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Da infância pobre aos bastidores do poder: a trajetória de Ana Amélia Lemos

Temperamento forte e exigente é uma das marcas da candidata do PP ao governo do Estado

Por: Cláudia Laitano
23/09/2014 - 05h01min
Da infância pobre aos bastidores do poder: a trajetória de Ana Amélia Lemos Júlio Cordeiro/Agencia RBS
"Do Figueiredo à Dilma, todos os presidentes da República me conheciam pelo nome", garante Ana Amélia Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

No Internet Movie Database (IMDb), maior e mais popular banco de dados sobre cinema, o verbete “Ana Amélia Lemos” é compreensivelmente sintético: “Ana Amélia Lemos is an actress, known for Não Aperta, Aparício (1970)”. A participação no filme estrelado por Grande Otelo e José Mendes é breve, mas não passa despercebida. Ana Amélia aparece nos 10 primeiros minutos, no papel da artista de circo Miss Meri, “a maior equilibrista das Américas”.

— Continuo sendo equilibrista —- brinca a candidata.

A pouco menos de duas semanas das eleições, sua posição na corda bamba das pesquisas foi mantida mesmo com a recente revelação de que atuou em um cargo de confiança no gabinete do marido, então senador biônico nomeado pela Arena, durante um período de 11 meses entre 1986 e 1987 (antes da Constituição de 1988, que tornou ilegal o nepotismo na administração pública, como tem frisado a senadora). Na pesquisa do Datafolha divulgada na quinta-feira, a candidata da coligação SD/PRB/PSDB/PP aparece com 37% das intenções de voto.

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A brevíssima experiência cinematográfica e o curto período em que assessorou o marido, porém, parecem raros desvios de rota profissionais em uma trajetória marcada por foco (na carreira jornalística e depois na política), objetivos claros e determinação — temperados por um gênio forte. Dependendo do interlocutor convidado a descrever os traços mais marcantes da sua personalidade, Ana Amélia pode ser definida como “difícil e exigente” ou como “generosa, mas exigente”. A senadora admite que cobra empenho de quem a cerca, mas atribui parte da culpa pela imagem de intransigência à astrologia:

— Sou de Áries, sou impaciente. As pessoas às vezes não entendem, mas sou do tipo que, se precisar, varre esta sala, carrega esta cadeira (antes de começar a entrevista, ela havia realmente carregado a própria cadeira para o local mais apropriado para a conversa). Eu me impaciento quando vejo que uma pessoa tem capacidade, mas não faz, ou erra por falta de comprometimento ou desatenção.

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O braço direito

Um dos colaboradores mais próximos de Ana Amélia desde a campanha para a eleição ao Senado, Marco Aurélio Ferreira, chefe do gabinete da senadora em Brasília e atual coordenador da campanha para o governo, foi a primeira pessoa a perceber que a origem humilde e rural da candidata poderia ser usada para humanizar a imagem sisuda da jornalista. Os dois se conheceram em uma pré-convenção do PP, em maio de 2010, e desde então Marco Aurélio é o braço direito da senadora — tão próximo que os dois tornaram-se vizinhos em Canela, para onde Ana Amélia transferiu seu domicílio eleitoral.

— As pessoas conheciam a jornalista, mas não sabiam da história pessoal dela, que é parecida com a de muitos gaúchos do Interior. Naquela pré-convenção, eu disse a Ana Amélia que ela precisava se apresentar, mostrar quem ela era, apesar de já ser muito conhecida — lembra Marco Aurélio, 42 anos, natural de Ijuí.

A estratégia deu certo: os cerca de 2,5 mil correligionários saíram daquela convenção convencidos das chances de Ana Amélia de conquistar uma vaga no Senado. Com um total de 3.401.241 votos (número que a candidata tem sempre na ponta da língua), a jornalista foi conduzida ao Congresso na eleição de 2010.

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Dama de companhia

Recebendo ZH na casa da zona sul de Porto Alegre onde funciona o quartel-general da campanha, a candidata narra a própria trajetória com objetividade de jornalista — e cálculo de político.

Ana Amélia nasceu em 23 de março de 1945 em Clemente Argolo, interior de Lagoa Vermelha. Mais velha dos nove filhos do marceneiro João Laureano de Lemos e da dona de casa Cilene Daros de Lemos, ambos já falecidos, Ana Amélia ainda não havia frequentado a escola quando a primeira oportunidade para mudar de vida cruzou seu caminho.

— Minha mãe me mandou comprar alguma coisa no armazém, e quando cheguei lá vi uma senhora muito elegante, que chamou minha atenção. Ela reparou que eu estava olhando e me perguntou se eu não queria ir morar com ela em Porto Alegre, como dama de companhia. Aceitei na hora.

Poucos dias depois, em julho de 1954, uma menina de nove anos acostumada a andar descalça em ruas empoeiradas, “como as do Velho Oeste”, sem luz elétrica ou banheiro dentro de casa, desembarcava em um apartamento do oitavo andar da Avenida Independência, um dos endereços mais elegantes da cidade na época, e andava de elevador pela primeira vez. O choque de estilos de vida não poderia ter sido maior, mas a adaptação foi mais fácil do que se poderia imaginar.

— Em uma semana, eu já me sentia em casa — conta.

Em Porto Alegre, Ana Amélia foi matriculada no Grupo Escolar Argentina. Ganhou luvas, meias, sapatos e lições de como se comportar como uma mocinha de sociedade. Em troca, acompanhava a benfeitora, a viúva Rosita Dornelles Ache, em seus compromissos sociais e fazia pequenos serviços em casa. Foi transferida mais tarde para a Escola Estadual Othelo Rosa, onde não chegou a completar os estudos porque, depois de quatro anos longe de casa, começou a sentir-se dividida entre a vida confortável que levava e a saudade dos pais e irmãos — e acabou voltando para Lagoa Vermelha.

Em Porto Alegre, Ana Amélia tinha ouvido falar de Leonel Brizola e de como ele havia estudado engenharia graças a uma bolsa de estudos. Quando chegou a hora de cursar o ginásio e percebeu que a família não teria condições para pagar, teve a ideia de escrever uma carta ao governador Brizola pedindo uma bolsa no internato da Escola Normal Rainha da Paz, de Lagoa Vermelha. Dois meses depois, chegou a resposta, endereçada à “senhora Ana Amélia”, concedendo a ajuda. Para pagar os livros e o uniforme, a estudante empregavase, “nas férias grandes”, como balconista. No último ano do Normal, começou a trabalhar como auxiliar de disciplina em uma escola pública à noite, e foi graças a esse emprego que conseguiu se transferir para Porto Alegre, onde se instalou em um pensionato e planejou os próximos passos da vida profissional.

Decidida a continuar estudando, escolheu o curso de Serviço Social, mas não foi aprovada no exame psicotécnico, que era eliminatório. Pensou então em fazer Direito, mas não tinha estudado latim o suficiente.

— Todos nós temos um destino já escrito. Não é fatalismo, é uma crença: Maktub. Está escrito — reflete.

O jornalismo

Escrito ou não, seu destino era o jornalismo — uma profissão ainda pouco comum para moças no final dos anos 1960. Prestou vestibular para o curso de Comunicação da PUC em 1967. Apesar da efervescência política da época, a jovem universitária passou ao largo do movimento estudantil.

— Meu negócio era a sobrevivência, não tinha uma percepção clara da política naquele momento — admite.

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Com a ajuda do então deputado estadual da Arena Octávio Omar Cardoso, que havia sido promotor em Lagoa Vermelha e para quem a mãe da senadora havia trabalhado, Ana Amélia conseguiu uma bolsa da Assembleia Legislativa para cursar a faculdade. Em 1973, Octávio Cardoso, 15 anos mais velho, separou-se da mulher, com quem teve três filhas, para unir-se a Ana Amélia. Os dois não tiveram filhos e ficaram juntos até a morte dele, em 27 de fevereiro de 2011 — menos de um mês depois da posse dela no Senado.

Ana Amélia faz questão de mencionar, nome por nome, cada uma das pessoas que lhe “estenderam a mão”, de uma forma ou de outra — da senhora que a levou para Porto Alegre na infância ao ex-governador que lhe deu uma bolsa de estudos. Nessa lista, não faltam os muitos empresários e profissionais do mercado financeiro que ajudaram a completar sua formação, a partir de 1970, quando começou a trabalhar no Jornal do Comércio.

— Eu pedia para me explicarem os conceitos que não entendia e assim fui aprendendo. Percebi que havia um caminho se abrindo nessa área — conta a jornalista, que se orgulha de ter sido uma das primeiras mulheres a se dedicar ao jornalismo econômico no país.

A carreira em Brasília

Em 1977, Ana Amélia começou a trabalhar no Grupo RBS — onde ficou até 2010, quando se desligou da empresa para concorrer. Foi repórter de economia, produtora e apresentadora de TV até 1979, quando foi transferida para a Sucursal de Brasília, acompanhando Octávio Cardoso, que fora nomeado diretor de Recursos Humanos da Caixa Econômica Federal e mais tarde assumiria o cargo de senador como suplente de Tarso Dutra (entre 1983 e 1987). Em Brasília, como não poderia deixar de ser, começou a se afastar da economia para focar no jornalismo político.

— De Figueiredo a Dilma, todos os presidentes da República me conheciam pelo nome — afirma.

Durante os anos de atividade jornalística, Ana Amélia acostumou-se a receber em casa presidentes e outras autoridades, ganhando experiência e traquejo como anfitriã. Também percorreu boa parte do mundo cobrindo viagens oficiais. Aos lugares que mais gostava, procurava voltar com o marido — Alemanha e Espanha estavam entre os destinos preferidos do casal. Na sala em que grava os vídeos para a propaganda eleitoral, colocou porta-retratos em que aparece ao lado de Fidel Castro e do papa João Paulo II.

Por toda essa experiência do outro lado da vidraça, Ana Amélia chegou ao Congresso sabendo exatamente como a máquina política funciona. Como senadora, firmou a imagem de parlamentar assídua e que trabalha muitas horas por dia. Atua em várias comissões e mais recentemente tem dado especial atenção a projetos na área de saúde — o mais importante até agora é o que determina que os planos de saúde incluam a quimioterapia oral no tratamento do câncer. Seu nome também costuma ser ligado à defesa das causas do agronegócio.

A rotina metódica

Depois da morte do marido, Ana Amélia deixou a casa em que o casal morava e se mudou para um “apertamento”, como ela define, na Asa Norte. Em Brasília, tem uma rotina metódica, que inclui caminhadas de manhã, antes de ir para o Senado, e refeições leves, que a empregada prepara e ela leva em uma marmita para o Congresso. A praticidade e a organização pautam seu dia a dia e seus hábitos. A costureira Hildney escolhe os tecidos e confecciona os terninhos clássicos e as camisas que ela veste — sem nem mesmo precisar experimentar antes. Usa maquiagem antialérgica e nunca abre mão dos brincos. Se precisar arrumar o cabelo ou fazer as unhas, usa o salão do Senado.

Ser exigente e ter temperamento forte, “como todos os arianos”, pode ser desgastante. Em janeiro, a senadora passou alguns dias no Spa Tour Life, em Montenegro, e gostou tanto da experiência que pretende voltar depois da campanha. Ela andava se sentindo estressada, quase deprimida — “por incrível que pareça”. Com a ajuda de uma psicóloga, entendeu que ainda estava vivendo o período de luto pela perda do companheiro de quase 40 anos. Mesmo satisfeita com os insights que a psicóloga provocou, Ana Amélia nunca fez, nem cogita fazer, psicanálise.

— Se eu tivesse um analista, seria o analista de Bagé — brinca, fazendo referência ao personagem de Luis Fernando Verissimo, célebre por recomendar aos pacientes um único tipo de terapia para resolver todos os problemas: o bom e velho joelhaço.

* Zero Hora

 
 
 
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