tarso disciplina o corpo e a mente para alcançar metas políticas traçadas desde sua militância na resistência à ditadura

Por: Letícia Duarte
25/09/2014 - 05h03min
Correndo mais que o relógio: a trajetória de Tarso Genro Júlio Cordeiro/Agencia RBS
Conhecido pela pontualidade, Tarso costuma se adiantar para compromissos Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

No fim da manhã nublada de 15 de setembro, no Palácio Piratini, o governador Tarso Genro olha para o relógio dinamarquês Skagen, que carrega há 25 anos no pulso esquerdo, e avisa os auxiliares com quem despacha em sua sala:

— Faltam 10 minutos.

O aviso é a senha para que assessores o sigam rumo ao gabinete onde repassará seu cargo ao presidente do Tribunal de Justiça, José Aquino Flôres de Camargo. Está prestes a se licenciar para se dedicar integralmente à campanha eleitoral, tentando quebrar a tradição gaúcha de nunca ter reeleito um governador na história.

A cerimônia está marcada para as 11h, mas, devido ao adiantamento do anfitrião, quem chegasse no horário estaria atrasado. Tarso aparece oito minutos antes e, às 10h59min, encerra seu discurso. Não porque estivesse com pressa. Conhecido pela pontualidade, o petista preocupa-se tanto em não deixar os outros esperando que acaba chegando antes.

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Para driblar inconvenientes, assessores começaram a marcar em sua agenda os compromissos meia hora depois do que o combinado com os participantes dos eventos. Nem sempre funciona.

Quem não acompanha seu ritmo costuma ficar pelo caminho. O ex-secretário da Agricultura Luiz Fernando Mainardi que o diga. Em janeiro de 2011, ele e Tarso partiriam juntos para o lançamento do primeiro programa de governo, na cidade de Piratini. A saída estava marcada para as 8h, no aeroporto de Bagé. Mainardi jura que chegou às 7h55min. Tarde demais. Tarso havia embarcado 10 minutos antes.

— Ele simplesmente foi e me deixou, aí mandei um torpedo: “Caro governador, estou neste momento no aeroporto, não vou poder ir contigo já que fizeste tamanha gentileza” — conta às gargalhadas Mainardi, amigo de Tarso desde o final dos anos 1970, quando militavam juntos em um movimento clandestino formado por uma dissidência à esquerda do PC do B.

— Tu tens que ser pontual no relógio dele, não no de Greenwich — avisa o ajudante de ordens José Adriano Felippetto.

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Perfil intelectual na atividade política

Ao deixar o palácio como governador licenciado, às 11h30min de 15 de setembro, Tarso é esperado do lado de fora por militantes. Empunham bandeiras para aclamar o candidato, segundo colocado nas pesquisas. Num pequeno caminhão de som parado diante da Praça da Matriz, a candidata a vice, Abgail Pereira (PC do B), grita palavras de ordem. Ao pegar o microfone, Tarso abranda o tom:

— Queridos companheiros, vou pedir para o pessoal baixar as bandeiras, momentaneamente, para a gente dar uma conversada. Vamos baixar o som aí?

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Tarso não gosta de discursos inflamados. Prefere encadear ideias e propor reflexões. Na campanha anterior, dirigentes até tentaram convencê-lo a abandonar o costume de pedir que baixassem as bandeiras, que poderia soar antipático. Não conseguiram. Com perfil intelectual de quem foi crítico literário por mais de uma década e notabilizou-se por criar jurisprudências inéditas no Direito Trabalhista, Tarso não separa a atividade política das elucubrações teóricas. Entre suas publicações, estão desde obras que se tornaram referência no mundo jurídico até livros de poesia, como o Luas em Pés de Barro, de 1977, que eternizou versos como “Quanto te esperei e quanto sêmen inútil derramei até o momento”.

Na descida do palanque, Tarso recebe abraços e beijos. Ao flagrar uma marca de batom na bochecha do candidato, o deputado Adão Villaverde (PT) tira uma foto.

— Vou mostrar para a Sandra! — provoca, referindo-se à primeira-dama do Estado, a médica e fotógrafa Sandra Genro.

— Depois de 44 anos de casado não tem problema — devolve Tarso, entre risos.

Se estivesse por perto, Sandra talvez contra-argumentasse. Definindo-se como “apaixonada e ciumenta”, prefere contar o tempo de união desde que viu Tarso pela primeira vez, há 50 anos, de calção de banho e óculos de sol, no Avenida Tênis Clube, em Santa Maria. Ela com 15 anos, e ele, 17.

— Ele caminhava com jeito de quem vai conquistar o mundo, se jogando pra frente — derrete-se.

A partir dali, começaram a se encontrar até que, um mês depois, numa reunião dançante vespertina, oficializaram o namoro. Tarso estava encostado em uma parede, “garbosamente fumando, no tempo em que fumar era visto como uma coisa boa, e com um cabelinho caído de Elvis Presley”, quando Sandra tomou a iniciativa:

— Quer dançar? — convidou.

Tarso respondeu que gostaria, mas que havia um problema:

— O que nos separa é um salto alto.

Como Tarso e Sandra regulam na altura, com 1m70cm, o salto a deixava mais alta — o que não era bem visto pelos padrões da época. Sandra nem pensou. Descalçou o sapato e ficou de pés no chão:

— Agora não tem mais nada.

Militância política a exemplo do pai

Naquela época, Tarso já militava na política, seguindo os passos do pai. Amigo de João Goulart, Adelmo Genro chegou a escrever discursos para Jango quando morava em São Borja, onde Tarso nasceu. Por ter organizado a resistência ao golpe militar quando era vice-prefeito de Santa Maria pelo PTB, o pai foi cassado pela ditadura, em 1964. Já o filho começou sua atuação pelo movimento estudantil. O marco do seu engajamento ocorreu aos 15 anos, quando fez uma viagem para um congresso na Paraíba que mudou a sua forma de enxergar o mundo. Foi a primeira vez que viu gente passando fome.

— Foi muito marcante, porque ali eu vi de forma mais brutal o que era a desigualdade e a opressão de classe no Brasil. A partir dali, voltei e mergulhei mais nas relações da clandestinidade — conta.

Suas ações o levariam ao Partido Revolucionário Comunista (PRC), que a partir de 1984 aglutinou os dissidentes à esquerda do PC do B. Ali, conheceu José Genoino, Chico Mendes e Marina Silva — que define como uma “querida amiga” com quem tem uma divergência, pelo fato de ter substituído aquela “ideologia marxista clássica” que os unia nos anos 1980 por “uma vocação religiosa fundamentalista”.

As ações clandestinas teriam como consequência o exílio de dois anos em Rivera, onde chegou 13 dias após o nascimento da primeira filha, Luciana. Ao voltar, ganhou fama e dinheiro como advogado.

A carreira jurídica deixou como legado um vocabulário rebuscado, nem sempre compreendido nos discursos. Ao participar de um ato de campanha organizado pelo Cpers, em 16 de setembro, levantou dúvidas na própria equipe ao falar sobre o piso do magistério.

— O salário tem uma função adjeta — argumentou.

A assessora de imprensa que anotava sua fala para transmiti-la nas redes sociais estancou antes do fim da frase. Olhou para o coordenador do programa de governo da campanha petista, Marcelo Danéris, pedindo socorro. Como Danéris também não sabia o significado, recorreu ao dicionário de seu tablet. “Adjeto quer dizer que traz algo junto, que o salário traz benefícios”, esclareceu, em seguida.

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Se o vocabulário de Tarso é pomposo, os gestos preservam a simplicidade. Garçons do palácio se espantam porque o governador eleito no primeiro turno em 2010, depois de passar pelos ministérios da Educação, Justiça, Relações Institucionais e Conselhão do governo Lula, contenta-se com gelatina de sobremesa.

Disciplina, caminhadas e alongamento

Disciplinado, Tarso mantém uma rotina austera: costuma acordar por volta das 5h, preparar o café e chamar Sandra. O horário é o momento de encontro do casal, que durante a campanha frequentemente só volta a ficar frente a frente no café da manhã seguinte.

Faça chuva ou sol, seja em casa ou viajando, o petista não abre mão de praticar exercícios. Apaixonado por basquete, que joga desde a adolescência, disputa de vez em quando partidas com os seguranças ao amanhecer. Mas o ritual mais frequente é uma caminhada matinal no Parcão, ao lado do labrador Paco, seguida por alongamento em casa: de ponta cabeça, pendurado pelos joelhos, exige dos músculos.

— Aos 67 anos, se a gente não cuida um pouquinho da carcaça, logo começa a decair — brinca.

Precavido, Tarso faz check-ups periódicos e sobe à balança regularmente. Se repara que aumentou um quilo, corta o pão durante a semana para compensar. E cobra da mulher a mesma disciplina. Em época com quilos extras, Sandra ouvia provocações bem-humoradas do marido:

— Não casei com essa graxinha!

No cuidado com o corpo ou na política, a obstinação é uma das marcas da personalidade de Tarso. Colegas da prefeitura lembram que, quando era vice-prefeito de Olívio Dutra, no primeiro mandato do PT em Porto Alegre, e depois como prefeito, Tarso carregava uma caderneta. Caso visse alguma lâmpada queimada ou bueiro entupido, escrevia um bilhete e mandava entregar ao responsável.

— Ele ia sempre na frente do carro, do lado do motorista, e ia cuidando — lembra a jornalista Vera Spolidoro, que trabalha a seu lado desde os anos 1990.

Agora, Tarso anda no banco de trás e substituiu os bilhetes escritos à mão por e-mails e mensagens aos secretários. Ao fazer cobranças, costuma ser firme, mas bem-educado. Quando algo não sai como planejado, faz a reprimenda sem elevar o tom de voz.

— Ele não xinga, ele só te olha. E aí diz assim: “pô, tu podia ter feito tal coisa” — conta um subordinado.

Na família, oposição política, cobrança e humor

Acostumado às pressões, que começam na família (com a oposição política da filha Luciana Genro, hoje candidata à Presidência pelo PSOL), Tarso recorre ao humor para aliviar a tensão. Nos fins de semana, quando se reúnem, as divergências partidárias viram piada. Ao ver o neto Rodrigo (de Vanessa, sua filha caçula), um ano e meio, dando gritinhos certa vez, disse que parecia Luciana discursando. Também já a chamou de “musa de 1%”, conta o neto Fernando, que é ativista do PSOL e vai votar no pai, Roberto Robaina, na eleição ao Piratini.

Quando o governo do avô é alvo de polêmicas, como o gás lacrimogêneo disparado pela Brigada Militar para dissipar uma manifestação de professores diante da casa de Tarso, em setembro de 2013, Fernando é o primeiro a cobrar. Durante os protestos de junho, ele e a mãe, Luciana, também haviam sido atingidos por gases da Brigada.

— Pô, com os “vândalos” ninguém se importa, mas jogar gás lacrimogêneo nos professores ficou bem mal, hein? — ironizou o neto.

Nessas horas, Fernando diz que o avô logo desconversa para não alongar a contenda. Luciana também aprendeu a contemporizar.

— Antes eu provocava mais, depois achei melhor preservar a relação pai e filha. Ele é um pai amoroso, apesar das divergências.

Uma prova da pluralidade vigente na família está na decoração da própria casa de Tarso: na sala de estar, quadros emolduram fotos tiradas por Sandra dos estádios do Inter — o time do Tarso — e do Grêmio — onde o neto já jogou. No sofá, almofadas azuis e vermelhas.

Para Luciana, o grande erro do pai foi continuar no PT, mesmo tendo uma visão crítica.

— Ele acha que o PT é o possível, se contenta com pouco — critica.

Tarso discorda. Acredita que o PT “é um partido cuja taxa de validade não venceu ainda”.

— Estes erros ou equívocos, ou ilegalidades cometidos por petistas, são erros, equívocos e ilegalidades cometidos por todos os partidos. Mas tarefas do futuro são muito mais complexas do que o que foi feito até agora — pondera.

Agnóstico, Tarso prefere confiar na força da história e do racionalismo em vez de esperar por bênçãos dos céus. Por via das dúvidas, também testa a sorte: joga toda semana na Mega Sena.

* Zero Hora

 
 
 
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