Alimentação

As medidas de Caxias do Sul para saciar a fome

Cenário é de desemprego e baixa nas doações de alimentos, problemas sentidos tanto pela rede pública quanto por órgãos como igrejas

Por: Cristiane Barcelos
15/10/2016 - 13h00min | Atualizada em 15/10/2016 - 13h00min
As medidas de Caxias do Sul para saciar a fome Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Na casa de Geni Rodrigues da Silva, os R$ 600 mensais são insuficientes para bancar todas as refeições Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

O Dia Mundial da Alimentação, celebrado neste domingo, provoca uma reflexão: como avançar e saciar a fome? Em Caxias, o cenário é de desemprego e de queda nas doações de alimentos. Embora não haja um número exato de quantas pessoas precisam de ajuda em Caxias, é fato que o aumento da procura por comida cresceu. Nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), o número de cestas básicas distribuídas gratuitamente subiu de 600 para cerca de 800 ao mês. Igrejas que ajudam comunidades também pedem socorro para arrecadar comida.

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As soluções práticas para atrair mais doações e atender a todos não estão completamente definidas, mas um passo foi dado: está criada a Câmara Municipal Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan), que reúne integrantes de 12 secretarias municipais. Além disso, a Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional já está com o texto inicial pronto. A ideia é que as estratégias sejam traçadas em 2017, junto do plano plurianual, que determinará os objetivos e metas para os quatro anos seguintes.

Nos últimos 12 meses, a conta é de 10,7 mil empregos fechados, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), índice que ajuda a engrossar a fila por comida. Nos seis Cras da cidade, a procura é não apenas por alimento, mas por auxílio para emprego e qualificação. A estimativa da diretora de proteção social básica da FAS, Alda Lundgren, é de que a demanda por serviços nos Cras, incluindo alimentação, tenha crescido 50% nos últimos meses.

— Tanto tem aumentado que não conseguimos atender como gostaríamos, mas as pessoas entendem a situação de desemprego de muita gente — avalia Alda.

Diante dessa realidade, a meta é que a política em criação dê garantias de que serviços de combate à fome já existentes sejam mantidos e ampliados, projeta a coordenadora de Segurança Alimentar e Inclusão Social do município, Janete Tavares. Entre essas ideias, está combater o desperdício: hoje, sete empresas destinam o excedente de refeições de funcionários para o Prato Solidário, o que resulta em 550 almoços ao dia. Se esse número aumentar, mais pessoas poderão matar a fome.

— As ações práticas vão depender de ouvirmos todas as 12 secretarias envolvidas, trabalho que vamos começar semana que vem — explica Janete.

O Caisan e a Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional se submetem à lei 7.421, de 2012, que institui o Sistema Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). Política e Caisan serão apreciados pelo conselho de alimentação antes de serem publicados.

Igrejas sentem reflexos

Assim como na rede municipal de assistência social, a procura por alimentos cresce em entidades como igrejas. Na comunidade do bairro Serrano, a Pastoral do Pão da paróquia Menino Deus tem optado por distribuir alimentos avulsos em vez de cestas básicas, porque a demanda é maior do que a arrecadação. São cerca de 40 famílias cadastradas para receber donativos.

— Com as doações em dinheiro conseguimos montar sete cestas básicas. Antes conseguíamos 20, 30. Então, abrimos as cestas e repartimos — comenta Laurita Panigas, 62, coordenadora da pastoral.

A igreja Assembleia de Deus também sente o aumento de pedidos. A média, que girava entre 110 e 120 kits por mês, saltou para de 170 a 180. Como nem sempre as doações são suficientes, a igreja compra o alimento necessário para atender a todos.

— O aumento é muito impactante, percebemos muitas famílias em que o casal perdeu o emprego — aponta Maristela Carneiro, coordenadora administrativa do centro filantrópico de assistência social Charles Leonard Simon Lundgren, ligado à igreja.

"Às vezes eles querem algo diferente e não tem"

Na casa de Geni Rodrigues da Silva, 41 anos, na sexta-feira não teve almoço. Na geladeira, apenas um resto de sopa de feijão e um pouco de arroz, além de salada e condimentos. Perto do meio-dia, praticamente não havia mais gás para ligar o fogão. As meninas Vitória, 13, e Diuli, oito, fariam a próxima refeição na escola Paulo Freire, onde estudam. O mesmo ocorreria com Mateus, dois, em uma creche no Reolon.

— Hoje eles já tomaram café — disse a mãe, próximo ao meio-dia.

Sem trabalhar para cuidar de Diuli, que sofre convulsões, a mãe vive com R$ 600 de um benefício em nome da menina. O dinheiro não é suficiente para alimentar a família. A comida para terminar o mês veio graças a uma cesta básica entregue por um doador que leu um pedido: no dia da criança, a menina mais velha escreveu uma cartinha, exposta no hipermercado Big, pedindo comida para a família.

— É muito difícil. Muitas vezes eles querem comer uma coisa diferente, um iogurte, e não tem — resigna-se a mulher.

Para ajudar a família o contato é com Geni, telefone 9232.5780.

Plano é expandir entrega de viandas

Comida na mesa tem ajudado a diminuir a violência doméstica. Não há números, mas a estimativa é de que agressões tenham diminuído cerca de 30% depois que viandas com jantar passaram a ser oferecidas para moradores dos bairros Villa Lobos e Aeroporto. As refeições são preparadas na cozinhas das escolas municipais Villa Lobos e Basílio Tcacenco e cada integrante da família cadastrada recebe uma vianda.

Conforme a coordenadora de Segurança Alimentar e Inclusão Social do município, Janete Tavares, o dado resulta de pesquisa informal feita junto às escolas e ao Cras. Segundo Janete, antes era muito comum um marido não ter o que comer em casa, sair, beber e retornar para casa e agredir a mulher. Hoje, percebe-se que essa rotina amenizou.

No Villa-Lobos, são 70 refeições ao dia há cerca de um ano para 21 famílias. Já no Aeroporto, são 170 viandas para 40 famílias desde 2003.Ainda não há pontos definidos, mas a Zona Norte é cogitada para receber o programa, batizado de Ação Integrada.

Juntos, todos os programas do município servem 11 mil refeições ao dia.

Ajude o banco de alimentos

:: Doe alimentos não-perecíveis em mercados parceiros no segundo sábado de cada mês (Sábado Solidário).
:: Entregue alimentos na sede do Banco (Rua Jacob Luchesi, 3181, bairro Santa Catarina, junto ao Ceasa) de segunda a sexta das 8h às 12h e das 13h às 17h.
:: Para repassar quantidades maiores, você pode telefonar e combinar a coleta. Os telefones são (54) 3211.5943 e 3901.1183.
:: Ajude sem gastar dinheiro: acesse o Clique Alimentos (www.cliquealimentos.com.br) e clique em "clique e doe". A cada clique, 1 Kg de alimento é destinado por uma empresa parceira.


 
 
 
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