The New York Times

O descaso russo em relação ao HIV

Por: The New York Times
10/01/2017 - 21h41min | Atualizada em 10/01/2017 - 21h41min

São Petersburgo, Rússia – Sem alarde, o número de russos que recebeu um diagnóstico de HIV positivo passou da marca do milhão no ano passado. No entanto, há pouca indicação de que o governo direcione recursos adequados para conter a propagação do vírus de grupos de alto risco para a população em geral.

Cerca de 850 mil russos são portadores de HIV e outros 220 mil morreram desde a década de 1980, informou Vadim Pokrovsky, chefe do Centro Federal de Aids, sediado em Moscou, que estima que pelo menos outros 500 mil casos de HIV tenham sido diagnosticados.

Embora o uso do termo "epidemia" seja negado por algumas autoridades, os peritos na linha de frente como Pokrovsky dizem que é exatamente isso que está acontecendo. Argumentam que a estimativa total de vítimas constitui cerca de um por cento da população russa, que é de 143 milhões de habitantes, suficiente para ser considerada uma epidemia. Além disso, afirmaram que o sexo heterossexual logo ultrapassaria o uso de drogas injetáveis como o principal meio de infecção.

"Isso já pode ser considerado uma ameaça para toda a nação", disse Pokrovsky, acrescentando que o número de casos aumenta em cerca de 10 por cento por ano. Em 2016, cem mil novas infecções foram antecipadas, cerca de 275 por dia. É a maior epidemia na Europa e uma das maiores taxas de infecção do mundo.

Apesar do recorde sombrio, os especialistas não acreditam que algo mude na Rússia, onde as vítimas ainda enfrentam o tipo de estigma que predominava no Ocidente na década de 1980, e onde a contínua guerra de trincheiras entre o Kremlin e organizações não governamentais independentes minam esforços coletivos. Além disso, algumas vozes influentes tentam impor os "valores familiares" como o programa de prevenção ideal.

Em muitos aspectos, a luta da Rússia contra o HIV é um estudo de caso na tensão constante entre a sociedade civil e o governo do presidente Vladimir Putin; a atividade pública fora do controle governamental é considerada inerentemente suspeita. A tensão aumentou no ano passado, depois que o Ministério de Justiça rotulou várias ONGs envolvidas no combate à Aids como "agentes estrangeiros", porque haviam recebido fundos internacionais.

O presidente se mantém basicamente em silêncio. Em geral, segundo ativistas, a combinação de indiferença para com as vítimas, a austeridade financeira do governo, a hostilidade contra fundos estrangeiros e um poderoso grupo de negadores da Aids acabam com a possibilidade de um esforço nacional coerente.

Especialistas criticaram uma nova estratégia do governo russo na luta contra o HIV, lançada em outubro, por ser um tanto vaga, inclusive sem plano de execução ou injeção de novas verbas.

Apesar disso, ambos os lados na guerra contra o HIV concordam que a Rússia fez alguns progressos. O fato de que existe uma estratégia nacional – bem como um programa de publicidade promovendo exames de sangue, apoiados por Svetlana Medvedeva, a esposa do primeiro-ministro – ao menos indica algum interesse dos poderosos.

Em São Petersburgo, um casal, Dra. Tatiana N. Vinogradova e Andrei Skvortsov, tenta superar a divisão entre o governo e as ONGs sobre o assunto.

Tatiana é uma guerreira de terceira geração no combate ao HIV. Sua avó, especialista em doenças infecciosas, tratou um dos primeiros pacientes em São Petersburgo no final da década de 1980 e se dedicou a estabelecer um centro de Aids na cidade; sua mãe o administrou, e a própria Tatiana é agora sua chefe-adjunta de pesquisa científica.

Skvortsov, magro, desleixado e HIV positivo – ex-viciado em drogas e ex-presidiário – comanda uma pequena ONG chamada Pacientes em Controle, fundada em 2010 para tentar persuadir, pressionar e constranger o governo federal e local a fornecer tratamento garantido pelo governo.

No Centro de Aids de São Petersburgo, Tatiana, de 41 anos, viu a prevalência entre drogados diminuir enquanto casos entre casais heterossexuais aumentam.

"Chamar a isso de epidemia seria o mesmo que admitir que o governo deixou o problema fugir ao controle nos últimos 30 anos", disse ela, explicando por que o termo é evitado. Mas usa a estratégia nacional e qualquer declaração oficial que encontra para tentar arrancar mais dinheiro de políticos. "Isto aqui é a Rússia, então tudo tem que ser feito de cima para baixo para que algo aconteça."

Os dois já tentaram usar o casamento para ajudar a acabar com o estigma de que a doença é uma praga incurável limitada a viciados, homossexuais ou outras pessoas que iriam morrer de qualquer jeito.

"Vejo as pessoas pularem para trás quando ele diz que vive com o HIV. Agora, sempre que ouço falar sobre discriminação, tomo isso como uma ofensa pessoal", disse Tatiana, e ainda há profissionais médicos mais velhos particularmente temerosos, apesar da quantidade de provas mostrando que quem toma medicamentos antivirais não transmite a infecção.

Ativistas e especialistas sempre voltam a apontar a falta de apoio do governo como a raiz do problema.

Sob as diretrizes da Organização Mundial de Saúde para reduzir a propagação da doença, pelo menos 90 por cento dos pacientes HIV positivos devem receber medicamentos antivirais.

Na Rússia, cerca de 37 por cento recebem tal tratamento, de acordo com estatísticas do governo. "Os programas de prevenção não estão funcionando, a cobertura não é suficiente para quebrar a curva", disse Vinay P. Saldanha, diretor regional da UNAIDS para a Europa Oriental e Ásia Central.

A Rússia está entre os cinco países que representam quase metade das novas infecções em todo o mundo; os outros são África do Sul, Nigéria, Índia e Uganda, segundo dados da UNAIDS, embora em alguns desses casos, uma percentagem muito mais elevada da população total esteja infectada.

A maioria dos US$ 338 milhões anuais do orçamento federal russo destinado ao HIV é gasto com remédios, e quase nada vai para a educação preventiva. Veronika Skvortsova, a ministra da Saúde, já disse várias vezes que a expansão de programas de tratamento é uma prioridade do governo. (Ela não é parente de Andrei Skvortsov.) Porém, depois de uma profunda recessão, pouco dinheiro se materializou.

Ao mesmo tempo, a Igreja Ortodoxa Russa e alguns políticos promovem "valores conservadores" como a melhor forma de combater o HIV.

O patriarca Kirill pediu "educação moral", salientando que "estabelecer valores familiares, ideais de castidade e fidelidade conjugal" deveria ser a principal estratégia na contenção do vírus.

Tanto o governo quanto a Igreja firmemente se opõem à educação sexual para crianças. Um alto oficial do governo afirmou que a literatura clássica era a melhor professora.

O Estado também se opõe terminantemente ao tratamento com metadona para viciados, às vezes dizendo que esse é um esquema "narco-liberal". Em outros países, programas com a droga são usados para tratar e monitorar pacientes infectados por agulhas intravenosas.

A ênfase em valores tradicionais desanima aqueles que lutam contra a doença. "Valores tradicionais significam apenas deixar tudo como está. Se temos valores tradicionais e não fazemos nada, a epidemia vai continuar se espalhando", disse Pokrovsky.

Além de todos os problemas, o governo federal tenta silenciar organizações que desafiaram suas políticas, rotulando-as de "agentes estrangeiros" por receber doações do exterior, forçando algumas a fechar.

A Fundação Andrey Rylkov para Saúde e Justiça Social, que distribui agulhas e preservativos gratuitos no sul de Moscou, agora tem que grampear um pequeno selo em seus sacos de plástico, dizendo "Agente Externo", como exigido por lei. Quem os recebe diz não se importar, mas isso significa que a fundação não pode trabalhar com organizações governamentais.

Elena Plotnikova, que trabalha para a fundação, disse: "O HIV não é um problema pessoal, é uma questão social que deve ser resolvida como tal, só que a atitude do governo é como se dissesse: 'A decisão ruim foi sua e não vamos ajudá-lo'."

Por Neil Macfarquhar

 
 
 
 
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