Registro comovente

A história por trás da foto de menina levada de maca para velório de familiares

Pedido feito por Valéria Correia da Rosa, 13 anos, foi atendido após permissão de psiquiatra, traumatologista e Conselho Tutelar

Por: Vanessa Kannenberg
13/02/2017 - 17h43min | Atualizada em 13/02/2017 - 20h06min
A história por trás da foto de menina levada de maca para velório de familiares Amanda Lima/Rádio Missioneira
Valéria foi levada de maca e com perna imobilizada para se despedir de familiares na segunda-feira Foto: Amanda Lima / Rádio Missioneira  

Uma foto publicada nesta segunda-feira em Zero Hora chamou atenção pela cena incomum que registra e pela forte dose de emoção que carrega. Mais de 350 usuários compartilharam a reportagem no Facebook, 13 mil reagiram ao post e mais de 200 comentaram nele, a grande maioria impactada pelo registro e, ao mesmo tempo, grata aos profissionais que permitiram que ela se concretizasse. 

A imagem foi registrada pela repórter Amanda Lima, da Rádio Missioneira, às 17h15min de domingo. Na Capela São Lucas, em São Luiz Gonzaga, nas Missões, sobre uma maca e com a perna esquerda imobilizada, uma menina de 13 anos se despede da mãe, do irmão de oito meses, do padrasto, de um irmão do padrasto e da mulher dele — todos mortos em um acidente, ocorrido 13 horas antes, em que a única sobrevivente do carro em que estavam foi ela.

"Situação triste que mostrou muita delicadeza, sensibilidade e humanidade por parte dos profissionais da saúde. Levar a menina lá para que desse o último adeus aos familiares. Que Deus conforte esse coração tão novo e que já enfrenta tanto sofrimento", afirma o comentário com mais aprovações na rede social.

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Foi a própria Valéria Correia da Rosa que, ao ser comunicada por uma tia sobre a perda de seus familiares, pediu para ir ao velório. Para atender ao pedido, o Hospital São Luiz Gonzaga, que recebeu a menina quase uma hora após o acidente, às 5h42min de domingo, mobilizou uma série de profissionais.

O psiquiatra Augusto Dutra Giacomelli foi o primeiro a ser consultado. Após uma ligação do hospital, ele procurou se certificar de que a menina tinha condições clínicas de ir até a capela. O aval veio da equipe de traumatologia. Com uma fratura no fêmur, a perna esquerda da paciente foi imobilizada utilizando-se uma tração esquelética — equipamento de metal que mantém o membro erguido.

— Recomendei que ela fosse até lá para começar o processo de luto, porque, sem a despedida, isso seria muito difícil — esclareceu Giacomelli.

Segundo o psiquiatra, que vai seguir acompanhando o tratamento da menina, a saúde mental e a física não se separam:

— Para a própria recuperação dela, que não era uma paciente de UTI (caso grave), se despedir da família era muito importante para prevenir a ocorrência de luto tardio e patológico.

O médico plantonista avaliou que o quadro dela era estável e que a cirurgia, necessária para reparar a fratura, teria que aguardar alguns dias. Por isso, liberou o deslocamento com a condição de que a menina fosse mantida em uma maca.

Em seguida, veio a consulta ao Conselho Tutelar, já que Valéria é adolescente. A plantonista do setor concordou somente depois do aval do psiquiatra e acompanhou do início ao fim o processo. De folga nesta segunda-feira, a conselheira não quis falar com ZH.

Para concretizar o deslocamento, o hospital solicitou a ambulância, um motorista e uma enfermeira da prefeitura. Além disso, disponibilizou mais uma técnica em enfermagem para auxiliar no processo, que envolveu a transferência de Valéria da cama para a maca e o acompanhamento até o velório. O deslocamento de ambulância durou três minutos, já que a capela fica a uma quadra do hospital.

Lá, a menina foi recebida por avós, tios, primos e amigos. A enfermeira do município Ana Morgane Greff, que aparece à esquerda na foto, conta que seu papel foi apenas acompanhar a menina na cerca de uma hora em que ela permaneceu na capela.

— Foi rápido e simples, mas muito comovente — resumiu Ana.

A repórter Amanda Lima conta que não sabia, até chegar ao local, que Valéria estaria lá. Depois de conversar com familiares, diz que fez apenas cinco cliques e se retirou do ambiente.

— Não existe teoria que nos ensine a cobrir velórios ou momentos assim. É sempre muito difícil. Desta vez, foi mais ainda. Fiz o meu trabalho de tentar representar o momento — afirma Amanda.

De volta ao hospital, Valéria foi conduzida ao quarto e permanece com a perna imobilizada. Segundo a equipe médica, é preciso aguardar alguns dias para que esteja em condições de passar pelo procedimento cirúrgico. O quadro é estável e familiares a acompanham o tempo todo. ZH não conseguiu contatar nenhum parente dela nesta terça-feira.

Pela manhã, foram sepultados os corpos da mãe de Valéria, Gisele de Oliveira Correia, 29 anos, do irmão Fabiano Ariel Correia Brum, oito meses, do padrasto e motorista da Parati, Fabiano Irassoque Brum, 33 anos, e do casal Gilson Irassoque Brum, 44 anos, e Rosalina Alvaraz Charão, 46 anos.

O motorista do outro carro envolvido no acidente, Vladinis Oliveira Miranda, 28 anos, foi enterrado em Santo Antônio das Missões. Igor de Santis Moraes, 30 anos, que também estava no Siena, sobreviveu ao acidente.

 
 
 
 
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