The New York Times

No Canadá, um museu de direitos humanos e um legado de verdades incômodas

Por: The New York Times
18/10/2016 - 19h07min | Atualizada em 18/10/2016 - 19h07min

Winnipeg, Manitoba – O Museu Canadense de Direitos Humanos oferece muitas oportunidades de contemplação, como o salwar kameez manchado de sangue usado por Malala Yousafzai, a ativista pela educação feminina no Paquistão, durante a tentativa de assassinato pelos talibãs, protegido em uma caixa de vidro, ou os depoimentos de sobreviventes dos genocídios em Ruanda, na Bósnia e na Ucrânia, que visam ensinar tolerância.

Pode-se também pensar no fato – não mencionado pelo museu – de que seus espelhos d'água são alimentados por um lago em uma reserva indígena onde os moradores não têm água potável há quase duas décadas.

"É o grande mito canadense em exposição", disse Leah Gazan, ativista de direitos indígenas, durante uma recente visita ao museu.

A estrutura de US$ 266 milhões (351 milhões dólares canadenses) se tornou um símbolo das contradições entre a moderna identidade multicultural da nação e o que os críticos dizem ser um legado não reconciliado de violação dos direitos humanos contra os povos indígenas que ainda perdura.

Os apoiadores elogiam a instituição, que atrai cerca de 350 mil visitantes por ano, por gerar debates importantes sobre injustiça, mas para outros, apesar de uma série de exposições poderosas sobre a opressão dos povos indígenas no Canadá, o museu poderia fazer mais para enfrentar verdades desconfortáveis da nação sobre seu passado e apresentar relações com os descendentes dos habitantes originais da terra.

Mesmo antes de sua inauguração, há dois anos, o museu se tornou o foco de protestos sobre seu conteúdo, particularmente de grupos indígenas que dizem que ele diminui seus infortúnios.

Grande parte da população aborígine no Canadá, de 1,4 milhão de pessoas, não tem acesso à água potável, nem a cuidados básicos de saúde e à educação, resultado de políticas discriminatórias do governo que conduziram a índices desproporcionais de violência, vício e pobreza, disseram as Nações Unidas e organizações de direitos humanos canadenses e internacionais.

"O que vemos no museu reflete um problema fundamental no Canadá. O país há muito tempo faz vista grossa à violação extrema dos direitos indígenas. Os debates nacionais sobre as profundezas desse crime e a urgência de reparação começaram só agora", disse Craig Benjamin, ativista dos direitos indígenas da Anistia Internacional.

O primeiro-ministro Justin Trudeau prometeu uma "renovação total" da relação do Canadá com seus povos aborígenes. As esperanças aumentaram ao longo do inquérito de seu governo sobre o assassinato e desaparecimento de mulheres nativas e seu compromisso de incluir mais direitos indígenas na lei canadense; mesmo assim, muita gente acha que o governo está em falta com essa promessa.

Sendo o primeiro museu nacional canadense construído fora da capital Ottawa, sua estrutura é um tour de force arquitetônico, um prédio imenso de pedra calcária e vidro projetado para se parecer com uma nuvem envolvendo uma montanha, com uma torre no topo simbolizando a esperança.

Ele ocupa uma grande área no centro de Winnipeg, em uma província onde, de acordo com um estudo recente, 75 por cento das crianças aborígenes vivem na pobreza, a maior taxa no Canadá. A capital de Manitoba, lar da maior população indígena urbana do país, há muito luta para superar uma divisão racial que o prefeito aborígine e o museu tentam abordar através da educação e de programas de governo.

O museu, ideia de um magnata de Winnipeg que se inspirou no Museu Memorial do Holocausto nos EUA, em Washington, D.C., foi em grande parte financiado por doadores particulares.

Ao invés de celebrar um evento específico ou história regional, ele tem como objetivo educar os visitantes sobre o significado dos direitos humanos através de um conjunto de temas, tais como a luta por direitos legais no Canadá e a liberdade de expressão.

"Não dá para ser o que todo mundo quer que seja", disse Maureen Fitzhenry, porta-voz do museu.

Há centenas de anos, povos indígenas no Canadá foram vítimas de políticas do Estado explicitamente elaboradas para erradicar suas culturas, se apropriar de suas terras e negar-lhes autonomia política com tratados e leis, como a Lei Indígena de 1876, que deu ao governo canadense o poder de ditar quem era considerado um "indígena", mover esses povos para áreas com poucos recursos e reservas isoladas e controlar suas finanças. Ela continua a ser o núcleo de muitas políticas e regulamentos em vigor hoje.

Cerca de 150 mil crianças aborígenes foram retiradas à força de suas famílias e enviadas a um sistema de internatos financiado pelo Estado e administrado pela Igreja durante mais de um século, antes que o programa fosse encerrado na década de 1990. De acordo com algumas estimativas, cerca de seis mil crianças morreram e muitas mais sofreram abuso físico e sexual.

Outros programas do governo esterilizaram mulheres indígenas e colocam mais de 16 mil crianças aborígenes para adoção por famílias brancas.

As comunidades indígenas há muito tempo criticam o museu por não reconhecer oficialmente essa opressão histórica como genocídio. Os funcionários dizem que as exposições tentam educar o público sobre essas questões, destacando o testemunho de sobreviventes dos internatos e informações sobre os efeitos da colonização.

Em vez de uma única exposição mostrar o jugo dos povos indígenas e detalhar seu impacto contemporâneo, o museu inclui tais questões em narrativas mais amplas sobre a luta pela justiça.

A maior galeria, a Canadian Journeys, examina os "passos e tropeços rumo à ampliação dos direitos para todos no Canadá", de acordo com seus materiais de marketing. As cabines incluem histórias sobre os direitos dos homossexuais, campos de concentração japoneses no país durante a Segunda Guerra Mundial, a recuperação de terras pelos aborígenes inuit, a ferrovia subterrânea e um filme devastador sobre os internatos que mostra o antigo primeiro-ministro Stephen Harper pedindo desculpas oficialmente, em 2008.

Os críticos dizem que pouca coisa no museu se refere à discriminação contínua.

"Dá a impressão de que no passado houve alguns erros e que agora está tudo bem", disse Karen Busby, diretora do Centro de Pesquisa de Direitos Humanos na Universidade de Manitoba.

Alguns ex-funcionários do museu dizem que essa imagem foi o resultado de interferência política, que veio em parte de um conselho nomeado pelo governo conservador de Harper.

Autoridades do museu negam acusações de interferência política. Dizem que o conteúdo passou por um processo de desenvolvimento de um ano, concebido para garantir uma narrativa apartidária, e que o que está em exposição reflete a necessidade de incluir um vasto leque de temas globais. Maureen Fitzhenry, a porta-voz, citou as dezenas de exposições que apresentam questões aborígenes passadas e atuais.

"Falamos sobre o pedido de desculpa do governo como reconhecimento de erros históricos, mas isso não significa que foi reparação suficiente."

Por Dan Levin

 
 
 
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