The New York Times

Colômbia e Brasil sinalizam perda de força da esquerda na América Latina

Por: The New York Times
18/10/2016 - 18h58min | Atualizada em 18/10/2016 - 18h58min

Rio de Janeiro – Não foi dia de comemoração para a esquerda latino-americana.

A Colômbia rejeitou o acordo de paz com os rebeldes marxistas em dois de outubro, resultando numa vitória bastante pública do ex-presidente conservador que fez uma campanha apaixonada contra a proposta. No mesmo dia, os eleitores brasileiros propiciaram uma derrota retumbante para o partido esquerdista que já controlou o país, passando-lhe uma rasteira nas eleições municipais.

Era apenas outro sinal de mudança para a direita na América Latina. Em menos de um ano, os eleitores ofuscaram o movimento esquerdista na Argentina e elegeram um ex-banqueiro de investimentos como presidente do Peru, enquanto o Congresso votou pelo impeachment da presidente brasileira.

"Dito de maneira simples, os conservadores estão crescendo na América Latina", diz Matías Spektor, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Muitos fatores estão dando força à tendência. A acentuada queda no preço das commodities solapou o crescimento econômico pela América Latina e o apoio que os governos de esquerda tiraram desse fato. A influência das grandes igrejas cristãs evangélicas está crescendo, e elas estão confrontando políticas sociais liberais e canalizando uma ampla insatisfação com a situação vigente.

Mas em um país após o outro, os resultados são os mesmos: líderes que adotam políticas favoráveis ao mercado estão deixando para trás os esquerdistas que dominavam as Américas na década anterior. Antes presidentes de esquerda poderosos como Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Cristina Kirchner, da Argentina, estão agora sendo investigados por corrupção.

Mesmo assim, analistas políticos advertem que a tendência não envolve necessariamente uma rejeição total às medidas que ganharam a admiração e os votos para os governos de esquerda nos anos anteriores. Por exemplo, Michel Temer e Mauricio Macri, presidentes do Brasil e da Argentina, expressaram apoio à manutenção dos populares programas de combate à pobreza.

O novo presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, recorreu a uma aliança com a esquerda para derrotar a rival, Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori, ex-presidente peruano que está preso.

De forma semelhante, o voto da Colômbia sobre o acordo de paz ofereceu um exemplo de como a política pode ser imprevisível em algumas partes da América Latina. Líderes de toda a região – de uma ampla gama de formações ideológicas – manifestaram apoio ao tratado, negociado entre o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Os colombianos recusaram o acordo em grande medida porque o julgaram muito benevolente às Farc, permitindo que a maioria dos guerrilheiros não fosse punida. O resultado, todavia, também demonstrou como os eleitores estavam prontos a rejeitar a oferta do sistema político.

"Eleitores desafiando o governo não é novidade na Colômbia. Esse padrão pode ser observado na Argentina, no Brasil, Venezuela, México e em outros países", diz Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, grupo político de Washington.

Líderes de toda a América Latina estão prestando muita atenção à mudança de humor em seus países. No Chile, a presidente Michelle Bachelet retornou ao cargo após uma vitória esmagadora, em 2013, prometendo reduzir a desigualdade.

Só que mudou a trajetória diante de uma economia em retração e um escândalo de corrupção envolvendo sua família, nomeando um ministro das finanças respeitado pelo setor empresarial. O orçamento do seu governo para 2017 prioriza a tradição chilena de prudência fiscal enquanto refreia o estímulo aos gastos.

No Brasil, país com 206 milhões de habitantes, metade da população sul-americana, a mudança para a direita aconteceu em meio a um cenário de crescente divisão política.

Os defensores da presidente impedida, Dilma Rousseff, argumentam que sua deposição equivaleu a um golpe, visão que pesou sobre a legitimidade de Temer, seu ex-vice-presidente que se rebelou contra ela. Candidatos do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, partido de Temer, também sofreram derrotas fragorosas nas eleições municipais de dois de outubro.

Já o Partido da Social Democracia Brasileira, que tem suas origens na oposição à ditatura militar brasileira, antes de se tornar um grupo mais conservador que agora dá apoio à coalizão de Temer, teve grandes vitórias. Um dos membros do PSDB, João Doria, que já apresentou um programa de televisão no qual demitia participantes no ar, chegou com facilidade à prefeitura da maior cidade brasileira, São Paulo.

A mudança para a direita se deteve em algumas partes da região. Na Bolívia, o governo esquerdista do presidente Evo Morales ganhou aplausos do Fundo Monetário Internacional por sua gestão da economia. Em setembro, o Banco Central boliviano anunciou que o produto interno bruto deve subir cinco por cento neste ano, colocando o país entre as economias que mais crescem na América Latina.

Em recente discurso, entretanto, temperado com referências a Marx e Lenin, até mesmo o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, reconheceu a influência declinante da esquerda na região.

"Nós estamos vivendo uma virada história na região; há quem fale em retrocesso", afirma o vice, comparando a situação atual com períodos anteriores de ressurgimento conservador na América Latina. "Temos que relembrar o que aprendemos nas décadas de 80 e 90, quando tudo se voltava contra nós."

Por Simon Romero

 
 
 
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