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Desvio de dinheiro

Em áudio, ex-diretor e doleiro detalham corrupção na Petrobras

Em gravações, ex-diretor Paulo Roberto Costa e doleiro Alberto Youssef dizem que esquema teria beneficiado PT, PMDB e PP

09/10/2014 - 16h20min
Em áudio, ex-diretor e doleiro detalham corrupção na Petrobras Aniele Nascimento/Agência de Notícias G/AE
Doleiro Alberto Youssef (centro), implicado na Operação Lava Jato, foi ouvido pela Justiça no Paraná Foto: Aniele Nascimento / Agência de Notícias G/AE

Em áudios divulgados nesta quinta-feira pela Justiça Federal do Paraná (ouça abaixo), o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef contam detalhes sobre o esquema de corrupção envolvendo a empresa.

O ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa confirmou que o esquema financiou a campanha eleitoral de 2010 de parlamentares e partidos. Ele depôs durante duas horas na Justiça Federal, em Curitiba, no processo em que é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro desviado das obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

O ex-diretor da Petrobras, que era funcionário de carreira da estatal, afirmou que chegou ao cargo com a missão de montar um esquema de propinas para políticos, e que havia grupos atuando de forma semelhante em outras diretorias:

– Havia um esquema de grupos atuando na Petrobras, cada um com seus interesses, cada um com seu operador.

Declarou, ainda, que, no caso das diretorias nomeadas pelo PP, os pagamentos eram divididos na proporção de 1% para esse partido e 2% para o PT sobre valores superfaturados de contratos da Petrobras com empreiteiras e fornecedores.

– Em média, se colocavam 3% para agentes políticos. (...) Do 1% do PP, 60% iam para o partido e 20% para despesas. Dos outros 20%, 70% vinham para mim e 30% ficavam com Janene (José Janene, ex-deputado e um dos responsáveis pela indicação de Costa para a diretoria da Petrobras) e depois com Youssef – contou, na gravação.  

Youssef confirma informações do ex-diretor e avança nos detalhes. Ele revelou como seria feita a distribuição da propina paga por empreiteiras para financiar partidos. Segundo ele, 60% do dinheiro desviado da Petrobras abastecia políticos. Disse que João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, e o lobista Fernando Soares seriam operadores do esquema.

Na gravação, o doleiro relata: "Era 1% de todos contratos: 30% para doutor Paulo Roberto (Costa, ex-diretor da Petrobras), 60% para agentes políticos, 5% para mim e 5% era para João Claudio Genu (ex-assessor do PP e do deputado José Janene, morto em 2010)".

ÁUDIO: na primeira parte do depoimento, Paulo Roberto Costa fala sobre seu ingresso na Petrobras (2min30s), a indicação de José Janene (4min10s), o processo de cartelização das empresas que participam de licitação na Petrobras (8min45s), os percentuais da propina (10min30s), a forma de entrega dos valores (16min50s), os repasses da Transpetro (23min) e o recebimento de dinheiro depois da saída da Petrobras (24min30s). Confira:

 


ÁUDIO: na segunda parte do depoimento, Paulo Roberto Costa detalha o recebimento de um carro como parte de propina (0min1s), menciona as empreiteiras e com quem negociaria os pagamentos (1min25s), explica as reuniões com grupo político e a tabela para as contribuições para partidos em 2010 (8min45s), admite a formação de patrimônio com as "vantagens indevidas" (9min45s), relembra as tentativas de quebrar o cartel (15min) e trata repasse de 3% de propina também no caso dos aditivos contratuais. Ouça:

 


ÁUDIO: no trecho final do depoimento, Paulo Roberto Costa relaciona os nomes das personalidades com quem contactava nas construtoras (0min15s), detalha sua participação no conselho da refinaria Abreu Lima (3min), relata o envolvimento de Youssef no esquema (7min), explica as razões pelas quais virou diretor da Petrobras (12min20s), volta a falar sobre a relação com o doleiro (19min), relata as dificuldades para quebrar cartel (25min25s) e lembra que, nos primeiros 27 anos na Petrobras, não tem máculas (30min10s). Ouça:

 


ÁUDIO: na primeira parte do depoimento, Alberto Youssef nega ser chefe do esquema (6min45s), lembra o início no envolvimento na irregularidade (7min45s), trata sobre a abertura de contas para movimentar o dinheiro (9min), relata a forma como se dava a distribuição de propinas e a relação com as empreiteiras (13min20s), apresenta a distribuição dos valores para partidos, diretores da Petrobras e agentes públicos (24min20s) e fala sobre o acerto prévio das empresas para as licitações (28min25s). Ouça: 

 


ÁUDIO: na segunda parte do depoimento, Alberto Youssef detalha diálogo com empreiteira (1min37s), confirma os percentuais da propina (3min50s), relata como se dava o acordo para definir as empresas vencedoras das licitações (7min49s) e explica como se calculavam a divisão dos valores. Ouça:

 


ÁUDIO: na terceira parte do depoimento, Alberto Youssef narra o surgimento do laboratório Labogen, alvo da Operação Lava-Jato (0min), a relação com o diretor comercial da Sanko-Sider Marcio Bonilho (10min50s), o uso de notas fiscais para justificar as propinas (21min50s) e sobre sua função no esquema (26min). Ouça:

 


ÁUDIO: no trecho final do depoimento, Alberto Youssef relata como se davam as reuniões para definir detalhes do esquema (0min32s) e como ocorria o controle da distribuição da propina. Ouça:

 


Antes de Genu, seria Janene quem receberia a parte do PP, segundo o relato. Ambos já tinham sido condenados no processo do mensalão. Youssef explicou como seria feita a suposta distribuição da propina paga por empreiteiras contratadas pela Petrobras e que, segundo ele, teria financiado partidos políticos — entre eles PT, PMDB e PP, alvos da operação Lava-Jato, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, na Justiça Federal de Curitiba.

O doleiro revelou que foi por meio dos operadores do esquema (João Vaccari, ex-tesoureiro do PT, e o lobista Fernando Soares) e das empreiteiras que ele ficou sabendo que todas diretorias da Petrobras teriam esquemas de propina igual àquele em que ele próprio atuava na diretoria de Abastecimento.

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No caso específico da empreiteira Camargo Corrêa, Youssef revelou que sua propina seria de 10% sobre todo produto comprado e que repassaria comissões para executivos da própria empresa. "Da Camargo Corrêa foi 10% de cada venda. De outras empresas, menos", afirma no depoimento. Questionado pelo magistrado Sérgio Moro sobre os pagamentos de comissão aos próprios diretores, ele respondeu que estava dentro de seu percentual.

O doleiro também listou 10 grandes construtoras do país como integrantes de um "cartel" montado para fraudar as licitações da Petrobras por intermédio do ex-diretor Paulo Roberto Costa e pagar propina a políticos do PT, PMDB e do PP. Afirmou ainda que diretores das empresas tinham comissionamento sobre o esquema.

Disse, a um dos procuradores da Operação Lava-Jato: "Era entregue uma lista que iam participar no certame (licitação) e já era dito quem ia ser o vencedor. Era uma lista repassada pelo Paulo Roberto Costa. Logo que iam existir os convites era passada a lista".

Entre as empresas citadas estão a Camargo Corrêa e a Toyo Setal, que pagariam 1% nos contratos feitos com a diretoria de Abastecimento e de 2% a 5% nos termos aditivos de contratos. Youssef acusou especificamente a Odebrecht e a Toyo por pagamentos de comissão feitos no exterior. As empresas citadas já negaram anteriormente qualquer relação comercial com Youssef e negam irregularidades nos contratos.

Em nota, a Transpetro também negou as afirmações de Costa. "As acusações são mentirosas e absurdas", diz o texto, em que a instituição manifesta o estranhamento da divulgação do depoimento "em pleno processo eleitoral".

* Zero Hora com Agência Estado

 
 
 
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