The New York Times

Colonos da Cisjordânia se prepararam para um confronto com governo de Israel 

Por: The New York Times
19/10/2016 - 18h21min | Atualizada em 19/10/2016 - 18h21min

Posto avançado de Amona, Cisjordânia – Milhares de policiais israelenses invadiram este posto de assentamento na Cisjordânia ocupada para derrubar nove casas construídas ilegalmente. Os colonos e os seus simpatizantes arremessaram blocos de cimento contra os policiais, que vieram a cavalo e bateram nos manifestantes com cassetetes. As casas foram derrubadas, 300 pessoas ficaram feridas e as cicatrizes emocionais foram profundas. Alguns chegaram a chamar a ação de pogrom.

Isso foi há uma década. Agora, os moradores de Amona estão se preparando para outra batalha contra seu próprio governo e suas forças de segurança, tentando contrariar uma ordem do Supremo Tribunal de Israel, que determinou que o posto inteiro deve ser desmontado até 25 de dezembro. Se a situação não se alterar, os organizadores esperam que até 20 mil simpatizantes venham para Amona, onde 40 famílias vivem em casas pré-fabricadas e trailers, para resistir à evacuação forçada.

"Vou me sentar aqui com os braços cruzados. Milhares vão fazer o mesmo. Se nos atacarem, nos atacaram", disse Avichay Buaron, advogado que se mudou para o posto avançado poucos meses depois de seu estabelecimento em 1996.

Símbolo do empreendedorismo dos colonos, Amona está se tornando uma prova de até que ponto irá o governo de direita de Israel para evitar um confronto com seu eleitorado e o quanto está interessado nos mais de 100 postos construídos sem autorização na Cisjordânia. A situação está forçando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a equilibrar as exigências de seus parceiros da coalizão conservadora, de autoridades judiciárias e de líderes mundiais, que, sem exceção, veem os assentamentos como violações do direito internacional.

No dia 5 de outubro, a administração de Obama condenou o plano israelense de construir 98 unidades habitacionais a leste de Shilo, um povoado ao norte de Amona que receberia os evacuados do posto avançado. Em uma afirmação extraordinariamente direta, o Departamento de Estado dos EUA disse que o plano, que Israel descreve como um novo bairro de Shilo, era "profundamente perturbador" e que "criaria um novo assentamento na Cisjordânia".

Nos anos desde o confronto sangrento de 2006 em Amona, a população de colonos na Cisjordânia cresceu, indo de cerca de 250 mil para algo em torno de 400 mil. O apoio para a remoção de assentamentos como um caminho para paz diminuiu entre o público judeu israelita, cansado de negociações falhas com os palestinos, violência recorrente e a percepção generalizada de que a retirada da Faixa de Gaza, em 2005, só fomentou o terrorismo.

O governo de Netanyahu trabalha para conseguir uma legalização retroativa de dezenas de postos avançados de colonos assentados em terras públicas, mas Amona foi construído em terras que são propriedades privadas de palestinos, onde o poder judiciário de Israel insiste que o Estado não pode simplesmente legalizar construções.

"Isso coloca o governo em uma situação muito desconfortável", disse Yoaz Hendel, ex-assessor de Netanyahu que credita o impasse atual à inércia de sucessivos governos de direita em relação à questão.

Amona fica no topo de uma estrada asfaltada estreita que sai de Ofra, assentamento movimentado de cerca de 3.300 religiosos judeus perto de Ramallah, a capital administrativa da Palestina. O posto está estrategicamente localizado a quase 914 metros acima do nível do mar, com uma vista impressionante da Cisjordânia central, que os palestinos veem como o centro de seu futuro estado.

Buaron, que veio para cá aos 20 anos, disse que os fundadores de Amona ficaram sabendo, na época, que o governo queria desenvolver um novo bairro em Ofra. "Não viemos como ladrões na noite. Éramos pioneiros", insistiu ele.

Os colonos exigem que a legislação force os proprietários palestinos a aceitar compensações ao invés de ter a terra de volta, argumentando que as restrições jurídicas atuais poderiam ser aplicadas a milhares de casas de colonos além de Amona. O procurador-geral descartou essa opção, mas, em setembro, 25 dos 30 membros do parlamento do partido Likud de Netanyahu assinaram uma petição, apoiando-a.

Os líderes de Amona rejeitaram publicamente a ideia de se mudar para um local alternativo que o governo declarou ser terra estadual ou pública, perto de Shilo. Em uma carta endereçada a Netanyahu e postada no Facebook, eles escreveram: "Não temos nada a perder".

Oded Revivi, enviado do Conselho de Yesha dos colonos, disse que ainda esperava que o governo e os moradores pudessem "encontrar um meio termo".

Eles tiveram tempo de sobra. A decisão da Suprema Corte, que veio após mais de dez anos de batalhas judiciais, saiu em dezembro de 2014.

Os palestinos que entraram com a petição no tribunal estão agora observando de cidades e vilas nas colinas circundantes.

Atallah Abd al-Hafez Hamed, 63 anos, residente da cidade palestina de Silwad, disse que ele e seus três irmãos herdaram de seu pai um terreno de cerca de 3 hectares nos arredores de Amona. "Estava cheio de parreiras", lembra-se.

A família não cuidou da propriedade, onde existe uma única casa de colonos desde a década de 1980. Hamed disse que isso aconteceu porque o único acesso às terras era através de Ofra, e, em qualquer caso, as uvas morreram por causa de uma doença. Acusando os colonos de atear fogo a seus campos logo após a praga, ele disse: "Em 10 minutos tudo estava negro".

Se Amona for removido como determinou o tribunal, Hamed disse: "Vou plantar tudo de novo, macieiras e amendoeiras".

"Uva, não", acrescentou ele, como se as videiras de alguma forma fossem amaldiçoadas.

Buaron, o líder de Amona, disse que não havia nada impedindo os palestinos de trabalharem suas terras, mas a esposa do Hamed, Nihad, 56 anos, expressou um medo generalizado.

"Eles atirariam na gente. Não deixaria meus filhos irem para lá", disse ela, observando que um homem desarmado de Silwad havia sido morto por soldados israelenses em agosto.

Rivka Nizri, que nasceu em Amona há 18 anos e se casou no mês passado, montou sua casa lá, em um trailer que ela e seu novo marido reformaram. Disse que estava tentando não pensar muito na possibilidade de ser expulsa antes do final do ano.

"Não vai ser fácil me tirar daqui, não; vai ter que ser à força", disse Rivka sobre a evacuação iminente.

* Por Isabel Kershner

 
 
 
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