The New York Times

Em ilha de Fiji, caçadores ajudam a preservar espécies ameaçadas

Por: The New York Times
13/01/2017 - 20h00min | Atualizada em 13/01/2017 - 20h12min

Ilha Yadua, Fiji – Pita Qarau aproximou seu barco de uma tartaruga, que tentava fugir desesperadamente do zumbido do motor. O animal, uma tartaruga-de-pente fêmea, era incrivelmente rápido, chegando a velocidades de até 25 km/h.

Mas Qarau sabia que conseguiria vencer a corrida. Ele perdeu a tartaruga por alguns instantes, e deu uma volta. Por fim, ela diminuiu de velocidade, ele encostou o barco ao lado do animal exausto, deixou o motor em ponto morto e pulou na água.

Segundos depois, emergiu agarrando firmemente a tartaruga em polvorosa.

Há pouco tempo, essa seria a garantia de um jantar farto para Qarau, mas desta vez deixou a tartaruga ir embora. Ele conferiu a saúde do animal, porém, não conseguiu marcá-la como gostaria, pois seus sinalizadores haviam acabado.

Fiji proibiu temporariamente a caça de tartarugas e, embora a proibição nem sempre seja cumprida no litoral do país, algumas pessoas como Qarau tiraram-nas do cardápio, ainda que seja considerada uma iguaria. Muitos agora se dedicam a preservá-las.

"O número e o tamanho das tartarugas estava diminuindo, já não dá mais pra ver as grandes, só as pequenas. É por isso que mudei", afirmou mais tarde.

Qarau, de 53 anos, nasceu em Yadua, uma ilha pequena e remota ao norte de Fiji, e é voluntário de um programa criado pela WWF para ajudar a recuperar as populações de tartarugas após décadas de declínio.

As habilidades necessárias para caçá-las, transmitidas de geração em geração em Fiji, se mostram muito úteis para acompanhá-las e protegê-las da caça ilegal. Monitores como Qarau são conhecidos em fijiano como "Dau ni Vonu", ou guardiães das tartarugas.

A vida em Yadua é simples e todos são próximos. O único vilarejo da ilha, Denimanu, tem cerca de 200 habitantes, quase todos relacionados por sangue ou casamento. A renda da maioria dos habitantes vem da pesca e da venda dos peixes. Para tomar um banho quente, basta deixar algumas latas de água no calor da tarde.

Em Fiji, um país do Sul do Pacífico composto por mais de 300 ilhas, as comunidades têm um papel central na gestão de seu litoral imediato. Como consequência, programas comunitários que tentam conscientizar as pessoas sobre o declínio na população de tartarugas e expandir as iniciativas de monitoramento "são os que têm a maior chance de obter sucesso", afirmou a Dra. Susanna Piovano, professora da Faculdade de Estudos Marinhos da Universidade do Sul do Pacífico.

Tradicionalmente as tartarugas eram consumidas apenas no grandes eventos, como casamentos ou o funeral de um chefe. Com a degradação das tradições nas últimas décadas, esses animais e seus ovos passaram a ser vistas como alimentos do dia a dia, para consumo próprio ou para venda.

O aquecimento global e a perda de habitat também prejudicaram as populações das tartarugas. O status de conservação das espécies mais comuns nas águas de Fiji – verde, oliva, de kemp, de couro, de pente e a tartaruga comum – vai de vulnerável a crítico, de acordo com a Lista de Animais em Risco de Extinção, publicada pela União Internacional pela Conservação a Natureza.

O governo de Fiji impôs uma proibição temporária à caça em 1995 para desacelerar declínio. No ano que vem, a proibição deve chegar ao fim.

Ainda assim, isso não impediu que muitas comunidades continuassem a caçar tartarugas.

Yadua era um desses lugares, até que a ilha mudou completamente de rumo. Em 2010, duas organizações – a WWF e o Secretariado do Programa Ambiental Regional do Pacífico, um grupo intergovernamental – organizaram uma palestra na ilha. Eles apresentaram uma visão sombria sobre a possibilidade de extinção das tartarugas e conversaram sobre as formas de evitar que isso aconteça.

Foi lá que Qarau percebeu que as futuras gerações talvez nunca vejam ou se deliciem com uma tartaruga se a caça indiscriminada continuar. Ele afirmou que não estava pensando em si mesmo quando decidiu que não iria mais matá-las. "Estou pensando nas futuras gerações", afirmou.

O chefe da ilha, Ratu Jone Cakautavatava, decidiu que os habitantes de Yadua não deveriam mais consumir tartarugas, e as pessoas pararam de comer o prato que é o predileto de muitos. "Foi muito difícil parar, mas eu sigo a lei."

Cakautavatava descreveu os velhos tempos de caça às tartarugas em barcos de fibra de vidro, quando usavam arpões para furar os cascos. Gesticulando como se tivesse um arpão nas mãos, Cakautavatava afirmou: "meus instrumentos estão guardados para o dia em que o governo permitir a caça novamente".

O compromisso de Qarau em recuperar as populações de tartarugas envolve o monitoramento duas vezes por semana. Ele caminha pelas praias a procura de caminhos deixados por elas, o que indica a presença de ninhos, registrando então seu conteúdo: ovos chocados e ovos vazios.

É mais fácil fazer a contagem à noite, quando as tartarugas dormem sob os corais, afirmou, ou durante o dia, quando se alimentam na maré baixa. Depois de começar o monitoramento, em uma manhã recente, as formas escuras de seis tartarugas podiam ser vistas do outro lado do recife.

"Não é possível ver isso em nenhum outro lugar em Fiji", afirmou Laitia Tamata, autoridade costeira de pesca do WWF, que faz a gestão do programa de monitoramento. Quando o programa foi criado em Yadua in 2010, apenas seis tartarugas fizeram ninhos na ilha. Quatro anos depois foram registrados 29 ninhos. Em um dos pontos de monitoramento da ilha de Kavewa, nenhum ninho foi registrado em 2010; mas quase 70 foram identificados quatro anos depois.

Entretanto, nem todas as comunidades de Fiji assumiram o mesmo compromisso de Yadua com a preservação. Barry Hill, de 27 anos, monitor na ilha, cruzou recentemente com mergulhadores saindo da ilha com duas tartarugas mortas no barco. Em seguida, uma discussão acabou em pancadaria, afirmou.

"Eu digo que é proibido, mas eles não conseguem se controlar. Querem comer tartaruga todos os dias", afirmou Hill.

Mesmo que a proibição tenha entrado em vigor há mais de 20 anos, ela só foi levada a cabo em algumas ocasiões e pouquíssimas pessoas foram multadas ou presas, de acordo com Kiji Vukikomoala, advogado da Associação de Direito Ambiental.

"A sensação das pessoas é de que esses casos não são prioridade, já que as penas são tão brandas", afirmou Vukikomoala. Algumas pessoas condenadas por matar tartarugas foram obrigadas a pagar uma multa máxima de US$ 240 e a passar até três meses na prisão.

O apoio dos chefes é fundamental para envolver as comunidades na preservação, afirmou Michael Donoghue, assessor especializado em espécies ameaçadas e migratórias da Secretaria do Programa Ambiental Regional do Pacífico.

"Se as comunidades não quiserem, não faz diferença o que a lei disser. Especialmente nas áreas mais remotas o controle é difícil", afirmou Donoghue.

A WWF espera influenciar o governo a aumentar em 10 anos a proibição da caça de tartarugas.

As iniciativas de preservação de Yadua e de outras ilhas demonstrou que as populações de tartarugas podem crescer significativamente caso a proibição seja respeitada. Porém, em 2014 o programa de monitoramento ficou sem verbas, quando o WWF investiu no cuidado com espécies que correm maior risco de desaparecer.

Assim, embora os voluntários geralmente fossem reembolsados por gastos com combustíveis e telefonemas para relatar as informações, agora são os monitores que precisam absorver esses gastos.

"Creio que essa seja uma das razões para o sucesso. As pessoas fazem isso por acreditar na causa, não por causa do dinheiro", afirmou Tamata, da WWF.

Qarau espera que seu trabalho de preservação permita uma caça sustentável, para que os fijianos possam comer tartarugas novamente. Para ele, as futuras gerações devem poder ver e saborear as tartarugas. "Quando crescerem, perceberão que nosso vilarejo estará cheio de tartarugas."

Por Serena Solomon

 
 
 
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