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Outro lado

Conheça os setores do Estado que se beneficiam da crise

Pelo menos sete segmentos produtivos do Rio Grande do Sul se aproveitam situações econômicas específicas, como alta do dólar e perda do poder de compra dos brasileiros, para crescer

08/02/2016 - 21h12min
Conheça os setores do Estado que se beneficiam da crise Carlos Macedo/Agencia RBS
Com dólar mais alto, curtume A.P. Müller, de Portão, elevou faturamento em 80% no ano passado Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

A crise tem um outro lado. Apesar da paralisia de grande parte da economia brasileira, oficialmente em recessão desde o ano passado, há situações que acabam impulsionando alguns setores. O maior exemplo é o dólar. A disparada da moeda americana traz efeitos positivos para indústrias em grande parte dependentes de exportações, como couro e celulose.

— O principal vetor na nossa recuperação é o dólar — reforça a presidente-executiva da Indústria Brasileira de Árvores, Elizabeth de Carvalhaes.

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O fator cambial também desencadeou uma invasão de argentinos no litoral do Estado, para alegria da rede hoteleira da região. Há, ainda, a alta de combustíveis, que estaria levando muitos gaúchos a decidirem preterir as praias catarinenses — em nome da economia — e preferirem permanecer no Estado. Na Serra, nota-se a presença de visitantes que até pouco tempo atrás estariam partindo para o Exterior, opção que ficou mais cara com a alta do dólar.

Outros desdobramentos da crítica situação brasileira, como a perda de renda e a alta da inflação, também acabam beneficiando o consumo de carne de frango, mais barata em relação à bovina, principal concorrente. Os tempos bicudos fazem ainda o segmento tecnologia da informação destoar do setor de serviços no país por ser percebido como um aliado para racionalizar custos e aumentar a produtividade.

Curtindo a nova fase

 

Com 80% da produção destinada ao Exterior, os curtumes do Estado vivem uma expectativa rara para a grande maioria dos setores da economia.

— Começamos 2016 com sentimento muito melhor do que foi a travessia de 2014 para 2015 — diz o presidente-executivo da Associação das Indústrias de Curtume do RS, Moacir Berger de Souza.

Pelo terceiro ano consecutivo, o Estado foi o maior exportador de couros do Brasil. Os embarques renderam US$ 492,9 milhões, 18% abaixo de 2014 em dólares. Mas com o câmbio mais favorável no ano passado, a receita em reais foi maior. Para 2016, a projeção é aumentar o faturamento em pelo menos 10% em moeda americana, e ter em reais resultado ainda melhor devido ao patamar do dólar na casa dos R$ 4.

— EUA e Europa estão em uma situação econômica melhor. A dúvida é a China, mas acreditamos que a demanda se manterá — afirma Souza, acrescentando que os resultados de 2014 foram atípicos e, por isso, prejudicam um pouco a percepção sobre 2015.

O curtume A.P. Müller, de Portão, teve desempenho ainda melhor. Totalmente voltado à exportação, aumentou em 25% a produção de couros semiterminados e acabados no ano passado, e o faturamento na moeda nacional subiu 80%. Como a empresa foi ao extremo na busca por melhorar a produtividade na época do dólar baixo, consegue agora proveito bem maior.

— Pegou-nos em situação bastante privilegiada — diz Cezar Müller, diretor da empresa.

Para 2016, a expectativa do setor é crescer a receita pelo menos 10% em dólares, com avanço nos mercados dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia.

Brinde às vendas

Mesmo que o desafio possa ser maior em 2016 devido à quebra da safra da uva, as vinícolas encerram 2015 com bom aumento das vendas. Pela difusão dos benefícios à saúde, os sucos de uva naturais e integrais cada vez ganham mais espaço. No ano passado, a comercialização no mercado interno cresceu 30,5%. Ao mesmo tempo, o reconhecimento ao avanço da qualidade também impulsiona a venda de vinhos. Nos finos, a alta é de 2,6%. Nos espumantes, ainda maior, de 11,9%. Outra mão vem do câmbio, que inibe as importações.

— Temos várias vinícolas ampliando a capacidade e investindo em tecnologia para aumentar a produção — conta o vice-presidente do Instituto Brasileiro do Vinho, Oscar Ló.

No emprego, o copo do setor está mais cheio do que vazio. É uma das poucas áreas que está contratando e não demitindo, lembra Ló.

Argentinos em peso (e em dólar)

Em Capão da Canoa, carros argentinos estão mais comuns nesta temporada
Foto: Félix Zucco

 

Subproduto da crise, a disparada do dólar fez o setor hoteleiro das praias gaúchas conseguir um lugar ao sol em meio ao tempo fechado da economia brasileira. A razão é a onda de argentinos, atraídos pelo câmbio mais favorável. Entre a metade de dezembro e o fim de janeiro, o número de hermanos que ingressaram no Estado pelos postos terrestres subiu 27% ante igual período anterior, mostra a Polícia Federal.

— Ficamos lotados desde o Natal até o fim de janeiro. Ficou até complicado acomodar tanta gente. Tivemos de despachar para outros hotéis e praias — conta Ivone Ferraz, empresária de Torres e presidente do Sindicato de Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares do Litoral Norte.

Além dos estrangeiros, a crise estaria levando os gaúchos, que em época de economia mais aquecida estariam optando por Nordeste ou Santa Catarina, a permanecerem no Estado. O preço a lto da gasolina, avalia Ivone, inibiu viagens de carro mais longas. Mas o motivo de maior comemoração é a invasão hermana.

Dono de parque aquático e hotel em Capão da Canoa, o empresário Fabiano Brogni registrou ocupação de 94% de seus leitos entre o Natal e meados de janeiro. Ano passado, na mesma época, ficou em torno de 60%. Mesmo satisfeito com o movimento, o empresário lembra que os brasileiros estão mais receosos para gastar, o que aperta as margens do negócio.

— Não reclamo do movimento. O problema é o custo alto. Não estamos conseguindo repassar — diz.

Virada na celulose

Após oito anos sofrendo com a valorização do real, a indústria brasileira de celulose ganhou novo impulso com a disparada do dólar. Mais de 90% da produção do país é destinada ao Exterior, especialmente para a China. Apesar da desaceleração na segunda maior economia do mundo, a transição chinesa de um modelo de crescimento baseado nos investimentos e exportações para o consumo interno já traz efeitos positivos para o setor.

— Exportamos para a China principalmente celulose para papéis de higiene e limpeza, mas fraldas para bebê são o carro-chefe — afirma a presidente-executiva da Indústria Brasileira de Árvores, Elizabeth de Carvalhaes.

Mesmo que o câmbio tenha sido o principal vetor da recuperação, o impacto menor da perda de ritmo da economia chinesa não fez na celulose o mesmo estrago verificado em outras commodities. Ao contrário do petróleo e do minério de ferro, o preço em dólar não caiu e a demanda tende a seguir firme, também devido ao bom momento na procura pela celulose brasileira tanto nos EUA quanto na Europa. As exportações de celulose encerraram 2015 com alta de 5,8%, chegando a US$ 5,6 bilhões.

Do Exterior para a Serra

Não há grande motivo para euforia, mas a viagem para o Exterior mais cara com o dólar nas alturas também parece ter influenciado o movimento na principal região turística do Rio Grande do Sul. No período dos eventos relacionados ao Natal, hotéis e pousadas da Serra conseguiram manter a taxa de ocupação usual para a época, entre 85% e 90%.

Maior agência de viagem do país, a CVC registrou no ano passado aumento de 14% na quantidade de passageiros embarcados para a serra gaúcha em comparação a 2014, resultado obtido com estratégias como tarifas mais competitivas tanto para voos quanto hospedagens, maior oferta de leitos nas cidades e pacotes com menor número de dias de permanência.

O presidente do SindTur Serra Gaúcha, Fernando Boscardin, revela que, em média, as tarifas da rede hoteleira caíram 30% durante o período do Natal Luz, de Gramado, e o Sonho de Natal, de Canela. O perfil do turista também mudou, nota o empresário.

— O estacionamento do meu hotel está cheio de caminhonetes. Era um público que viajava mais para o Exterior e acabou ficando por aqui. Mas a classe C desapareceu — observa Boscardin.

Mesmo mantendo a taxa de ocupação, 2016 será de difícil travessia, alerta:

— Se conseguirmos pagar os custos e manter os funcionários já estaremos felizes. Para isso, vamos cortar custos, como diminuir a variedade do café da manhã, ou cobrar por serviços, como estacionamento.

Para fazer mais com menos

Processor, de Porto Alegre, beneficia-se do interesse das empresas em melhorar a produtividade
Foto: Carlos Macedo

 

A mais recente pesquisa sobre o desempenho do setor de serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que tecnologia da informação é o único entre os segmentos analisados ainda com desempenho positivo no país.

Até novembro de 2015, cresceu 3,3% em 12 meses e 4% no ano. Claro que seria ainda melhor se a economia estivesse bombando, mas, em períodos de crise, as empresas também buscam as companhias do setor na tentativa de melhor atravessar a turbulência.

— As ferramentas de tecnologia ajudam as empresas a evitarem retrabalho, ganhar produtividade e fazer mais com menos — explica Letícia Batistela, presidente da regional gaúcha da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet.

CEO da Processor, Cesar Leite lembra que após as corporações terem inchado muito nos tempos de bonança, chegou a hora de repensar processos e, em dias de economia deprimida, com a busca pela redução máxima de custos, a palavra-chave é produtividade.

— Assim é possível minimizar impactos de fatores como crise política, econômica e câmbio — diz Leite, citando soluções em nuvem e big data como exemplos que ajudam empresas a diminuírem custos e centrar foco no seu negócio.

Em plena recessão, a Processor, de Porto Alegre, cresceu 24% em 2015. Para este ano, a meta é 20%.

Opção mais barata

A carne de frango, proteína animal mais exportada pelo Brasil, não teve o empurrão apenas do câmbio em 2015. Além das vendas externas mais facilitadas pela alta da moeda americana, a ocorrência de gripe aviária nos Estados Unidos fechou mercados para o maior competidor do Brasil, o que ajudou o volume embarcado a subir 5,8% ano passado, para 4,2 milhões de toneladas. Mesmo assim, a queda dos preços internacionais fez a receita em dólar cair 10,9%, chegando a US$ 7,07 bilhões.

No mercado interno, o consumo pode subir até 2% neste ano, aponta relatório do Rabobank, banco de origem holandesa especializado em agronegócio. A causa seria a concorrência com a carne bovina, mais cara, em um momento em que a recessão da economia nacional encolhe a renda do brasileiro.

— Na comparação com outros setores, não encolher já é um grande resultado. Estamos resistindo à crise, por enquanto — pondera o presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, Nestor Freiberger, lembrando que há o aumento dos gastos com milho e soja, maior fonte de custos do setor.

Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal mostram que a produção brasileira subiu 3,58% no ano passado, o que consolidou o país como vice-líder mundial de carne de frango.

 
 
 
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