The New York Times

Mais de um século depois, Alemanha encara seu genocídio africano

Por: The New York Times
11/01/2017 - 21h14min | Atualizada em 11/01/2017 - 21h27min

 Waterberg, Namíbia – Neste rincão distante do sul da África, incontáveis soldados alemães jazem em um cemitério militar, com nomes, datas e detalhes gravados em lápides de pedra.

Em meio a tantas lápides, é fácil perder de vista uma placa no muro do cemitério que acena em alemão para os "guerreiros" africanos que também morreram em batalha. Sem nome, eles estão entre as dezenas de milhares de africanos mortos naquele que os historiadores consideram – e que o governo alemão finalmente irá reconhecer – como o primeiro genocídio do século XX.

Um século depois de perder suas colônias na África, a Alemanha e sua ex-colônia, a Namíbia, estão engajadas em intensas negociações para colocar um ponto final em um dos capítulos mais feios do passado europeu na África.

Durante o controle alemão da Namíbia, que na época era conhecida como Sudoeste Africano, os colonizadores que começavam a estudar a eugenia desenvolveram ideias sobre pureza racial, e suas forças tentaram exterminar dois grupos étnicos rebeldes, os Herero e os Nama, alguns dos quais em campos de concentração.

"Iremos descrever o caso como genocídio", afirmou Ruprecht Polenz, enviado especial da Alemanha para as negociações, durante um comunicado conjunto que está sendo preparado por ambos os países. As negociações, que começaram em 2016, também estão se concentrando em como a Alemanha irá compensar a Namíbia e se desculpar pelo ocorrido.

Os eventos ocorridos na Namíbia entre 1904 e 1908 foram um prenúncio da ideologia nazista e do Holocausto. Ainda assim, o genocídio na ex-colônia continua a ser pouco conhecido na Alemanha, no resto da África e, de certa forma, na própria Namíbia.

Em todo o país, ainda há mais monumentos e cemitérios em homenagem aos colonizadores alemães, do que em honra das vítimas do genocídio, um lembrete concreto do constante desequilíbrio de poder.

"Muitas pessoas querem remover esse cemitério para que possamos colocar nosso povo lá. O que eles fizeram foi terrível, mataram nosso povo e disseram que todos os herero deveriam ser eliminados", afirmou Magic Urika, de 26 anos, que vive a cerca de uma hora do cemitério em Waterberg.

Embora os esforços da Alemanha para compensar os crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial sejam conhecidos, demorou um século até que o país começasse a tomar medidas para reconhecer que um genocídio ocorreu na Namíbia décadas antes do Holocausto.

Cerca de 80 por cento dos herero, cuja população girava em torno de cem mil pessoas na época, morreram em decorrência do conflito, muitos deles após a batalha de Waterberg: foram alvejados por tiros, enforcados em árvores, ou morreram no deserto, onde os alemães fecharam poços de água e de onde impediram que os sobreviventes retornassem.

Mesmo após o centenário do genocídio namibiano em 2004, o governo alemão não teve pressa em reconhecê-lo oficialmente – e, só o fez de má vontade, afirmam os críticos –, o que deu origem a acusações de racismo no modo em que as vítimas da Europa e da África são tratadas.

"A única diferença é que os judeus têm pele branca e nós somos negros", afirmou Sam Kambazembi, de 51 anos, tradicional chefe herero, cujos bisavós fugiram durante o genocídio. "Os alemães acharam que poderiam empurrar esse genocídio para debaixo do tapete e que o mundo jamais saberia dele. Mas agora fizemos barulho."

Contudo, Kambazembi e outros líderes também são rápidos em culpar a política local pelo atraso no reconhecimento.

Depois que a Alemanha perdeu suas colônias africanas durante a Primeira Guerra Mundial, a Namíbia caiu no controle a minoria branca da África do Sul até 1990, o que transformou em tabu praticamente qualquer discussão sobre o genocídio.

Depois de se tornar independente, o partido de liberação da Namíbia — conhecido como Organização do Povo do Sudoeste Africano, ou SWAPO na sigla em inglês — assumiu o poder e governa o país até hoje. Contudo, ele é dominado pelo maior grupo étnico da nação, os Ovambo, e os críticos afirmam que eles demonstraram pouco interesse em discutir o assassinato em massa dos herero e dos nama.

O governo liderado pela SWAPO também depende muito da ajuda internacional, especialmente de seu maior doador, a Alemanha.

A Namíbia costumava ser a colônia africana mais importante para a Alemanha, atraindo milhares de colonos alemães que tomavam a terra e o gado dos moradores locais.

Isso contribuiu para incitar a resistência dos herero, que tradicionalmente cuidavam do gado, e dos nama. Para resolver o problema, Lothar von Trotha, comandante militar que era conhecido por tratar com mão de ferro as posses alemãs na Ásia e na África Oriental, foi enviado à Namíbia para liderar a "Schutztruppe", ou tropa de proteção.

Em 1904, ele enviou um alerta dizendo que "todos os herero, armados ou não, com gado ou não, serão mortos". Ele também afirmou que não deteria mais mulheres e crianças, mas "os levaria de volta ao seu povo ou os mataria".

Em 1905, Trotha enviou um alerta similar para os nama. Acredita-se que dez mil pessoas tenham morrido em consequência disso.

Histórias sobre as mortes no deserto foram passadas de geração em geração pelas famílias herero – geralmente em volta das fogueiras à noite.

Marama Kavita, de 43 anos, ativista herero que vive em Okakarara, a cerca de uma hora de Waterberg, afirmou que ouviu histórias contadas por sua avó, que fugiu do genocídio para o atual Botswana quando era criança.

"Sempre que eu perguntava sobre isso para ela, ela me respondia com uma palavra ou duas, e então começava a chorar. Quando você vê uma senhora como ela chorando dessa maneira, essa emoção e esse ódio também são transmitidos para você."

Em um possível obstáculo às negociações, alguns líderes nama e herero querem negociar a compensação diretamente com a Alemanha. Segundo eles, o governo da Namíbia irá distribuir o dinheiro dos alemães também entre os grupos étnicos que não foram afetados, ou pior, vão simplesmente embolsar o dinheiro.

"Não confiamos no nosso governo para negociar em nosso nome", afirmou Ester Muinjangue, diretora da Ovaherero Genocide Foundation.

O enviado especial da Namíbia para as negociações a respeito do genocídio, Zed Ngavirue, afirmou que as autoridades herero e nama já estavam envolvidas no processo e vão continuar a participar quando a Namíbia passar a receber a compensação dos alemães.

"O método e a distribuição serão definidos com a participação das comunidades", afirmou Ngavirue, que também é herero.

Mas os dois lados ainda precisam concordar com o valor da compensação, e também com o termo que deve ser usado. A Namíbia fala em reparação, palavra rejeitada pela Alemanha.

O pagamento de reparações equivale ao reconhecimento de culpa, de acordo com a Convenção sobre Genocídio das Nações Unidas, de 1948, afirmam os alemães, acrescentando que a convenção não pode ser aplicada de forma retroativa para genocídios anteriores. Também é por isso que a Alemanha se nega a negociar diretamente com os herero e os nama, já que essas discussões também estariam dentro do contexto das reparações, afirmou Polenz, o enviado especial alemão.

Embora a Alemanha tenha pagado diretamente as vítimas da Segunda Guerra Mundial no passado, se os descendentes recebessem dinheiro na Namíbia, isso envolveria a Alemanha e outros países em um fluxo interminável de novos processos, afirmou Polenz.

"Até mesmo os Estados Unidos teriam de nos perguntar o que fazer agora com os nativos americanos. Não dá pra reiniciar a história. E não dá pra fazer o tempo voltar atrás, nem em nossas vidas privadas, nem na vida pública."

Na Alemanha, o genocídio da Namíbia foi debatido algumas vezes no Bundestag, o parlamento alemão. Mas no país como um todo, o genocídio continua a ser um fato pouco conhecido, que não faz parte do currículo escolar, assim como não é mencionado nas salas de aula da Namíbia.

"Ainda existe uma amnésia colonial", afirmou Reinhart Koessler, historiador alemão e especialista na Namíbia.

No livro de visitas do cemitério militar de Waterberg, um alemão de Oldenburg escreveu: "Fico triste com o fato de que esse memorial cínico seja deixado sem informações sobre o genocídio e apenas com uma pequena nota sobre os herero que foram mortos".

Por Norimtsu Onishi

 
 
 
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