Crise em Brasília

Acordo entre Renan e Temer tira o PMDB do governo

Desembarque deve ser confirmado nesta terça-feira por aclamação em reunião do diretório nacional do partido

Por: Guilherme Mazui e Fábio Schaffner / Especial
29/03/2016 - 02h00min | Atualizada em 29/03/2016 - 03h59min
Acordo entre Renan e Temer tira o PMDB do governo ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO/ESTADÃO CONTEÚDO
Temer, Renan e o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (C), reuniram-se em Brasília nesta segunda-feira Foto: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO / ESTADÃO CONTEÚDO

O aperto de mão entre o vice-presidente da República, Michel Temer, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, selou o desembarque do PMDB do governo Dilma Rousseff. O acordo fechado na residência oficial da presidência do Senado, nesta segunda-feira, será confirmado por aclamação na reunião do diretório nacional do partido, em Brasília, nesta terça-feira à tarde. Enquanto o fim da aliança com o PT é considerado certeza, resta divergência quanto à entrega imediata ou em duas semanas dos ministérios e das centenas de cargos na máquina federal. Henrique Eduardo Alves (RN) pediu demissão nesta segunda-feira do Ministério do Turismo, movimento que os outros seis colegas de Esplanada são pressionados a fazer nesta terça.  

Para evitar a imagem de que conspira para assumir o Planalto, Temer, que preside o PMDB, não comanda e não deve comparecer ao encontro desta terça, marcado para as 15h. Os trabalhos serão coordenados pelo vice do partido, o senador Romero Jucá (RR), outro defensor do fim do casamento com o PT, firmado nas eleições de 2010.

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O grupo de Temer intensificou as negociações para viabilizar a saída por aclamação, a fim de ocultar os rachas da legenda. Na reunião desta segunda à tarde, Temer e Renan acertaram que os insatisfeitos do diretório, compostos por 119 membros, faltarão à reunião, passando os votos aos suplentes. Conforme o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), que participou do encontro com os caciques, ficou acertado que os ministros do partido irão entregar os cargos na convenção desta terça à tarde. Nos bastidores, porém, alguns titulares de pastas resistem a devolver os cargos.

– Sempre que o Brasil precisou, contou com um PMDB unido. A unidade selada neste momento é o retrato de um partido coeso – garante o ex-ministro Eliseu Padilha, escudeiro de Temer.

Nesta segunda, o vice recebeu comitivas no Palácio do Jaburu, enquanto Padilha e Moreira Franco passaram o dia em ligações e reuniões, na conclusão do mapa de votantes da reunião, em confecção desde a semana passada. As debandadas dos diretórios do Rio de Janeiro e de Minas Gerais implodiram o ímpeto dos que defendem a permanência no governo.

Uma das últimas tentativas de postergar a saída foi tentada pelo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga (AM), em conversa com Temer. O vice refutou a ideia, mensagem levada por Braga a Dilma, que se reuniu com seis dos sete ministros do PMDB – Kátia Abreu (Agricultura) não participou por motivos particulares. O grupo admitiu a dificuldade de permanecer nos postos e sugeriu à presidente a tentativa de esvaziar a reunião do diretório.

Planalto eleva tom nas críticas ao vice por "estar no comando do golpe"

As ausências de caciques como o ex-presidente José Sarney e Renan reforçariam a imagem de que o PMDB segue dividido, com parcela importante dentro do governo e contrária ao impeachment. Na composição da coalizão para barrar o impedimento, o Planalto passou a trabalhar com a meta de garantir, com oferta de cargos, 15 votos dos 69 deputados do antigo aliado. A mesma estratégia de busca de apoio pingado nas demais bancadas tentará impedir a oposição de somar os 342 votos que levam o processo ao Senado.

– Parte do PMDB será contra essa tentativa de golpe – afirmou o deputado Henrique Fontana (PT-RS).

O Palácio também optou por elevar o tom contra Temer, acusado de estar "no comando do golpe", como apontou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). A ação visa a colar a imagem de que o vice sabota Dilma para assumir por via indireta. Outra linha é apontar proximidade com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), réu na Operação Lava-Jato. Os petistas lembrarão que Cunha só se tornou líder da bancada do PMDB, na legislatura passada, com o endosso de Temer, que também o apoiou na eleição para presidência da Câmara.

Maior partido do Congresso, o PMDB soma 69 deputados e 18 senadores. Sem o apoio da sigla, o Planalto terá mais dificuldades para barrar o impeachment, e corre risco de ver debandada de outras legendas da base, como PP, PSD, PTB e PDT.

Oferta de cargos é aposta para restaurar base

O desembarque do PMDB do governo mudará a fotografia da Esplanada. Com seis pastas até esta segunda – após o pedido de demissão de Henrique Eduardo Alves do Ministério do Turismo –, o partido abre espaço para que outras legendas da base de Dilma Rousseff ocupem os cargos vagos.

A oferta das pastas consta na estratégia concebida pelo Planalto para tentar garantir votos na batalha contra o impeachment.

– Quem sabe essa decisão ajude o governo a recompor a base com quem deseja ser fiel de fato – avalia o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que mapeia votos do processo de afastamento.

O governo prepara convites para que PSD, PP, PTB, PDT e PRB ganhem novos ministérios. As negociações não exigem bancadas fechadas contra o impedimento, bastaria um grupo considerável de parlamentares. Até o nanico PTN, com 13 deputados, pode ser chamado a assumir uma pasta. Rara legenda da base fechada contra o impeachment, o PCdoB gostaria de ter a lealdade reconhecida.

A saída do PMDB acelera a reestruturação da Esplanada. O ex-presidente da Câmara e um dos ministros mais próximos de Michel Temer, Alves não esperou o resultado da reunião do diretório nacional, deixou o cargo e aumentou a pressão para que os outros seis ministros do partido abandonem suas pastas.

– Os ministros vão ficar com a caneta mais algumas semanas para tentar cooptar deputados contra o impeachment? A entrega dos cargos deve ser imediata – defende o deputado Darcísio Perondi (RS).

Apesar do clamor interno, é possível que algumas saídas, em especial de funções de menor visibilidade, se arrastem por duas semanas ou mais. Para fugir da alcunha de que "saiu sem sair" do governo, o PMDB prega o discurso de que os cargos ficarão à disposição de Dilma. Quem permanecer, estaria na "cota pessoal" da presidente.

A cúpula do PMDB trabalha com a possibilidade de baixas. Titular da Agricultura, Kátia Abreu (TO) pode retornar ao PSD, partido controlado em Tocantins por seu filho, o deputado federal Irajá Abreu. Em atrito com o governador Marcelo Miranda (PMDB) e amiga de Dilma, a ministra tem a possível migração comemorada no diretório estadual do PSD.

À frente da Ciência e Tecnologia, Celso Pansera (RJ) cogita se licenciar do PMDB, ação também estudada por Marcelo Castro (PI), titular da Saúde. Recém-empossado na Aviação Civil, Mauro Lopes (MG) já tem processo de expulsão da legenda em andamento. Como os três são deputados, eles não podem trocar de partido, pois poderiam perder os mandatos.

Defensor do adiamento da reunião do diretório, Eduardo Braga (AM), ministro de Minas e Energia, tende a retornar ao Senado. Seu desejo de se eleger outra vez governador do Amazonas passa pela estrutura do partido no Estado, situação similar à de Helder Barbalho, ministro dos Portos, que pode tentar mais uma vez sua candidatura ao governo do Pará.

Articulação silenciosa até a cartada final

Discreto nas palavras, mas arrojado nas ações, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) concretiza nesta terça o ponto culminante de uma estratégia política que vem concebendo há pelo menos sete meses. Desde agosto do ano passado, quando ouriçou o Planalto ao dizer que o país precisa de "alguém que tenha a capacidade de reunificar a todos", Temer planeja o desembarque do PMDB do governo Dilma Rousseff. Apesar da ausência na reunião do diretório nacional que irá tomar a decisão nesta terça à tarde, suas digitais estão em todo o processo de rompimento com o governo.

Aos 75 anos e com mais de três décadas de vida pública, Temer sempre foi um político astuto. Gravita na órbita do poder com a rara desenvoltura de quem manobra lealdades e traições ao sabor das conveniências. Foi assim que se tornou uma das poucas unanimidades no PMDB, partido que preside desde 2001. Prevendo o esfacelamento da base governista no Congresso por conta da crise política e econômica, distanciou-se do Planalto.

Nas últimas semanas, passou mais tempo em São Paulo do que em Brasília, operando em silêncio a debandada do partido, o que deverá provocar efeito dominó em bancadas de suporte a Dilma. No domingo, em Congonhas, teria finalmente encontrado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após duas tentativas frustradas do petista em reunir-se para articular a manutenção no governo, e deu o aviso final: o PMDB sairá por aclamação.

Nesta segunda, passou o dia em reuniões, uma delas na residência oficial da presidência do Senado, onde encontrou Renan Calheiros, até então tido como esperança do Planalto. Na saída, o aperto de mão entre sorrisos dos dois caciques sinalizava que Temer havia ficado ainda mais próximo do objetivo de ver o governo ruir sozinho.

– Tudo o que o Michel tem de fazer agora é deixar o governo cair no seu colo por gravidade – resumiu um amigo próximo do vice.

É consciente da fragilidade do governo e diante da perspectiva de chegar a Presidência que Temer calcula cada passo. Com acenos ao mercado, ao empresariado e à oposição, se apresenta como fiador da estabilidade.

– Temer conspira e conversa, conversa e conspira. Não criou essa crise, mas diante da incompetência do PT, oferece o profissionalismo do PMDB – afirma o cientista político André César, da Hold Assessoria Legislativa.

Falta de protagonismo inspirou rompimento

Temer nunca foi o preferido do PT para compor a chapa presidencial. Era considerado ardiloso por Lula e voraz por Dilma.

A primeira vez que conversou a sós com a então candidata, em 2010, foi justamente na ocasião em que ela formalizou o convite à vice-presidência. Enquanto saboreavam um peixe ao molho de maracujá, Temer deixou claro que o PMDB aspirava ser protagonista, mas em cinco anos de gestão o partido não passou de figurante nas decisões palacianas.

Na única vez em que Dilma cedeu holofotes ao vice, em agosto de 2015, ele assumiu a articulação política e aprovou o ajuste fiscal no Congresso, mas o Planalto não cumpriu acordos que permitiram a vitória. Irritado, Temer recolheu-se ao Palácio do Jaburu e passou a planejar o rompimento.

– O Temer foi leal ao governo, mas foi maltratado. Recebeu missão, cumpriu e depois foi desautorizado. Essa atitude pavimentou o caminho do desembarque – avalia Antônio Queiroz, analista político do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

 
 
 
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