The New York Times

O programa de despoluição fluvial de Jacarta 

Por: The New York Times
19/10/2016 - 18h17min | Atualizada em 19/10/2016 - 18h17min

Jacarta, Indonésia – De pé em seu posto, em uma comporta bem no meio de Jacarta, Bejo Santoso garante que já viu de tudo.

E, com isso, não quer dizer que já viveu muita coisa; está falando é da variedade do lixo que desce o rio Ciliwung antes que esse deságue na baía descoberta por uma frota holandesa, há mais de 400 anos.

Bejo e dezenas de seus colegas, a postos nas vias fluviais espalhadas pela cidade, já tiraram da água geladeiras, aparelhos de TV, colchões e móveis. Às vezes encontram até cadáveres, vítimas das enchentes relâmpago.

"Todo ano tem pelo menos um ou dois", diz Bejo, 49 anos, operador de uma escavadeira que retira, no mínimo, 21 m³ de lixo e destroços naturais das águas todos os dias, volume suficiente para encher o caminhão três vezes durante seu turno.

A prefeitura de Jacarta, com ajuda de doadores internacionais e o governo federal, está fazendo a dragagem de seus 17 rios e canais pela primeira vez desde os anos 70. Setenta por cento de sua capacidade estava bloqueada, o que contribuía decisivamente para o problema das enchentes da cidade.

Jacarta é uma das maiores metrópoles da Ásia, com uma população estimada de mais de dez milhões de habitantes – e cerca de vinte por cento do lixo diário que produz acaba em seus rios e canais, como determinou a Secretaria de Obras Públicas.

Funcionários como Bejo usam boias laranjas para "prender" os dejetos que, em grande parte, são descartados pelos membros das comunidades ribeirinhas, que nunca encararam os corpos d'água como outra coisa a não ser lixões naturais.

Catadores oportunistas – e até alguns funcionários públicos – colocam redes e, às vezes, até jaulas na água para coletar objetos de plástico e metal, que vendem para a reciclagem.

"Não é fácil mudar o conceito de que o rio é uma lata de lixo", lamenta Steven Tabor, diretor do Banco de Desenvolvimento Asiático para a Indonésia.

Não faz muito tempo, a pilha de dejetos flutuando na superfície da comporta de Bejo incluía um capacete de moto, chinelos, bolas de futebol, embalagens de isopor, o quadro de uma bicicleta e um travesseiro.

E alguns detritos naturais também, como folhas de bananeira e um rato morto.

As vias aquáticas congestionadas de Jacarta não são só um detalhe irritante ou muita feiúra; na verdade, representam um problema ambiental urbano grave que já matou dezenas de pessoas nos últimos anos, causou inúmeras doenças, desalojou mais de um milhão de pessoas e causou perdas de bilhões de dólares.

As enchentes na capital foram se agravando por dois motivos: para começar que nem o governo federal, nem o municipal fizeram uma drenagem decente ou a manutenção entre 1970 e 2010, apesar de viverem alegando o contrário.

Além disso, há um desenvolvimento descontrolado na região metropolitana, que hoje abriga mais de trinta milhões, o que significa que as lagoas de retenção, os mangues e outros espaços abertos que normalmente absorvem a água da chuva foram pavimentados para permitir a construção de shopping centers e prédios de apartamentos.

E a má administração teve seu preço: desde meados dos anos 90, a cidade vem sofrendo grandes enchentes a cada cinco anos, além de outras, menores, todo ano.

Em 2002, mais de 60 pessoas morreram e 350 mil foram forçadas a deixar suas casas por causa das águas. Em 2007, quase 70 por cento da cidade ficou submersa por inundações que acarretaram 52 mortes e desalojaram mais de 450 mil.

Em 2013, as chuvas torrenciais fizeram com que uma parte de um dique do Canal West Flood, construído pelos holandeses, ruísse, alagando completamente o centro. Outras áreas também encheram, matando pelo menos 46 pessoas.

O secretário de Obras Públicas calcula que apenas vinte por cento da rede municipal de esgotos funcionem adequadamente; o resto está entupido de lixo, detritos e cabos.

Foi só em 2012 que o primeiro programa de dragagem em 40 anos teve início, realizado pelos governos municipal e federal, através do Ministério de Obras Públicas, com verba de US$189 milhões do Banco Mundial, resultando de anos de negociações.

O projeto, que continua até hoje, já protege mais de um milhão de moradores das águas, como explica Iwan Gunawan, assessor de gestão de desastres do Banco Mundial em Jacarta.

"As cheias de 2007 inundaram mais da metade da cidade e foram meio que uma alerta para que se tomasse uma decisão radical."

"A questão era: se o rio voltasse à condição normal, qual seria a melhoria? E a resposta foi que um milhão a mais de pessoas ficaram protegidas das enchentes, o que é excelente."

Porém, acrescenta: "Tanto o governo municipal como o federal precisam criar uma 'mentalidade de manutenção' para evitar que o problema volte a ocorrer, já que as campanhas educativas se mostraram, no mínimo, ineficazes."


* Por Joe Cochrane

 
 
 
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