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Crise em Brasília

Ex-secretária de Valério diz que "o que Delcídio fala é exatamente o que falei"

Fernanda Karina Somaggio surge como potencial testemunha da Lava-Jato

Por: Fábio Schaffner / Especial
28/03/2016 - 03h00min | Atualizada em 28/03/2016 - 04h15min


Fernanda Karina ajudou a revelar detalhes do mensalão, em 2005 Foto: Ver Descrição / Ver Descrição

Em junho de 2005, Fernanda Karina Somaggio abalou o país ao revelar como o então empresário Marcos Valério de Souza operava um esquema de pagamento de propina a parlamentares do PT e da base governista. Citando com precisão datas e cifras, Fernanda foi uma das testemunhas-chave do processo do mensalão. À época, a principal prova que ela tinha era a agenda do período em que trabalhou como secretária de Valério. Na agenda, entregue à Polícia Federal, ela registrava telefonemas, reuniões, reserva de passagens aéreas, saques e depósitos bancários.

Localizada por Zero Hora no interior de São Paulo, Fernanda surge agora como uma potencial testemunha para a Lava-Jato, corroborando acusações feitas em delação premiada pelo senador Delcídio Amaral (sem partido-MS):

– Se, desde o começo, todos tivessem levado a sério tudo o que eu falei, não teríamos chegado a essa situação de hoje. Porque tudo que eu falei naquela época, se você for pegar, é exatamente o que o Delcídio está falando. À Procuradoria-Geral da República, Delcídio disse que Marcos Valério teve o silêncio comprado pelo PT.

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Condenado a 40 anos de cadeia, o operador do mensalão jamais revelou os meandros da ação criminosa. De acordo com Delcídio, ele cobrou R$ 220 milhões para ficar quieto. O senador diz ter conversado sobre o pedido com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que o pagamento ficou a cargo do então ministro da Fazenda Antônio Palocci. Na entrevista a seguir, Fernanda afirma que intermediou telefonemas de Valério a Delcídio e Palocci, e que o PT fez vários pagamentos ao empresário.

Aos 42 anos, Fernanda vive com medo. Não tem nenhum bem em seu nome, não revela a cidade onde mora e prefere que ninguém a chame de Karina, como era citada pela imprensa durante o mensalão. Em 2007, teve o pai assassinado em circunstâncias rumorosas, durante um suposto assalto que ela acredita ter sido encomendado para ela.

– Dois homens invadiram a casa dele perguntando por mim – afirma.

Você sabe de alguma coisa sobre supostos pagamentos ao Marcos Valério, para ele ficar em silêncio?

Eu disse que existiam vários pagamentos do PT para o Marcos Valério, de vários valores. O que o Delcídio está falando é exatamente o que eu falei.

Isso depois que estourou o escândalo, para ele ficar quieto?

É claro. Isso era combinado desde o começo, quando eles... Se houvesse algum problema, não era para ninguém falar porque todo mundo se acaba. E é assim que o Brasil funciona até agora, porque os políticos que estão no poder hoje funcionam dessa maneira, negociando o tempo todo.

Você tem algum registro desses pagamentos? No mensalão, a sua agenda foi uma das principais provas.

Eu já tentei recuperar minha agenda na Polícia Federal, mas eles não me dão porque hoje ela ainda é prova. Ela é uma maneira que eles têm de ligar todos os pontos. Eu não consegui de volta nada do que foi entregue espontaneamente para a Polícia Federal.

O que tinha na agenda?

Na agenda tinha tudo. Principalmente as viagens (de Marcos Valério a Brasília).

Algum registro desses pagamentos?

Isso eu não tinha porque não fazia parte do financeiro. Eu era só a parte de ligação entre o Marcos (Valério) e todo mundo.

E você lembra de atender a telefonema do senador Delcídio Amaral, do ministro Antônio Palocci, do Paulo Okamotto (presidente do Instituto Lula e também citado na delação de Delcídio)?

Eu falava com o Delúbio (Soares, ex-tesoureiro do PT, condenado no mensalão) direto, quase todos os dias. Eu falava com quase todo mundo, inclusive com o Delcídio. Agora, se você me perguntar datas, eu não sei. Não lembro. Todos eles eram contatos do Marcos.

Palocci e Okamotto também?

Claro.

Você se lembra de intermediar ligações, reuniões deles?

Na agenda tem algumas ligações para o Palocci, para o gabinete dele, porque na época eu acho que ele era ministro. Tem na agenda, porque foi pela agenda que eles (a Polícia Federal) chegaram às festas (na chamada mansão do lobby, onde o ex-ministro se reunia com empresários) e depois apareceu o caseiro (Francenildo Costa, pivô da queda do ministro em 2006, ao revelar ter visto Palocci várias vezes na casa, o que ele negava com veemência).

E você acredita que essas pessoas estavam pagando pelo silêncio do Marcos Valério?

Claro. O Marcos sabe de absolutamente tudo, tudo.

E por que ele não fala? Agora há a possibilidade de uma delação premiada.

Vai saber quanto é que custa o silêncio dele. A gente não sabe.

E você, o que sabe ainda?

Eu ainda sei de muita coisa. Mas não vou falar. Só se eu tiver certeza de que essa bagunça vai mudar. Eu creio muito na Lava-Jato. No que eu não creio é nas instituições.

E se a PF lhe chamasse para prestar depoimento, para contar o que sabe, você falaria com os investigadores?

Falaria, claro. Se eu souber o que eles perguntarem, falaria. Só que eu não tenho prova de nada. Eu não fiquei com nada. Tudo o que eu tinha foi para a Polícia Federal, e eles nunca me devolveram.

Das manchetes às urnas

Apesar de mencionar em entrevistas ter visto até "malas de dinheiro" saindo da agência de Marcos Valério, a ex-secretária recuou sobre esse ponto em seu depoimento à Polícia Federal, em 2005.

Na época, foi acusada de extorsão por Marcos Valério, mas obteve vitórias a seu favor na Justiça.

Depois de ficar desempregada, foi candidata a deputada federal pelo PMDB de São Paulo em 2006, mas não se elegeu. 


 
 
 
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