Crise na Segurança

A cada 47 minutos, um pedestre é alvo de ladrões no centro de Porto Alegre

Ataques viraram rotina para a população que circula pela zona mais movimentada de Porto Alegre. Alta de 35% nos casos de roubo e queda de 11% no de furtos indicam aumento da violência em ações dos criminosos

16/02/2016 - 02h01min
A cada 47 minutos, um pedestre é alvo de ladrões no centro de Porto Alegre Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Terminal Parobé, ao lado do Mercado Público, é um dos locais que concentram mais assaltos, segundo a Brigada Militar Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Crise na Segurança/ 

A cada 47 minutos, um pedestre registrou ocorrência por assalto ou furto na área central de Porto Alegre no ano passado. É a média com base em todas as ocorrências do tipo registradas pelas duas delegacias da Polícia Civil na região em 2015. O dado comprova a sensação de quem circula por lá: os crimes fazem parte da rotina da zona mais movimentada da cidade.

Os roubos a pedestres saltaram 35% na área no ano passado em relação a 2014, enquanto os furtos recuaram mais de 11% – um indicativo de que os ataques têm sido mais violentos. Para o delegado da 17ª Delegacia de Polícia (DP), Hilton Muller, responsável pelo Centro Histórico, a reincidência contribui para o cenário.

– É a escalada normal da criminalidade: quando o sujeito pratica muitos furtos, não é preso ou logo ganha liberdade, e passa a praticar crimes com maior violência – diz.

Balconista de uma lanchonete em uma esquina em frente ao camelódromo, Jorge Guerra, 26 anos, foi vítima, em agosto passado, desse aumento de crimes:

– Estava na parada de ônibus (no terminal Rui Barbosa), um rapaz me perguntou as horas, puxei o celular para olhar, e ele o arrancou da minha mão e saiu correndo.

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Um mês depois do ocorrido, o atendente sofreu nova tentativa de roubo no mesmo local. Dessa vez, reagiu – atitude não recomendada por autoridades de segurança – e escapou. Desde então, a proprietária do estabelecimento onde Guerra trabalha passou a levá-lo em casa todos os dias depois do expediente:

– O Centro é uma loteria – queixa-se a empresária Adriana Lisboa, 46 anos.

Os arredores dos terminais de ônibus e do camelódromo concentram a maior incidência de ataques, segundo a Brigada Militar (BM). Nesses endereços, os bandidos aproveitam para agir em meio à aglomeração de gente que chega ou deixa o Centro Histórico. A estudante Agatha Caroline Brum, 17 anos, também teve o celular roubado em uma parada de ônibus. “Passa tudo”, disse o ladrão, que levou também a tranquilidade da jovem.

– Para quem ainda não foi (assaltado), é só questão de tempo – desabafa Agatha.

Mas nem só aparelhos telefônicos atraem os bandidos. Joias – e até bijuterias – têm sido objeto de furto ou roubo. O modo de operação é sempre o mesmo: o ladrão escolhe alguém distraído, arranca um objeto da vítima e desaparece correndo em meio à multidão apressada. Foi assim com a vitrinista Carmem Regina Irigay, 45 anos, na semana do Natal, quando lhe levaram a corrente que exibia no pescoço:

– Nem ouro era. Mas tinha um valor sentimental para mim.

Temor também entre estudantes e comerciantes

A sensação de insegurança tem provocado reações. Em setembro, professores de instituições de ensino do Centro Histórico organizaram um encontro e chegaram à conclusão de que o problema está generalizado. Eles se reuniram com representantes das polícias Civil, Militar e das secretarias da Segurança Pública municipal e estadual para cobrar soluções – que ainda não vieram.

– Ao longo do tempo, os estudantes têm reclamado da violência. Um aluno teve quatro costelas quebradas em um assalto e cancelou a faculdade, outro bateu a cabeça e sofreu traumatismo craniano, muitos deixaram de estudar à noite. Sugeri que instalássemos os “caminhos seguros”, com mais policiamento nas principais ruas que ligam as instituições aos pontos de transporte público – conta o coordenador da Fatepa-Faculdade e Cursos Técnicos, Telmo Souza.

O Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas) decidiu contratar uma consultoria de segurança e, neste mês, deve apresentar o plano às autoridades. Presidente da entidade, Paulo Kruse diz que os assaltos e furtos a pedestres se refletem nas vendas, uma vez que as pessoas evitam fazer compras no Centro:

– Quase todo lojista está colocando segurança privada, o que eleva os custos. Muitos estão sendo obrigados a fechar porque não têm condições de pagar o aluguel, investir em segurança e ainda ser assaltado. É necessário que se faça alguma coisa urgentemente.

População pede mais policiamento, BM diz não ter efetivo

Quem circula no centro de Porto Alegre pede reforço no policiamento. E quem deveria promovê-lo responde que não tem efetivo. A Brigada Militar (BM) enfrenta hoje déficit de 41% na tropa – tem cerca de 19,1 mil policiais militares, quando o necessário seriam 32,4 mil (não estão incluídos na conta os números de bombeiros, tanto o existente quanto o previsto em lei).

O elevado número de ataques a pedestres no Centro Histórico, na avaliação da BM, se explica, em parte, pelas casas noturnas conhecidas como “inferninhos”. De acordo com o comandante do 9º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Marcus Vinicius Gonçalves Oliveira, alguns frequentadores desses estabelecimentos (a maioria localizada na Rua Marechal Floriano) promovem arrastões no fim da noite e no começo do dia. Em uma recente operação em uma dessas festas, por exemplo, a polícia conseguiu prender dois foragidos.

– Tenho de retirar policiamento de outros turnos para dar atenção a um horário no qual transitam poucas pessoas no Centro. Há um deslocamento da segurança pública que poderíamos evitar se houvessem ações mais contundentes de outros agentes públicos – defende Oliveira.


Na esquina da Rua Marechal Floriano Peixoto com a Avenida Salgado Filho, Brigada Militar aponta que "inferninhos" aumentam o perigo (Foto: Ronaldo Bernardi)

Outra queixa da BM diz respeito ao prende e solta de criminosos (seja em razão das leis brandas, seja pela falta de vaga nos presídios superlotados).

Na semana passada, por exemplo, a polícia deteve um adolescente de 15 anos perto do camelódromo. Ele carregava uma faca e havia sido flagrado por câmeras de segurança cometendo delitos. Horas depois, foi avistado novamente no mesmo local.

– Provavelmente, se essas pessoas presas pela polícia estivessem reclusas, não necessitaríamos de tantos policiais e o clamor não seria tão grande. Ocorre que o efetivo nunca vai ser suficiente, porque, quanto mais se prende, mais eles voltam – reforça o comandante do 9º BPM.

O delegado da 17ª Delegacia de Polícia (DP), Hilton Muller, admite dificuldade para identificar os autores dos crimes porque, muitas vezes, nem a própria vítima consegue descrevê-los.

– Realmente, há muitos crimes para os quais não conseguimos nem sequer começar uma investigação – lamenta.



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