Foi preciso ver com os próprios olhos o corpo do filho estendido no chão de um parque à luz do dia para que o relações públicas Carlos Eugênio Azevedo Gonçalves acreditasse que a ligação recebida minutos antes não era um trote.
De um número desconhecido, havia atendido a chamada de uma amiga do filho Rodrigo Maciel Gonçalves, 17 anos, que pedia, entre soluços, para o pai do menino se direcionar imediatamente a um parque no bairro Humaitá, na zona norte de Porto Alegre.
Pouco antes, o filho havia sido assassinado por outro menino, de 14 anos, que o atingiu com um tiro no tórax durante uma tentativa de roubo. Dois dias depois do crime – e ainda tentando entender o que aconteceu naquela tarde – o pai de Rodrigo afirma ter mais questionamentos do que rancores.
– A partir de que idade ele (o adolescente que confessou a autoria do disparo) é responsável? Eu não sei. Ao mesmo tempo que ele tem 14 anos, ele já matou uma pessoa. Como vou responsabilizar uma criança? Como vou enquadrar isso? – indaga.
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Em entrevista a Zero Hora, Carlos Eugênio falou sobre o filho, a mobilização dos amigos de Rodrigo exigindo mais segurança, e as dificuldades de lidar com a violência na atualidade.
Desde hoje pela manhã, você topou conversar com a imprensa, chamando a atenção principalmente pelo fato de seu filho ter sido assassinado por outra criança. Por que decidiu falar?
Faço isso por ele. Faço isso por eles (amigos de Rodrigo), pois é uma maneira de ajudar os amigos, e também de ficar mais próximo deles, e consequentemente do Rodrigo. A gente sabia que eles eram muito importantes para o meu filho, e que meu filho era muito importante para toda a gurizada. Cobrava ele, achava que tinha de enquadrar ele e ele sempre dizia: "Pai, confia em mim, vou resolver da minha maneira". E ele resolvia.
Dói. O sofrimento é de todo mundo, mas agora não tem mais o que fazer. Tem de tentar ajudar os amigos, ver se tem um caminho. É um pedaço que vai ficar fora pro resto da vida, tentar conviver com o resto e ser um pouco melhor para orgulhar ele, tentar ser um pouco melhor na vida.
Como você descreveria o Rodrigo?
Era um menino que recém tinha feito 17 anos. Apesar da idade, sempre muito independente. Sempre foi muito solto, sempre se virou sozinho pelos dois pais trabalharem. Estudar, pegar ônibus, lotação. Às vezes a gente não consegue falar como pai e filho, mas o pouco que falava ele conseguia transmitir.
Em um momento disse para ele entrar em uma terapia, achava que ia ser importante pra ele, mas depois de algum tempo ele disse que falava mais pra mim do que pra ela (terapeuta). Ele disse: "Vamos falar para ver o que eu posso fazer de melhor, confia em mim". Acreditei e ele nunca nos decepcionou. É uma pena só não podermos acompanhar o resto da vida dele, porque a gente sabe que ele é muito melhor pra gente. Esses tempos disse que queria trancar a faculdade e fazer outra. Sempre conversamos muito. Ele sempre impôs suas vontades e tentamos sempre apoiar esse lado dele. Era muito afetivo. Tinha umas bochechas rosadas, sorriso lindo. Era um guri agregador, carinhoso. Isso deixa a gente feliz, orgulhoso. Feliz em saber que ele fez bem para tantas pessoas.
Você diz que o seu filho era um menino muito independente. Não temia pela segurança dele?
Na minha juventude toda atravessava a cidade, caminhando, passava a madrugada passeando. Isso fazia parte do meu mundo. Hoje sei que o mundo dele é outro. Acho importante ter a turma dele, saber fazer as festas, pegar um ônibus, ajuda o teu crescimento.
Mas paralelo a isso tem a questão do que estamos vivendo hoje. Causava preocupação em mim e nos outros pais, mas como vou dizer para ele não viver? Imagina se ele tivesse morrido como morreu mas tivesse sido trancado em casa. Anteontem, um dia antes de morrer, ele me ligou para contar que estava fazendo um churrasco para os amigos. Ele era assim, agregador. E acho importante que eles fiquem em casa, tragam as pessoas para dentro de casa, mas tem de deixar solto, só que tem de dar condições para eles, condições para irem para a rua.
Você disse que tinha uma relação muito próxima com o Rodrigo. Haviam conversado na segunda-feira, antes de ele ser assassinado?
Ele tinha mandado mensagem. Reclamei que não tinha visto ele no final de semana. Disse: "Tô com saudade meu, quando vamos almoçar?". Porque sempre almoçávamos juntos. Ele respondeu, amanhã (terça-feira) a gente almoça.
Sabe, tinha uma imagem na minha cabeça que ele ia morrer em um parque. Tinha esse medo. Tinha isso na minha cabeça. Tinha que podia encontrar ele um dia morto em um parque, mas também não podia trancar ele em casa. Assim como podia ser no parque, podia ser em qualquer lugar.
Você poderia contar um pouco como foi receber a notícia do assassinato?
A ligação foi de uma colega dele, era umas 17h30min. A menina ligou e pela voz dela não sabia se estava rindo ou chorando. Ela só dizia: "Tio vem aqui, vem aqui que aconteceu alguma coisa com o Guido".
Peguei minhas coisas e fui para a garagem. Liguei de novo para confirmar, ver se não era trote, na esperança de ser um trote, só que não era. Cheguei no parque, quando vi sai correndo e estava meu filho atirado no chão, a mãe dele sentada agarrada no corpo, os amiguinhos em volta. E ai tu não acreditas.
Qual foi a sensação na hora?
Sensação de não ser ninguém, não conseguir fazer nada para mudar aquilo ali. Ali, a polícia chegou pedindo para se afastar, a vontade que tu tens é de ficar agarrado no corpo. Ali, a polícia fez o que deu, mas tinha de ter uma sequência. Quando tu vê ele tá em cima da mesa, enrolado em um saco. Essa primeira noite foi isso, e esperar. Esperar ajeitar o corpinho dele.
O que você sentiu quando ficou sabendo que o assassino de seu filho era um menino de 14 anos?
Fazia parte do dia a dia dele e de todos sofrer assaltos. Quando estudava no colégio, cansou de ser assaltado ao meio-dia. Imagino que ele era um guri grande e forte. Teve outros fatos que ele reagiu e pedimos para não reagir mais. Ali, no momento, por ser uma criança, acho que ele não acreditou. É um guri que nem eu, e deve ter dito: "Nós somos iguais. Para, não faz isso comigo". Nessa reação, o cara deu o tiro. Acho que ele tratou o marginal como um guri que nem ele. Eu sinto, eu não tenho raiva, acho que faltou apoio familiar para esse guri. Faltou estudo, faltou Estado.
Faltou alguém que possa ter acolhido essa criança e dado um rumo para vida dela. Era alguém que estava ali, meio perdida, que provavelmente queria o celular para comprar droga. Vejo mais por esse lado, porque meu filho era da idade dele. Como a gente pode dar uma instrução melhor para ele, se ele não tivesse isso também poderia ter ido pro outro lado.
Mas não queria que essa pessoa tivesse cruzado por ele. A polícia vai lá, prende, faz seu trabalho de investigação, enquadra a pessoa, mas e daí? Tu tens onde botar essa pessoa? Não tem. Vemos exemplos a toda hora. A gente está falhando. O Estado está falhando em reabilitar essas pessoas para que possam voltar a conviver bem na sociedade. Ainda mais uma criança.
Ele tem noção do que fez, mas é uma criança, teríamos tempo para tentar salvar aquela vida. Hoje ele fez isso, amanhã pode sofrer o mesmo. Estou preocupado com os amigos do meu filho, com o que vai acontecer com eles. Com o menino que matou meu filho, não estou preocupado nem com o que vai acontecer com ele.
Você se emociona ao falar dos amigos de seu filho, do quanto eles demonstram carinho pelo Rodrigo...
A gente sabe nesses 17 anos o quão bom ele foi para gente, o quanto de bem fez para nossa família. Mas não sabíamos do tanto que ele já tinha agregado em volta dele nesse tempo de vida. Hoje de manhã quando entrei no Facebook dele e vi as mensagens, tive noção um pouco mais do que ele foi. Ele cuidava. Todo mundo dizia que ele cuidava dos outros. Cuidava dos amigos dele, cuidava da gente. Quero agora conviver um pouco mais com amigos para tentar pegar um pouco disso que o Guigo teve com eles. Pegar um pouco disso para mim, para gente. E para tentar melhorar para eles. A gente perdeu o Guigo, mas eles ainda têm uma vida pela frente.
E é nisso então que você se agarra...
Não tinha noção tanto disso, mas ele era muito agregador. Isso está sendo muito legal, conviver com isso, porque tu não tens noção apesar de estarmos sempre com ele. Ele representou muito para essa gurizada. Eles estão se apegando nisso também, já fizeram um evento no parque. Vou lá para acompanhar eles e por eles.
Você fala que não há quem responsabilizar pelo crime, mas o que imagina que possa ser feito para que outros jovens não sofram o mesmo?
Não vou responsabilizar ninguém por isso. Só queria que, como disse, as leis são muito antigas, tenho noção do papel do Estado, das leis, sei quem pode fazer alguma coisa, então, peço que façam. Vou tentar ajudar da minha maneira, mas todos têm de ser mais solidários. Temos de pensar um pouco mais nos outros. A política tem de ser feita de maneira mais solidária, mais representativa.
Falo político generalizando, mas isso é de todo o país. Como vou responsabilizar uma criança? A partir de que idade ele é responsável? Eu não sei. Ao mesmo tempo que ele tem 14 anos, já matou um. Como vou enquadrar isso? O que nos resta é acreditar e ver se tem como mudar, como melhorar. Temo pelas minhas outras filhas, pela minha enteada, pela minha família, mas quero que eles vivam, porque assim como poderia ter vivido muito mais, o Rodrigo viveu bem os 17 anos.