Preocupante

Com leitos vazios, hospitais da Serra passam por crise

No São João Bosco de São Marcos, um dos andares pode ser desativado; em Farroupilha, São Carlos estuda plano de demissão de funcionários

Por: Carolina Klóss
13/01/2017 - 08h01min | Atualizada em 13/01/2017 - 08h01min
Com leitos vazios, hospitais da Serra passam por crise Marcelo Casagrande/Agencia RBS
No Hospital Beneficente São João Bosco, em São Marcos, a ocupação dos 75 leitos não passa de 40% Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS  

Ao contrário da maioria dos hospitais do Brasil, superlotados e com fila de espera para atendimento, duas instituições hospitalares da Serra estão em crise por falta de pacientes. No Hospital Beneficente São João Bosco, em São Marcos, a ocupação dos 75 leitos não passa de 40%; em Farroupilha, o São Carlos preenche, no início deste ano, 30% das 108 acomodações. A baixa demanda para internações reflete na queda de repasses e, como consequência, na contenção de despesas. Se nada for feito nos próximos meses, a diretoria do São João Bosco planeja desativar um andar inteiro e também não descarta demitir funcionários - hoje são 84, além de 20 médicos. No hospital de Farroupilha, que opera com déficit mensal de cerca de R$ 500 mil, a direção oficializa na próxima semana um plano de demissões voluntárias. A decisão, ainda em estudo, vai atingir parte dos 350 funcionários.

— A demanda reduzida não é recente, mas a crise econômica vem tornando tudo mais complicado. Está difícil conseguir quitar as despesas fixas. A equipe que tenho é para atender pacientes dos 75 leitos, mas não há pacientes, então não posso ter um exército à disposição, infelizmente — lamenta o diretor do São João Bosco, Rogério Soldatelli, à frente da instituição há 34 anos.

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Os leitos vazios nas duas cidades vizinhas podem parecer uma afronta para aqueles pacientes que, por vezes, precisam aguardar por internações em Caxias. Atualmente, a Central de Regulação de Leitos administrada pela Secretaria Municipal de Caxias opera perto da capacidade máxima. Na quinta, o Hospital Geral estava com 89% das vagas preenchidas, o Pompéia com 76% e o Virvi Ramos com 66%. A transferência de pacientes de baixa e média complexidade, a maioria dos casos de internações segundo a Secretaria Municipal de Saúde, seria a principal medida para tentar evitar o fechamento de leitos e impedir as possíveis demissões, de acordo com os diretores das instituições de São Marcos e Farroupilha. Os dois hospitais têm estrutura para atender demandas que exigem internação em UTI ou de especialidades como neurocirurgia.

Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Soldatelli, do São João Bosco, diz que há 10 anos atrás recebia pacientes da principal cidade da Serra, mas não sabe detalhar quais foram os motivos que fizeram com que as transferências de doentes parassem de ocorrer. Em maio de 2016, a então secretária de Saúde de Caxias do Sul, Dilma Tessari, afirmou que uma das maneiras de evitar a superlotação de leitos na cidade era transferir pacientes para hospitais da região. Mas Soldatelli afirma que esse contato com a última administração, de Alceu Barbosa Velho (PDT), não ocorreu.

— Dos 75 leitos, 60% é SUS. E eles também estão vazios. Somos um hospital de média complexidade, com ampla estrutura, teríamos todas as condições de atender os pacientes de Caxias em troca de investimento. Investimento porque não tenho como manter os médicos somente com o que é pago pelo sistema público, é preciso verba. Fico muito triste quando vejo imagens de pacientes com dor aguardando em macas, pessoas que não são atendidas porque não há leito. Aí caminho pelos andares aqui e vejo quartos vazios — destaca.

"Não é fácil assim transferir pacientes"

Questões financeiras dificultam e ainda impedem a transferência de pacientes de uma cidade para outra, de acordo com Solange Sonda, responsável pela 5ª Coordenadoria Regional de Saúde (5ª CRS). Ela explica que os recursos recebidos pelos municípios dos governos federal e estadual para atendimento à saúde não podem ser repassados apenas com um acordo entre as gestões municipais:

— Cada cidade recebe um valor para atender os pacientes de sua área. Se um paciente for deslocado de uma cidade para outra, quem pagará por ele: a cidade que o encaminhou ou a que vai atendê-lo? Também precisamos saber o que cada hospital oferta e qual a demanda reprimida. Não adianta pensar em transferência se, por exemplo, tivermos muitos pacientes de alta complexidade esperando, e o hospital que está com lugares vagos não ter UTI. Essas questões que ainda não estão resolvidas ainda.

Solange afirma que a situação dos hospitais de São Marcos e Farroupilha está sendo analisada e que uma reunião entre os gestores dos 49 municípios de abrangência da 5ª CRS está marcada para o dia 24, em Caxias, para discutir assuntos como a transferência de doentes.A superlotação de leitos e o deslocamento de pacientes também estão sendo observadas pelo novo secretário de saúde de Caxias, Darcy Ribeiro Pinto Filho. Ele afirma que estuda a viabilidade de parcerias, mesmo acreditando que o sistema de regulação de leitos é muito eficiente na cidade.

— Temos contratado leitos com os hospitais - Geral, Pompéia e Virvi Ramos - e isso tem atendido à demanda. Obviamente existem momentos de gargalo. Mas terei o maior prazer em conversar com os administradores dos hospitais da região para que todos sejam beneficiados — destaca Darcy.

A titular da pasta da saúde em São Marcos, Rosa Fontana, também afirma que está empenhada em resolver a questão do único hospital da cidade e que um acordo deverá ser fechado em breve para amenizar a situação do São João Bosco. Atualmente, segundo ela, o município repassa R$ 174 mil à instituição beneficente.

— A ideia é repassar uma verba para complementar o trabalho, seja no atendimento ou no pagamento de exames, por exemplo. Mas vamos conversar até o final do mês. Não queremos que o hospital feche — sentencia.

 
 
 
 
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