Versão mobile

Perfil

Um gringo durão, mas piadista: a trajetória de José Ivo Sartori

Artista mirim, quase padre, ex-professor de cursinho e de Filosofia, prefeito, deputado estadual e federal, Sartori agora quer ser governador

24/09/2014 - 05h02min
Um gringo durão, mas piadista: a trajetória de José Ivo Sartori Júlio Cordeiro/Agencia RBS
Criado na colônia italiana, Sartori cultiva valores cristãos e a família, e cobra muito de todos a sua volta Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Em um dia normal de campanha, entre comícios e caminhadas, a comitiva do PMDB está parada em congestionamento em Rio Grande. Assessores se preocupam. Qualquer atraso gera um efeito cascata na agenda. Enquanto eles quase arrancam os cabelos, José Ivo Sartori saca da maleta preta um baralho espanhol. Quem está ao lado, no banco de trás, e no carona é imediatamente convocado para uma rodada de escova.

Scopa, como chamam os italianos, é um jogo de cartas trazido para o Brasil pelos imigrantes que se alojaram nas escarpas do Planalto gaúcho no final do século 19. O baralho, que o menino José aprendeu a manusear com o pai, Antônio, no interior do interior de Farroupilha, é um dos itens da maleta do político que tenta, pela primeira vez, chegar ao Palácio Piratini. Também não podem faltar comprimidos de Omeprazol para a gastrite e um livrinho de piadas. 

— Algumas são politicamente incorretas. Não dá pra contar muito em público — brinca.

Piadas saltam nas frestas dos pronunciamentos de Sartori diante de empresários, sindicalistas ou eleitores comuns. Os 30 anos de sala de aula ajudam na performance diante do público. Mas nos palcos da política, nada inspira mais do que a experiência que teve aos 13 anos, no colégio de freiras São José, em Antônio Prado. A três dias da apresentação da peça Cavaleiro Negro, um colega adoeceu:

— Uma freira me chamou, na sexta-feira, depois do recreio. Ela disse: 'Tu vais para casa, estuda este roteiro. Hoje à tarde tem ensaio. Amanhã à noite, tem apresentação'. Cheguei com todo o texto decorado.

No dia da encenação, a plateia riu. Sartori se divertiu e passou a integrar a trupe do colégio. Em outra apresentação, precisou entrar em um caixão, cena que fez um de seus irmãos cair em prantos.

Resquícios do artista aparecem não apenas na campanha. Na sessão de fotos para esta reportagem, o candidato alterna rosto fechado com sorriso. E avança com as mãos abertas sobre a câmera, como se fosse dar um susto no fotógrafo:

— Buuuu!

De carona com o candidato: José Ivo Sartori fala sobre livros e filmes preferidos

Leia todas as notícias sobre as Eleições 2014

Personalidade forte, mas sorriso escondido

Não pense que Sartori, 66 anos, é um cara fácil de se abrir. Com personalidade forte, durão, sorriso na maior parte do tempo escondido por trás do bigode denso, é um legítimo gringo. Algumas vezes, até os filhos reclamam de seu grau de exigência. Nos tempos de colégio, Marcos, o mais velho, chegava feliz da vida para mostrar ao pai a nota da prova: 9,5.

— Em vez de dar parabéns, ele perguntava: “Por que tu não tiraste 10?” — conta a mulher, Maria Helena Sartori.

Hoje parceiros de escova e de partidas de futebol pela TV, o jornalista esportivo Marcos Sartori, 31 anos, muitas vezes discorda do pai quando o assunto é o desempenho dos jogadores em campo. Se Sartori acha que o atacante está bem, Marcos critica. E vice-versa.

Sartori é durão com filhos, amigos, funcionários. Não gosta, por exemplo, de ser avisado às pressas sobre um compromisso, uma entrevista. Também não usa computador, internet, e-mail, rede social. Lê jornal de papel. O celular é antigo, e amigos se surpreendem quando ele responde por SMS:

— Os caras acham estranho, porque eu tenho celular e não tenho internet. Eu respeito, trabalhei muito como prefeito, incentivando a mudança, a transformação. Tem de ter ferramenta moderna, tenho de ser estimulador. Amanhã ou depois, quem sabe eu aprenda. Mas minha vida é tão agitada...

Dificilmente Sartori fica 10 minutos parado. Por isso, evita ir ao cinema. Duas horas na frente de um filme é tempo demais.

— Ele é hiperativo — diz a filha Carolina, 27 anos.

Assessores sabem que é preciso paciência e algum repertório para conquistar o chefe. Falar do Juventude, de amigos de longa data, recordar histórias, boa comida e vinhos abrem portas. É bom ter alguma piada na manga. Vale até recorrer ao livrinho, que, quando não está na maleta de Sartori, repousa no porta-luvas do carro.

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Nascido na colônia, em Farroupilha, o filho do seu Antônio e da dona Elza foi parar nos palcos de Antônio Prado em 1961 e de lá só saiu aos 18 anos para o seminário de Caxias do Sul, onde concluiu o Ensino Médio. Três anos depois, estudou Filosofia no Seminário Maior de Viamão. Teve como mestres dom Ivo Lorscheiter, dom Paulo Moretto e então um simples diretor da Faculdade de Filosofia chamado Claudio Hummes — mais tarde bispo e hoje um dos cardeais mais influentes do Vaticano.

A vocação para ser padre não se confirmou:

— Tem gente que acha que foi a Maria Helena que me tirou do seminário. Eu não continuei porque foi uma opção entre ser cínico ou não. Eu achava que tinha propensão para namorar, casar e constituir família.

Sartori mantém ainda hoje a fé — uma estátua de Nossa Senhora do Caravaggio decora o aparador cheio de imagens sacras na entrada da elegante casa, situada próximo ao Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul. Foi também pelo ensino religioso que ele pisou, pela primeira vez, como professor na sala de aula.

— Não adianta ensinar o Evangelho. Tem de demonstrar, na prática, o que é a vida, a família, o que é ter opinião e uma visão de sociedade — sustenta.

Foi um pouco o dom de artista, despertado pelas freiras, que o levou a conquistar a companheira (são 37 anos de união). Colegas do curso de Filosofia da Universidade de Caxias do Sul, Sartori e Maria Helena volta e meia retornavam para casa no mesmo ônibus. Certo dia, na aula, o professor chamou o nome dela, e ele interrompeu:

— Toda mulher é Maria. Toda Maria é mulher.

Silêncio na turma.

— E todo homem é José — completou Maria Helena.

José e Maria namoraram. Comemoravam mês a mês, sem saber se haveria o próximo.

— Ele era muito namorador — diz Maria Helena.

Galanteador, artista e até professor de cursinho pré-vestibular -— ou melhor, Cursão. Este era o nome da instituição em que Sartori foi professor e proprietário, tendo como sócio Germano Rigotto. Nunca o artista dos tempos de guri esteve tão presente quanto na frente da turma dos jovens vestibulandos:

— Foi um show. Eu tinha de desembuchar.

O ex-governador Rigotto lembra com carinho do sócio. Diretor do clube Caxias, ele convidou um então zagueiro do time prestes a se tornar treinador para atuar como o disciplinador da gurizada do cursinho: Luiz Felipe Scolari.

— Ele era o nosso xerifão da disciplina — conta Rigotto.

O artista e professor quer virar governador

A ditadura vivia seu ocaso, e o cantor Chico Buarque percorria o Circuito Universitário. Chegara a vez de Caxias. Como presidente do DCE, Sartori foi ao quartel entregar o setlist do show. Na Concha Acústica do Colégio do Carmo, Chico e MPB4 cantariam naquela noite uma canção nova: Cálice.

A música, a filosofia, a esquerda chamavam. O artista e professor virava político. Em 1974, filiou-se ao MDB. Nessa época, Sartori conheceu um futuro rival, com quem travou disputas eleitorais tão famosas em Caxias quanto os duelos do Juventude com o Inter nos anos 1990: o médico Pepe Vargas, do PT, primo de Rigotto. Em uma das eleições mais renhidas da história da cidade, em 2000, Pepe venceu por 824 votos no segundo turno. Reelegeu-se prefeito. Em 2004, a revanche. Sartori ganhou e, quatro anos depois, foi reeleito.

— Eu e Pepe nos respeitamos — diz Sartori sobre o adversário.

Foto: Júlio Cordeiro / Agência RBS

Atual deputado federal, Pepe também fala com cordialidade. Ambos tiveram carreiras semelhantes na política. Durante a ditadura, Pepe militou no MDB, único partido de oposição possível à época, mas nunca foi filiado.

— Eu e Sartori divergimos, obviamente, em vários temas da política. Mas temos um respeito mútuo. Convivemos politicamente há muito anos — afirma.

Entre eleitores, na rua, Sartori conversa com um, acena para outro. Alguns abrem as portas de casa, apresentam filhos, netos. Para fazer fotos desta reportagem, assessores aconselhavam um ponto alto de Caxias, de onde pudesse se ter uma imagem panorâmica. Ao chegar ao local escolhido, uma cerca de arame instalada nos últimos tempos atrapalhava.

Do alto de uma cobertura em prédio ao lado, um eleitor abria os braços e oferecia sua vista. Sartori foi entrando naquele apartamento, constrangido em atrapalhar o almoço de domingo. Mas os moradores estavam radiantes.

— Qual o teu sobrenome? — questionou o candidato, enquanto brincava com um menino de cabelo longo (“Preciso um pouco do teu cabelo emprestado”).

Nos encontros fortuitos, ele sempre pergunta o sobrenome do interlocutor. Fala mais alto o homem da colônia, quer saber a ascendência, a família, a origem.

Desde a redemocratização, Sartori conquistou cinco mandatos seguidos na Assembleia Legislativa. Presidiu a Casa entre 1998 e 1999. Os dois anos em que passou em Brasília, como deputado federal (2002), foram uma pós-graduação.

— Aprendi muito. Era raro o dia em que não conversava com o Miguel Arraes ou o Delfim Neto. Era o começo dos 12 anos do PT. Alertei que a aliança não seria boa nem para PMDB nem para PT — avalia.

Política e família andam juntas na vida dos Sartori. Na manhã de domingo, José Ivo fica sabendo da agenda da mulher em uma rápida troca de palavras, debaixo do pé de ameixa, no jardim, entre afagos no cão Isidoro. Não que ele fique muito à vontade na presença do cachorro. Por mais que Isidoro faça festa, corra pelo pátio e não pareça oferecer nenhum risco, Sartori parece meio sem jeito.

— Ele tem medo. Foi mordido na infância — cochicha Maria Helena.

A campanha não permite muito tempo em família. Sartori não tinha intenção de concorrer ao governo. “Estava tranquilo” como presidente do PMDB em Caxias. Soldado do partido, atendeu à convocação — muito por influência do amigo e mentor Pedro Simon, que insistiu até para que saísse o livro com sua história, Andanças, dos jornalistas Marcos Kirst, Paulo Cancian e Antônio Feldmann.

Falta tempo para o casal em campanha: Maria Helena é deputada estadual e tenta a reeleição. Enquanto ela busca os votos na Serra, Sartori percorre o Estado. Dias atrás, a filha Carolina, publicitária, fez uma selfie da sacada de casa, tendo como fundo a faixa com a foto dos pais: “Tomando café com meus pais”.

O domingo à noite tem sido um dos únicos momentos de reunião. O escritório da casa, com papéis acumulados sobre a mesa e livros por ler, denota que há tempos o casal não trabalha ali. Entre as obras guardadas na estante, Lenin e Sartre. Na pilha próxima à janela, Sartori reencontra a História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman, espécie de Bíblia dos jovens de esquerda dos anos 1970. A adega carregada de vinhos indica que os jantares em família têm sido escassos. O jovem colono bebia tinto. Hoje, prefere os brancos.

Sartori cuida da saúde. Quando pode, caminha na esteira — fez três quilômetros na manhã de domingo, em Caxias, antes de iniciar a agenda em Porto Alegre. Para desembarcar no Acampamento Farroupilha, ele passa protetor solar na calvície. É uma recomendação do dermatologista, atitude fiscalizada de perto por Maria Helena. O candidato ficará no apartamento na Capital. A mulher e os filhos estão em Caxias. Por mais um domingo, o jantar em família terá de ser adiado. Os vinhos da adega de que tanto gosta também ficam para a próxima — quem sabe, só para depois da eleição.

* Zero Hora

 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.