The New York Times

Na Venezuela, até os militares se transformam em assassinos

Por: The New York Times
11/01/2017 - 21h17min | Atualizada em 11/01/2017 - 21h17min

Caracas, Venezuela – Os soldados chegaram à casa de Rafael González sob o olhar atento de sua mãe e da namorada. Seria um interrogatório de rotina, garantiram a ele e a outros que foram detidos na mesma noite, antes de serem levados para um quartel militar sombrio.

"O que aconteceu a seguir foi tudo, menos rotina", relembra ele.

O rapaz teve as roupas arrancadas, foi chutado e levou coronhadas na cabeça. Foi pendurado pelos braços no teto, com um fio, enquanto os soldados o crivavam de perguntas, querendo saber se pertencia a uma das gangues que tinha aterrorizado o bairro onde vivia, em Barlovento, interior da Venezuela, com roubos e sequestros.

"Eles disseram: 'Vamos fazer uma brincadeira, Rafaelito, chamada eletrocução.' E me deram choques na barriga, no pescoço, no pênis, no traseiro, nas costas, nas mãos, em todo lugar. Achei que meu tímpano fosse explodir", prossegue o garoto de 17 anos.

Em 21 de outubro, cinco dias após ter sido detido, machucado e apavorado, González foi solto.

E, apesar de tudo, não demorou a perceber que estava entre os que tiveram sorte. Semanas depois, os corpos de trezes pessoas que foram levadas em batidas semelhantes foram encontrados, a maioria em uma vala comum. Segundo as autoridades, muitos tinham sido torturados.

"Imagine eu, sendo mãe, como me senti. Tinha ainda alguma esperança de que ele estivesse vivo, de que não estivesse naquele grupo", diz Petra Pérez, cujo filho, Anthony Vargas, 18 anos, foi encontrado morto, o corpo já parcialmente decomposto.

As mortes de Barlovento, que a investigação do governo condenou como sendo um massacre de inocentes, aponta para culpados, no mínimo, problemáticos na questão do aumento da violência do país: suas próprias forças de segurança.

Há muito a Venezuela sofre com um dos índices de criminalidade mais altos do mundo, mas a crise econômica que emperra tudo, desde o funcionamento dos hospitais ao abastecimento de alimentos, fez aumentar a miséria e a violência.

O número de homicídios chegou a 28.479 em 2016, o maior já registrado no país, segundo o grupo independente Observatório Venezuelano da Violência.

Gangues armadas controlam os bairros onde vivem, com muitos venezuelanos se voltando para o crime, já que a inflação come todo o salário e os empregos são cada vez mais raros.

Alguns desses grupos já foram base do apoio ao governo nos barrios. Os chamados "colectivos" nasceram como grupos comunitários, mas acabaram se armando graças a membros do movimento de Hugo Chávez, que facilitou sua ascensão como defensores militantes de seu governo.

Porém, após a morte do ex-presidente, em 2013, a economia nacional começou a degringolar, sem controle, e o número de correligionários que se voltaram para o crime disparou; no fim, acabaram rompendo com o governo para se unir a outros grupos armados que sequestram, roubam e matam.

Na tentativa de restabelecer a ordem, o governo se virou para a instituição em que mais confia: as Forças Armadas. Seus integrantes se tornaram guardiões da lei, realizando batidas que muitas vezes lembravam mais uma guerra urbana.

Segundo Tarek William Saab, ombudsman do governo envolvido nas investigações do caso de Barlovento, as vítimas eram homens e mulheres inocentes que foram sujeitos aos casos mais desastrosos de crueldade e tortura desumana.

As autoridades informam que 18 soldados, incluindo um tenente-coronel e um capitão, foram presos por sua ligação com os crimes. Saab garante que todos serão julgados, embora garanta que o massacre não faz parte de um padrão mais amplo de abuso.

Grupos de direitos humanos e sobreviventes de outras operações reagiram veementemente, dizendo que os militares já mataram centenas de pessoas, a grande maioria inocente.

Os representantes das Forças Armadas e da Guarda Nacional não responderam nossos pedidos de entrevista, mas uma organização, a Provea, que contabiliza o número de mortos nessas batidas monitorando as estatísticas oficiais e as notícias locais, confirmam que mais de 600 pessoas foram mortas no ano passado em episódios como o de Barlovento. Em 2015 foram 245.

O New York Times falou com dez vítimas dessas incursões e seus familiares, que deram detalhes de um padrão semelhante de violência. Eles descrevem detenções arbitrárias, interrogatórios abusivos e mortes cometidas pelas forças de segurança.

Só que nenhuma delas resultou no mesmo nível de denúncia pública que o caso de Barlovento, no qual tanto as vítimas como as autoridades falaram de surras, tortura e homicídio.

Tudo começou na TV: no dia dez de outubro, Néstor Reverol, o poderoso ministro do Interior, divulgou um vídeo no qual aparecia ao lado de soldados e veículos blindados para anunciar que estava mandando quase 1.400 membros das forças de segurança para seis municípios.

Poucos suspeitavam de que havia algo a temer com a chegada dos militares, pois acreditavam que, na verdade, receberiam ajuda.

"Foi a primeira vez que passamos por algo desse tipo", afirma Petra.

González, o rapaz de 17 anos, foi um dos primeiros a ser detido, em 16 de outubro. Tinha passado a noite queimando o lixo da família perto de casa e acabara de entrar quando, segundo relatos seu e de sua mãe, dois soldados entraram na sala e o forçaram a subir no jipe com eles.

Foi aí que começaram os cinco dias de suplício. Ele conta que, no quartel, teve as roupas arrancadas e foi fotografado. Por volta das dez, ao lado de outros cinco, foi levado a uma cela, onde teve os braços amarrados e foi jogado no chão, onde pisaram em sua cabeça.

Em outra sala, com os olhos vendados, recebeu choques elétricos durante 40 minutos, enquanto os soldados continuavam a pressioná-lo a falar das gangues de Barlovento.

"Se vão nos matar, matem já; não nos deixem sofrendo desse jeito. Nem animal merece ser tratado assim", ele se lembra de ter dito.

Enquanto isso, as forças de segurança continuavam capturando outras pessoas em Barlovento.

Em quinze de outubro, Carlos Marchena, um rapaz de vinte anos que trabalhava na transportadora da família, estava dando uma festa quando os soldados chegaram e forçaram todos a se ajoelhar, como conta a viúva, Mayerlin Pita. Pegaram os documentos de todos e os levaram para as picapes. "Foi a última vez que o vi com vida", lamenta.

No dia seguinte, Luis Sanz, um mecânico de trinta anos, também foi preso, segundo seus familiares. "Sete ou oito soldados com máscaras de esqui invadiram a casa dele, mas ignoraram todo mundo até verem o Luis", conta a irmã, Alimirely Sanz. A mãe, Lucía Espinoza, diz que, na confusão, acabou sendo jogada no chão também.

"Vocês, mães, são cúmplices; ajudam e acobertam", ela se lembra de um deles ter dito antes de levar seu filho embora.

A família de Sanz e de Marchena, ao lado de muitas outras de gente que fora detida, começou a se reunir em um quartel conhecido como El Café, onde acreditavam que os parentes estavam sendo mantidos. Durante três dias, levaram comida, água e roupas, entregando tudo para os soldados, na esperança de que chegassem aos detidos.

No terceiro dia, porém, Mayerlin percebeu que alguma coisa tinha acontecido.

Os soldados que até então aceitaram as doações começaram a dizer às famílias que não tinham registros dos presos, ou que eles tinham sido enviados a outro local.

Em 25 de novembro, segundo as autoridades, uma denúncia anônima levou à descoberta de dois corpos enterrados ao lado de uma estrada. Outros dez foram encontrados em uma vala comum próxima a uma cidadezinha da região.

Alimirely diz ter identificado o irmão pelas fotos dos dentes e pelas roupas porque lhe disseram que o corpo estava em adiantado estado de composição e não poderia ser visto. Já Mayerlin conta que foi um teste de DNA que confirmou a morte do marido.

Petra identificou o filho, Vargas, graças às tatuagens, incluindo uma que tinha no peito.

"Não tive dúvida, era ele mesmo", conclui.

Por Nicholas Casey

 
 
 
 
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