Efeito da crise

Um ano depois, o que mudou na vida dos trabalhadores em layoff

Programa busca evitar demissões nas empresas, que reduzem custos ao deixar de pagar encargos e salários por um período de até cinco meses

13/01/2017 - 22h01min | Atualizada em 13/01/2017 - 22h01min

Depois de bater recorde em 2015, o número de trabalhadores em regime de layoff recuou 8% no ano passado. Conforme dados do Ministério do Trabalho, pouco mais 30 mil pessoas terminaram 2016 com seus contratos de trabalho suspensos temporariamente devido à crise econômica. No Rio Grande do Sul, a queda foi ainda maior: 91%, de 1,4 mil para 120.

O layoff é um mecanismo previsto na legislação desde o fim dos anos 1990 e visa evitar demissões nas empresas, que reduzem custos ao deixar de pagar encargos e salários por um período de até cinco meses. Durante o afastamento, os trabalhadores precisam fazer um curso e recebem até cinco parcelas de uma bolsa-qualificação, uma modalidade de seguro-desemprego. O layoff pode ser prorrogado por mais cinco meses, com os custos da bolsa arcados pela empresa.

Em janeiro do ano passado, Zero Hora mostrou o drama e a expectativa de quatro trabalhadores enquadrados no regime de interrupção temporária de contratos. Agora, um ano depois, a reportagem revela o que mudou na vida de três dos quatro entrevistados na época (um deles não foi localizado).

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E o que havia mudado três meses depois

Casa nova e estabilidade

Foto: Camila Domingues / Especial

O operador Fabiano Machado Pereira, 35 anos, ficou afastado de suas funções na Gerdau, em Charqueadas, na Região Metropolitana, durante oito meses. Nesse período, fez bicos para complementar a renda, que havia caído em razão do layoff — com a suspensão do contrato de trabalho, deixou de receber horas extras e adicional noturno.

Por integrar a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) da empresa e desfrutar de estabilidade, conforme prevê a legislação trabalhista, Pereira permaneceu no emprego no retorno do layoff, em março de 2015. Mas viu muitos de seus colegas serem demitidos.

A preocupação persistiu até dezembro, quando Pereira conseguiu renovar o mandato na Cipa, garantindo mais dois anos de estabilidade. Antes disso, a família já tinha outro motivo para respirar um pouco mais aliviada: em meados de 2016, após ganhar ação trabalhista, Pereira pôde enfim comprar uma casa. Embora seja um pouco menor, o imóvel, na Vila Raguse, permitiu que saísse do aluguel.

— Para mim, a situação melhorou. Mas a gente continua economizando e eu, cortando grama. Por garantia — diz.

A preocupação se transformou em precaução. É que a mulher de Pereira, a dona de casa Gabriela Figueiró Chaves, 22 anos, permanece desempregada. Pelo terceiro ano seguido, o casal, que é natural de São Jerônimo, não consegue vaga para o filho Kauãn, de três anos, na creche municipal. Sem ter com quem deixar a criança, Gabriela (que não concluiu os estudos e antes de engravidar fazia faxinas) não tem como procurar emprego.

Duas reviravoltas após demissão


Foto: Camila Domingues / Especial

Foram oito meses procurando emprego. Durante o layoff, o técnico em eletromecânica Ronaldo Fernandes, 37 anos, costumava enviar cinco currículos a cada mês, já esperando que o pior acontecesse. Não deu outra. Em março do ano passado, quando se reapresentou, recebeu a notícia de que seria desligado da Gerdau, em Charqueadas, onde trabalhava havia sete anos.

Com o dinheiro da rescisão, resolveu empreender. Aproveitou os meses em que estava com o contrato de trabalho suspenso para se capacitar: fez cursos de polimento e martelinho de ouro. Daí, abriu uma estética automotiva.

— Foi uma virada totalmente radical — conta.

A procura pelo serviço foi grande nos primeiros meses. Fernandes não só conseguiu recuperar o que havia investido como contratou um funcionário. Mas a crise que despertou seu lado empreendedor também fez com que a concorrência aumentasse. Com o mercado saturado, nova reviravolta. Fernandes vendeu o negócio e passou a trabalhar no comércio.

Há 20 dias, atua como vendedor em uma loja da rede Quero-Quero, no centro de Charqueadas. Diz estar bastante motivado com a nova experiência. Como o incremento no salário depende de comissões, espera que a recuperação econômica do país não demore para acontecer.

— Espero que, a partir deste ano, já comece a melhorar. Talvez em 2018, com eleição, entrando alguém diferente. Do jeito que está, só muda o penteado.

Mudança de horário

Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Quando se apresentou à General Motors (GM), em Gravataí, na Região Metropolitana, em maio do ano passado, o metalúrgico Alessandro Lopes da Silva, 37 anos, recebeu uma boa e uma má notícia ao mesmo tempo. Depois de cinco meses de layoff e após uma espécie de seleção, o emprego de Silva estava mantido, ao contrário de muitos de seus colegas, mas teria de trocar de horário. Devido à queda na produção de automóveis, a empresa acabou optando por extinguir o chamado terceiro turno (da meia-noite às 6h).

Silva, que trabalhava à noite para cuidar do filho Otávio, nove anos, passou a trabalhar das 6h às 15h.Devido à mudança, as despesas da família aumentaram. Agora, além da mensalidade da escola e das prestações do apartamento financiado, Silva e sua mulher, a cuidadora de idosos Rosane de Lima Brinck, 40 anos, precisam bancar o salário de uma pessoa que fica com a criança pela manhã. Silva conta que tanto ele quanto o filho sentem falta da antiga rotina, mas ambos tiveram de se adaptar. Para retomar as atividades na montadora, o metalúrgico e os colegas que permaneceram em suas vagas precisaram passar por um curso de reciclagem, após tanto tempo de afastamento do trabalho.

— Até agora, estamos tranquilos. Foi um alívio voltar. A incerteza continua, mas não como antes — afirma.

A família, que já vinha cortando gastos, principalmente com lazer, apertou ainda mais o cinto. Depois do layoff, a ida ao cinema e os passeios em parques aos finais de semana, por exemplo, tiveram de ser substituídos por programações caseiras.

 
 
 
 
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