Polêmica em escola

Proibição de roupas curtas pode reforçar comportamentos machistas, dizem especialistas

Cartazes foram espalhados em escola de Cachoeira do Sul vedando o uso de shorts, minissaias e blusas que deixem a barriga à mostra

11/12/2014 - 14h08min
Proibição de roupas curtas pode reforçar comportamentos machistas, dizem especialistas Reprodução/Facebook
Cartazes proibindo uso de roupas curtas e decotes foram colados nos corredores da escola Foto: Reprodução / Facebook  

A decisão de uma escola de Cachoeira do Sul, região central do Estado, de proibir alunas de usar roupas curtas gerou polêmica entre alunos e parte da comunidade do município de pouco mais de 80 mil habitantes.

Os cartazes espalhados pela escola vedando o uso de "shorts, bermuda curta, blusa curta 'barriga de fora' e blusa com decotes grandes" levantaram uma questão: tal proibição pode reforçar comportamentos machistas? Especialistas ouvidos por Zero Hora acreditam que sim.

Para Eva Chagas, especialista em Educação Sexual, proibições são sempre provocativas, principalmente quando atingem adolescentes — e por isso devem ser pauta de discussão nos colégios.

— Entendo que o fato de meninas estarem mais expostas não significa que elas estejam se responsabilizando, provocando ou insinuando algo. Mas também considero que existem espaços em que o comportamento deva ser um, e espaços onde deva ser outro — avalia Eva.

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Professora e integrante do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da UFRGS, Jane Felipe acredita que as escolas que não têm uniforme podem estabelecer "protocolos de comportamento" — faz parte do papel da instituição orientar os alunos sobre normas de conduta, afirma. Ela considera, no entanto, que faltou diálogo com a comunidade no caso da escola de Cachoeira:

— É o momento certo para discutir esse crescente processo de erotização dos corpos infantis. É preciso, antes de proibir, discutir com a comunidade e os alunos. As meninas aprendem desde cedo que o valor delas tem a ver com o poder de sedução e roupas provocantes. Não deixa de ser função da escola mostrar que pensar assim é também uma forma de violência.

A polêmica ganhou dimensão após o Coletivo Feminista de Cachoeira do Sul ter encaminhado uma carta aberta à direção da escola:


Para a cientista política Telia Negrão, também coordenadora da ONG Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, a medida adotada repete as desigualdades nas relações de gênero da sociedade.

— A escola é um espaço de construção de cidadania. É nesse espaço que meninas e meninos vão aprender a construir a sua autonomia e as relações de respeito. Esse tipo de proibição reforça uma ideia muito recorrente: a de que as mulheres são responsáveis pela violência que sofrem.

* Zero Hora