Opinião

Carlos Etchichury: "O caso do procurador suspeito de estupro e o silêncio das autoridades"

Colunista do Diário Gaúcho fala sobre o caso da mulher que acusou o procurador Pedro Antonio Roso de estupro

17/10/2016 - 08h26min | Atualizada em 17/10/2016 - 11h20min
Carlos Etchichury: "O caso do procurador suspeito de estupro e o silêncio das autoridades" Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Há pouco mais de um mês, uma mulher, vítima de estupro, fez um registro contra o procurador da República Pedro Antonio Roso na Delegacia da Mulher de Porto Alegre.

Desde então, Roso permanece detido na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, na Capital.Procurados, as polícias Civil e Federal, o MPF e o TRF negam-se a falar sobre o fato, adotando incômodo silêncio sobre um crime hediondo. Aquela tradicional fotografia do suspeito, que delegados de polícia costumam enviar para redações de jornais quando apanham um estuprador, desta vez não chegou aos correios eletrônicos de jornalistas. A imprensa sequer foi informada sobre o dia, a hora e o local em que a violência foi consumada. A justificativa do silêncio, dizem as autoridades, é que o caso tramita em segredo de Justiça no Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região. 

O segredo tem o objetivo de proteger vítimas (não agressores), sobretudo mulheres submetidas a tamanha desfaçatez.

De acordo com a repórter Schirlei Alves, que conseguiu transpor muros e publicar a primeira reportagem sobre o caso, Roso já respondeu a outro processo no TRF por crime de trânsito, desacato e lesão corporal. O caso ocorreu em fevereiro de 2004. Durante o processo, a defesa alegou que Roso teria problemas psiquiátricos. Em 2009, o TRF condenou o procurador pela prática de lesão corporal e o absolveu pela acusação de desacato, mas os crimes de lesão corporal e de trânsito haviam prescrito.

Agora, 12 anos depois, a defesa retoma a tese de "problemas psiquiátricos". Segundo o advogado João Jaccottet, Roso "já tinha antecedentes (por surto) e está sendo comprovado através da perícia".Em sua cruzada contra malfeitos país afora, o MPF é implacável e transparente. O que é saudável. Os bastidores deste crime hediondo, porém, revelam cautela excessiva em mazelas internas.

Os episódios envolvendo Roso deixam ainda algumas inquietações: como alguém que alega problemas psiquiátricos continua trabalhando, por mais de uma década, como procurador da República? Quais as circunstâncias do estupro? Qual o histórico do suspeito na corregedoria? Em algum momento, saberemos. Em nome da transparência.


 
 
 
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