The New York Times

Maquiados, rapazes desafiam convenções de gênero no Japão

Por: The New York Times
12/01/2017 - 23h05min | Atualizada em 12/01/2017 - 23h05min

Tóquio – Com a precisão de um artesão pintando uma boneca de louça, Toman Sasaki passa base em seu rosto de traços finos, aplica blush na lateral do nariz e dá forma à cor do lábio com um pequeno pincel. Após 40 minutos se emperiquitando em sua minúscula quitinete no bairro Hatsudai de Tóquio, ele se olha em um espelho de mão e gosta do que vê.

Em conjunto com as unhas feitas, cabelo estilo "bob" e sapato de salto alto, a maquiagem fez Sasaki, 23 anos, parecer mais tipicamente feminino do que masculino, uma escolha notável em uma sociedade onde homens e mulheres costumam seguir estritamente os códigos convencionais para ambos os sexos.

Sasaki, modelo e membro de uma banda pop que atende simplesmente por Toman, considera seu visual tanto feminino quanto sem gênero. Como membro do pequeno, mas crescente grupo de "danshi sem gênero" ("danshi" significa rapaz em japonês), ele está desenvolvendo uma identidade pública e carreira a partir de um novo estilo andrógino.

"No fundo, sou homem", diz o pequeno Sasaki, cujo vestuário com regatas agarradas, jaquetas e jeans colado no corpo lembra a moda de uma garota pré-adolescente. Para ele, o conceito de gênero "não é realmente necessário".

"As pessoas deveriam poder escolher o estilo que lhes cai melhor. Não é obrigatório os homens usarem uma coisa, e as mulheres outra. Não acho isso interessante. Nós todos somos seres humanos", afirma Sasaki, que tem um grande número de seguidores como Toman na mídia social e costuma aparecer em programas de rádio e televisão.

Da mesma forma que alguns homens norte-americanos adotaram a maquiagem, rapazes japoneses estão adaptando as normas de gênero da moda, pintando os cabelos, usando lentes de contato coloridas e passando batom de cores brilhantes.

Homens como Ryuji Higa, mais conhecido como Ryucheru, tem como traço característico os cabelos louros cacheados presos com uma tiara, Genki Tanaka, conhecido como Genking, com longos cabelos platinados e que costuma aparecer de minissaia, deram um salto do estrelato na mídia social para virar celebridade da televisão.

"A questão é confundir as fronteiras que definiam a masculinidade e a feminilidade como rosa e azul. Eles querem ampliar o alcance do que alguém com anatomia masculina pode vestir", declara Jennifer Robertson, professora de Antropologia da Universidade do Michigan que pesquisa e escreve extensivamente sobre o gênero no Japão.

A cultura japonesa tem uma antiga tradição formal de travestismo no teatro, com as formas clássicas do teatro kabuki e nô, em que os homens podem se vestir como homens ou mulheres, ao takarazuka, em que mulheres interpretam ambos os gêneros.

O visual unissex para homens vem sendo popularizado no "anime", estilo de desenho animado japonês, e por membros de bandas masculinas populares.

O termo "danshi sem gênero" foi cunhado por um empresário de artistas, Takashi Marumoto, que ajudou a desenvolver a carreira de Toman. Marumoto recruta outros homens andróginos para desfiles de moda e os contrata como possíveis modelos, explorando seus seguidores na mídia social para vender para os fãs.

Ao contrário do Ocidente, onde a inversão de papéis costuma estar associada à sexualidade, no Japão ela quase só tem a ver com a moda.

"Acho que os japoneses reagem a esses homens que parecem bem femininos de forma diferente de como reagem as pessoas nas sociedades da Europa e dos EUA. No Japão, o visual da pessoa e sua identidade sexual podem ser separadas de certa forma", afirma Masafumi Monden, que pesquisa moda e cultura japonesas na Universidade de Tecnologia de Sydney e é pesquisador da Universidade de Tóquio.

Toman Sasaki conta que quando começou a se vestir no estilo de moda do "danshi sem gênero", as pessoas costumavam perguntar se ele era gay; ele se declara heterossexual.

Ele diz usar maquiagem para esconder os defeitos. "Existem muitas coisas com as quais me sinto inseguro. Não gosto da minha cara, mas acho que quem eu sou muda quando uso maquiagem."

Vários homens que se consideram danshi sem gênero disseram em entrevista que não enxergam conexão entre sua aparência e sua identidade sexual – ou nem em suas visões sobre os papéis tradicionais dos gêneros.

"A única coisa é que você passa maquiagem e se veste como quiser", diz Takuya Kitajima, 18 anos. Kitajima, que usa o nome Takubo, afirma acreditar que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes apesar de qualquer indistinção de estilos. "Acho que os homens deveriam proteger as mulheres, e que esse princípio não vai mudar. Os homens são mais fortes do que as mulheres, e um homem deve trabalhar porque as mulheres são mais fracas."

Já Yasu Suzuki, 22, que organiza eventos para outros danshi sem gênero se encontrarem com os fãs da mídia social, diz que as explorações na moda ampliaram suas visões sobre sexualidade. Quando começou a experimentar com maquiagem quando era adolescente, ele às vezes atraía a atenção romântica de outros homens.

"Eu achava que ia vomitar quando um homem disse que me amava", conta Suzuki, que usa as calças "baggy" populares entre as mulheres japonesas e arranca os pelos faciais porque não pode bancar uma depilação a laser, um tratamento popular entre os danshi sem gênero mais conhecidos.

"Mas agora que comecei a vestir essa moda unissex, acho que meu preconceito acabou. Antes, eu não gostava de rapazes ou homens que se amavam, mas agora comecei a aceitá-los. Pessoas bonitas são apenas bonitas", conta.

No Japão, onde uma caminhada em uma estação de trem durante a hora do rush destaca a conformidade dos ternos escuros da maioria dos homens, os moços desiludidos pela estagnação corporativa podem estar utilizando a moda para desafiar a ordem social.

"Na minha geração, os homens tinham inveja de outros homens porque eles podiam trabalhar e fazer o que bem quisessem", diz Junko Mitsuhashi, 61 anos, professora de estudos de gênero na Universidade Chuo e mulher transgênero. "Já na geração mais jovem, os homens têm inveja das mulheres porque elas podem se expressar por meio da moda."

Ainda segundo ela, "os homens acham que não têm uma esfera na qual possam se exprimir, e invejam as garotas, porque elas podem se expressar por meio da aparência".

Garotas jovens são as fãs mais ardorosas dos danshi sem gênero, compondo o grosso de seus seguidores na mídia social e comparecendo aos eventos.

Em uma noite de outono quando Toman se apresentou com sua banda XOX (beijo, abraço, beijo), em uma loja de roupas descolada em Harajuku, o centro da moda jovem de Tóquio, o público era composto quase que inteiramente por garotas adolescentes e algumas mulheres de 20 e poucos anos.

Toman, vestindo cetim rosa e jaqueta de oncinha, jeans preto rasgado e tênis Converse preto e branco surrado, usava lentes de contato cinza que deixavam seus olhos enormes sob os cílios postiços com pontas roxas. Quando a banda subiu ao palco improvisado para tocar algumas canções – todas apresentadas com alguma desafinação –, a plateia gritava e acenava com cartazes. Algumas garotas choravam.

Nagisa Fujiwara, 16 anos, do segundo ano do ensino médio de Tóquio, era uma das 200 meninas que fizeram fila depois do breve show para tirar fotografias com a banda.

"Ele parece uma menina", ela declara acerca de Toman, seu preferido. "Mas quando se junta isso com sua masculinidade, eu o vejo como um novo tipo de homem."

Por Motoko Rich

 
 
 
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