The New York Times

Obama, o turista definitivo 

Por: The New York Times
17/10/2016 - 22h30min | Atualizada em 17/10/2016 - 22h30min

Washington – Mergulhar de snorkel nas cristalinas águas azuis da costa da ilha Midway. Confere. Caminhar pelas colunas enigmáticas de Stonehenge. Confere. Visitar o Museu Bob Marley, na Jamaica, as pirâmides do Egito e a Grande Muralha da China. Confere, confere e confere.

Acontece que viajar pelo mundo no avião presidencial pode fazer maravilhas com sua lista de lugares para conhecer antes de morrer.

O presidente Barack Obama passou a maior parte do seu tempo de viagem dos últimos oito anos em missões oficiais: inúmeros eventos para arrecadar dinheiro e visitas às capitais de outros países, encontros para animar as tropas norte-americanas, anúncios de políticas e uma infinidade de reuniões de cúpula em saguões de hotel pelo mundo afora.

Talvez, porém, mais que qualquer um de seus antecessores, Obama também aproveitou a oportunidade para se tornar o turista definitivo, metodicamente reservando tempo para se maravilhar com as vistas mais espetaculares do mundo, parecendo absorver todas as experiências. Quer uma prova? Veja o episódio de "Running Wild With Bear Grylls" no qual o presidente se junta ao apresentador para comer salmão já mastigado por um urso.

"É um impulso jeffersoniano. Ele é intelectualmente curioso", afirma Jon Meacham, historiador presidencial, que comparou a queda de Obama pelo turismo às viagens de Thomas Jefferson pela França no período 1784-89, embora isso tenha ocorrido antes de ele se tornar presidente.

"Ele está tentando fazer uma coisa incrivelmente difícil", diz Meacham a respeito de Obama. "Ele quer reabastecer seu capital intelectual em um emprego que justamente exige o gasto desse recurso."

Nem todo presidente é um turista ávido. George W. Bush era impaciente quando se tratava de ver a paisagem. Em 2002, Bush passou apenas 30 minutos na Grande Muralha da China. Ele dedicou o mesmo tempo na visita aos Arquivos Nacionais do Canadá, onde viu retratos de Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt. Um auxiliar da Casa Branca declarou a um repórter, em 2004, que Bush gostava de uma agenda compacta e limpa.

Segundo relatos, Bill Clinton estava mais disposto a arranjar espaço para paradas turísticas, mesmo que fossem visitas tarde da noite antes de embarques de manhã cedo. Em uma visita a Madri, ele percorreu o Prado, museu de arte nacional da Espanha, às 23h.

Auxiliares de Obama afirmam que ele é incansável ao pedir que marquem paradas em lugares que lhe deem a chance de ver alguma coisa. Em Roma para conhecer o novo papa em 2014, Obama também fez um passeio guiado particular pelo Coliseu. Depois de quatro dias de negociações de paz no Oriente Médio, em 2013, o presidente bancou o turista em Petra, na Jordânia, visitando as ruínas de dois mil anos esculpidas em arenito.

E em 2014, ao final de uma viagem de três dias à Estônia e durante uma reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte, no País em Gales, Obama embarcou em um comboio para conhecer os monólitos de Stonehenge, onde caminhou sem pressa. O presidente considerou o lugar "espetacular" e um "local especial", antes de declarar à imprensa que o "riscara da lista de desejos".

As viagens de Obama – em conjunto com suas saídas frequentes para jogar golfe e veranear em Martha's Vineyard – geraram algumas críticas, principalmente de republicanos que questionam o valor dos deslocamentos e o custo para os contribuintes.

O Judicial Watch, grupo de controle conservador, usou a lei de acesso à informação e processos judiciais para coletar informações sobre o custo da viagem do presidente. Para o grupo, as viagens, oficiais e pessoais, custaram US$ 80 milhões aos cofres públicos.

Certamente, o custo exato do turismo presidencial é impossível de calcular porque este se mistura com o esforço geral necessário para proteger e apoiar o líder norte-americano onde quer que ele se encontre no mundo. A infraestrutura da presidência moderna sempre acompanha o ocupante da Casa Branca, tanto em férias quanto em missões oficiais.

Os auxiliares do presidente assinalam que os presidentes anteriores sempre tentaram viajar com a mesma segurança e necessidades administrativas. E insistem que a maioria do turismo pessoal de Obama atende a importantes propósitos diplomáticos. Comer em um restaurante de massas no Vietnã com Anthony Bourdain, em seu programa para a CNN, ajudou, no entender dos assessores, a expressar a esperança presidencial de uma relação mais profunda entre os povos das duas nações. E o jantar do casal Obama em um restaurante em Havana fortaleceu a imagem de um novo tipo de relação entre os Estados Unidos e Cuba, antigos adversários.

"Esses momentos permitem que o presidente destaque questões com as quais ele se preocupa ao vivenciá-las em primeira mão", afirma Liz Allen, subdiretora de comunicação da Casa Branca. "Ver uma geleira derretendo no Alasca ou caminhar nas trilhas de nossos parques nacionais expressam o impacto da mudança climática e a importância de conservar nossas terras e águas."

Ainda segundo ela, "quando viajamos ao exterior, sair do caminho mais usual para visitar uma referência cultural aprofunda os laços naquele país".

Um dos principais itens turísticos da lista de Obama não deve ser contemplado durante o restante de seu mandato: correr pela tundra congelada da Antarctica em uma moto de neve. Os assessores mais graduados dizem que ele deseja fazer essa visita há anos, mas não existe esse roteiro na programação.

Mesmo assim, não há dúvida de que a presidência deu a Obama um acesso extraordinário a pessoas, lugares e experiências inacessíveis à maioria dos mortais.

"Jefferson tinha uma curiosidade incrível. Ele queria ser uma espécie de correia transportadora de cultura. Suspeito que ele visse o turismo da mesma forma que o presidente: uma ampliação da experiência e o máximo de aprendizado possível", afirma Meacham.


* Por Michael D. Shear

 
 
 
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