The New York Times

Para avaliar a inteligência dos cães, os humanos aprenderam novos truques

Por: The New York Times
13/01/2017 - 20h07min | Atualizada em 13/01/2017 - 20h08min

Pam Giordano acha que seu cachorro é muito inteligente e pode provar: Giorgio, um havanês de 11 anos, tem diplomas mostrando que é bacharel, mestre e doutor por Yale. O adesivo no carro de Pam anuncia: "Meu cachorro se formou em uma grande universidade".

As honras foram conferidas a Giorgio e Giuliana, sua irmã, por sua participação no Centro de Cognição Canina da instituição.

"Eu queria descobrir o quanto eles sabem e o quanto são inteligentes. Acho que Giuliana só vai por causa das guloseimas, mas Giorgio, não. Ele é muito inteligente. Deve saber mais de 100 palavras", disse Pam, corretora de imóveis em Branford, Connecticut.

Os pesquisadores de Yale estão aproveitando. E descobriram como lidar com a disposição dos humanos, companheiros caninos, para apoiar seus estudos: com entusiasmo.

De repente, parece que a inteligência dos cachorros se tornou importante, detalhe que não passou despercebido pela área comercial da indústria de produtos para pets. Entre em qualquer loja especializada, como a PetSmart (nome bem apropriado), e veja os brinquedos, dispositivos e alimentos anunciados como promotores da inteligência canina. Ou faça uma pesquisa on-line por "brincadeiras inteligentes para seu cão".

O crescimento desse interesse, insistentemente reforçado pela indústria de pets, deu um impulso ao campo acadêmico relativamente novo da cognição canina, com centros de pesquisa surgindo em campi por todo o país. No final do ano passado, a revista Current Directions in Psychological Science dedicou toda uma edição ao tema.

Em Yale, o centro de cognição canina que existe há três anos foi tomado por seres humanos ansiosos para avaliar a inteligência de seus peludos, voluntariando-os para pesquisas com exercícios e quebra-cabeças. Os proprietários são realmente dedicados, sendo que alguns levam horas para chegar até o centro.

"As pessoas gostam de saber que os filhos são inteligentes e que os cães também são. Muitas nos ligam para se desculpar, dizendo: 'Eu gostaria de levar meu cachorro, mas acho que ele é meio burrinho'", disse Laurie Santos, professora de Psicologia responsável pelo centro.

(A propósito, eis um segredo desanimador: cães inteligentes muitas vezes não são grandes companheiros, precisamente porque são espertos demais.)

Mas quando os donos usam "cão" e "inteligente" na mesma frase, o que exatamente querem dizer? Inteligente se comparado a quê? Um gato? Outro cachorro? Um ser humano?

Cientistas definem e avaliam a inteligência de um cão de forma diferente do que fazem os donos. Mais de uma década atrás, antropólogos evolutivos perceberam que observar cães, cujo desenvolvimento é fortemente moldado por seres humanos, é algo especial. Ao contrário dos gorilas, seu estudo é razoavelmente barato, eles existem em números abundantes e seus cuidados são bancados com prazer pelos proprietários.

Hoje, alguns pesquisadores estudam o cérebro canino; outros tentam identificar suas habilidades cognitivas, tentando perceber até que ponto os cães podem ser únicos entre os animais. Psicólogos comparativos comparam suas capacidades com as das crianças.

Os especialistas concordam que, quando os donos falam sobre a inteligência de seus animaizinhos, estão impondo um padrão humano ao cão. Ele pode parecer "mais esperto" para você do que o do vizinho, mas até mesmo a noção popular derivada de alguns estudos – que dizem que os cães são tão inteligentes quanto crianças pequenas – é, na prática, algo sem sentido.

Muitos estudiosos do comportamento animal afirmam que o que as pessoas realmente dizem quando falam que um cão inteligente é que ele é facilmente treinável.

"As pessoas acham que os cães são mais inteligentes que os gatos porque eles obedecem, mas não é bem assim", disse Frans de Waal, biólogo e primatologista da Universidade Emory, em Atlanta.

Os cachorros vivem em proximidade íntima com os seres humanos há cerca de 30 mil anos e, nesse processo, evoluíram a ponto de entender nossas sugestões e nos treinando para alimentá-los e abrigá-los. Em termos de instinto de sobrevivência, isso é bem inteligente.

A pesquisa de cognição canina está em andamento em inúmeros campi, de Berkeley a Barnard, e em universidades na Inglaterra, da Hungria e da Japão. O crescimento desse campo coincidiu com uma mudança no modo no qual os donos veem seus animais.

"Essa é a consequência lógica da tendência de 'humanização dos animais de estimação'", disse Hal Herzog, antropozoologista e professor emérito de Psicologia na Universidade Western Carolina em Cullowhee, Carolina do Norte. De fato, os proprietários muitas vezes se intitulam pais de seus animaizinhos.

Como pais humanos que compraram CDs Baby Einstein na esperança de aumentar a inteligência da prole ainda no útero, muitos proprietários de pets sucumbiram a engenhocas anunciadas como promotoras do aperfeiçoamento da função cerebral do seu cão. (Vide a IQ Treat Ball, ou bola do QI.)

"Qual o pai que não quer que seu filho tenha os melhores estímulos cognitivos? A culpa tem um papel importante nisso", disse David Lummis, analista de mercado de pets da Packaged Facts, empresa de pesquisa de mercado.

Mas, como descobrem alguns pais de animais de estimação, um cão esperto pode se parecer mais com um adolescente sabichão do que com uma criança adorável.

"Cães inteligentes frequentemente são um incômodo. Eles ficam inquietos, se entediam facilmente e criam problemas", disse Clive D. L. Wynne, professor de Psicologia que dirige o Canine Science Collaboratory na Universidade Estadual do Arizona.

Embora o entusiasmo pela pesquisa canina esteja a todo vapor, pode ser difícil encontrar financiamento. Recentemente, alguns pesquisadores se aliaram ao comércio para atrair cientistas-cidadãos (também conhecidos como proprietários de cães) para ajudar na coleta de dados.

Adam Miklosi, húngaro pesquisador do comportamento canino, planeja conectar cientistas a proprietários que possam reunir informações sobre os hábitos de seus cães. Seu projeto, o SensDog, usa um aplicativo de iPhone para se comunicar com sensores Apple Watch instalados na coleira do animal.

Há também o Dognition, cujo site declara: "Encontre o gênio em seu cão". É um projeto liderado por Brian Hare, do Centro de Cognição Canina da Universidade Duke em parceria com a linha de alimentos caninos Bright Minds, da Purina. Por US$ 19, os proprietários recebem um questionário e um vídeo de instruções para reunir informações sobre seu cão e enviar os dados para o site do Dognition. Recebem então um perfil cognitivo do pet, especialmente em comparação a outros cães.

Logicamente, ainda estamos, no geral, falando sobre cães como uma espécie. Os estereótipos das raças estão profundamente enraizados, disse Hare, mas não há nenhuma evidência que mostre que uma é cognitivamente superior à outra. Em 1999, Stanley Coren, hoje psicólogo emérito da Universidade da Colúmbia Britânica, produziu uma lista de 110 raças classificadas pela inteligência, baseada em sua pesquisa com 200 juízes profissionais de obediência canina. Os três primeiros colocados: border collie, poodle e pastor alemão.

"Giorgio é um terço poodle, portanto ele é realmente inteligente durante um terço do tempo", afirmou Pam Giordano.

(Escondidos no fim da lista: buldogue, basenji, galgo afegão. Se serve de consolo, Hare disse que os cientistas não consideram pesquisas como provas definitivas.)

Certos cães são ótimos em tarefas para as quais foram criados há séculos. Bloodhounds têm um olfato surpreendente; pastores australianos podem manter um rebanho de ovelhas reunido de modo tão hábil quanto uma professora de jardim de infância controla um playground repleto de crianças de três anos.

E os cães parecem confiar em nós para ajudá-los na resolução de problemas. Quando se atrapalham (por exemplo, quando a bolinha de borracha fica presa debaixo da cama ou quando a porta da cozinha fecha), voltam-se para os seres humanos, ganindo, cutucando, encarando-os com olhar de coitado. Por outro lado, um lobo criado por uma pessoa continuará tentando resolver um problema por conta própria.

Mas a inteligência em si pode não ser a característica que realmente diferencia os cães, pelo menos em relação à interação homem-animal, dizem pesquisadores.

"Há algo notável sobre os cães: eles têm um tipo aberto de hipersociabilidade; querem dar amor", disse Wynne.

"Acho que 'inteligência' é uma noção falsa. O que precisamos em nossos cães é afeto. Minha cadelinha é idiota, mas é uma idiota adorável", continuou ele.

Hare, que é professor de Antropologia Evolucionária na Duke, disse acreditar que os cães, como os seres humanos, têm vários tipos de inteligência. Com o Dognition, os donos testam seus pets em áreas de empatia, comunicação, astúcia, memória e raciocínio.

Laurie Santos, de Yale, concorda. "Se você quer treinar um cão para provas de agility ou exposições, precisa valorizar determinados traços. E se tem uma família e um trabalho estressante, quer um companheiro para acariciar. Ambos são 'inteligentes'."

Por Jan Hoffman

 
 
 
 
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