The New York Times

Depois de ter braços e pernas amputados, inglês é salvo pelo bom humor

Por: The New York Times
13/02/2017 - 14h45min | Atualizada em 13/02/2017 - 14h45min

Stockbridge, Inglaterra – Alex Lewis estava tomando uma caneca de Guinness com os amigos durante uma noite fria quando sua garganta começou a coçar e ele sentiu que estava ficando gripado. Pelo menos era isso que imaginava.

Alguns dias depois, ele lutava pela própria vida.

Uma bactéria misteriosa havia entrado em seu corpo, consumindo sua carne e deixando sua pele roxa. Os lábios desapareceram, deixando um buraco onde costumava ficar a boca.

Em menos de um mês ele perdeu os pés, e então as pernas e o braço esquerdo, se tornando fisicamente metade do homem que costumava ser. Estava irreconhecível para quase todo mundo ao seu redor, incluindo seu filho de dois anos, que tinha medo de abraçá-lo.

Depois de seis meses, mais de 100 horas de cirurgias e mais de 30 implantes de pele, além da perda do braço direito e tanta morfina no sangue que chegou a confundir uma árvore de natal com ¿um homem vestido de Miss Marple¿, afirmou, Lewis foi levado para casa de cadeira de rodas, depois de ter as pernas e os braços amputados e uma parte da pele do ombro enxertada no rosto para funcionar como uma nova boca.

A doença devastadora, que começou há três anos, e a extraordinária reação de Lewis, cativaram o Reino Unido e tornaram o tranquilo dono de bar – um ¿cara normal¿, em suas próprias palavras – em uma figura de fama nacional.

Descobriu-se que sua doença estava ligada ao streptococcus do grupo A, a bactéria que causa dores na garganta. Mas no caso de Lewis, a infecção se espalhou pelos tecidos e órgãos, resultando em um envenenamento do sangue, uma condição mortal que pode levar à falência múltipla dos órgãos.

Durante toda a doença, sua saúde mental e bom humor permaneceram intactos, a ponto de até os médicos se referirem a ele em conferências médicas como um caso anormal.

¿O ano em que perdi meus braços e pernas foi o melhor da minha vida¿, afirmou Lewis, de 37 anos, com uma ponta de ironia. ¿O homem que eu era não é necessariamente o cara que eu sou hoje – no bom sentido, eu acho¿.

Durante uma manhã recente, Lewis estava sentado à mesa da cozinha, trabalhando duro. Vestido de camiseta e bermuda preta, ele observava o projeto do piso do pub de um cliente, além de amostras de tecido, mexendo de tempos em temos no celular com a ajuda de uma caneta presa à ponta de sua mão prostética de metal pintado de preto.

Ele tentou silenciar a Siri, a assistente virtual da Apple. ¿Foi o que pensei!¿, ela repetia insistentemente. ¿Isso é um inferno, né?¿, afirmou Lewis, se desculpando. ¿Some daqui¿.

Segundo todo mundo, inclusive ele, não era assim que ele passava os dias antes de ficar doente.

¿Eu vivia na horizontal, sério¿, afirmou meio de brincadeira, descrevendo sua velha preguiça. ¿Vivia discutindo com a Lucy por causa disso¿, comentou, referindo-se à esposa, pragmática e bem humorada, que se refere ao marido como seu ¿novinho¿.

Mas depois que foi finalmente liberado do hospital e eles começaram a se dar conta de tudo o que precisaria ser feito para a vida voltar ao normal, ¿toda essa história de tranquilidade ficou para trás¿, contou.

Lucy Lewis, de 43 anos, concordou. ¿Ele é um cara normal¿, afirmou, entrando apressada na cozinha, depois de uma manhã cheia de serviço no The Greyhound, o bar que pertence à esposa e que Lewis descreveu como ¿o pior pub do mundo para uma pessoa com deficiência¿.

Ela era uma locomotiva antes que ele ficasse doente, comandando dois pubs, um serviço de catering e uma padaria. Ele era o contrário disso.

¿Não ficava estressado com nada. Nunca ficava nervoso e isso me deixava muito irritada¿, contou Lucy Lewis, sorrindo enquanto olhava para o marido.

¿Eu perguntava se ele tinha cuidado da papelada dele e ele respondia que sim, `Entrou por um bolso e saiu pelo outro¿¿, afirmou, enquanto Lewis escutava e ria. ¿Eu estava lá tentando descobrir onde estavam os recibos, onde estavam os documentos e queria matá-lo.¿

Mas por uma ironia do destino, foi sua ¿atitude relaxada¿, nas palavras de Lewis – uma espécie de estoicismo –, que permitiu que ele lidasse tão bem com essa transformação chocante.

¿Se eu fosse mais estressado, acho que teria perdido a cabeça naquela situação, porque você está na beira do precipício, entre conseguir lidar com aquilo ou não. Ou você se vira, ou não. Não tem meio termo. Felizmente no meu caso, por alguma razão, consegui lidar mentalmente com a situação.¿

A tenacidade da esposa também foi fundamental para a recuperação, afirmou.

¿Quando você ama alguém, acho que dá pra lidar com a situação. Eu disse que ele tinha uma escolha, e que se sentisse pena de si mesmo e se trancasse dentro de casa, iria perder sua família. Ele tinha que sentir que estava trazendo alguma coisa positiva para casa.¿

O quarto de hospital onde passou meio ano estava ¿sempre cheio de alegria¿, afirmou Lucy.

Lewis, filho de um cartógrafo do exército britânico, teve uma infância feliz. Mas começou a beber aos 16 anos e resolveu não ir à faculdade, porque ¿ficar bêbado na universidade não era uma boa ideia¿.

Ao invés disso, foi para a construção civil e trabalhou durante um tempo no jornal local. Contudo, logo percebeu que também não se habituaria ao escritório e abriu uma empresa de decoração de interiores. Ele e Lucy se conheceram em 2009, e depois do nascimento de Sam, o primeiro filho do casal, ele cuidava do bebê enquanto a esposa corria atrás dos pubs e da padaria.

Lewis gostava muito de beber. Um dia normal envolvia ao menos 12 canecas de Guinness e duas garrafas de vinho, algo que ele acreditava ¿fazer parte das obrigações¿ de um dono de bar, embora provavelmente levasse isso ¿a sério demais¿.

Para alívio de Lucy e irritação do marido, ele teve que mudar drasticamente de hábitos.

Também precisou mudar de dieta. O ombro, cuja pele serviu de enxerto para sua boca, é uma área que acumula gordura muito rapidamente, afirmou. Ele sabe que ganhou peso só de olhar no espelho, brincou.

Seu filho Sam, que agora tem seis anos, demorou seis meses para aceitar abraçá-lo. Mas após o choque inicial, Sam ficou ¿bem sossegado¿, lembrou Lewis.

¿Ele dizia: `Papai, parece que tem chocolate branco espalhado na cara toda¿¿, ele e Lucy explicaram que com pernas e braços novos, ele ¿se tornaria um Power Ranger¿, contou Lewis. ¿Assim, conseguiu entender melhor¿.

Lewis criou um fundo de solidariedade para ajudar com os custos da reabilitação, das cadeiras de rodas, da reforma da casa e das próteses. Embora o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido tenha pagado parte dos gastos médicos e custos de reabilitação, ele estima que vai precisa de quase US$ 4 milhões para cobrir todas as despesas até se aposentar.

Ele voltou a trabalhar, projetando o interior de bares chiques. Também está ajudando pesquisadores da Universidade de Southampton a criar uma base de dados nacional para ajudar amputados a entrar em contato com médicos, terapeutas e fornecedores de próteses. Ele dá palestras em escolas e conferências médicas, falando sobre sua experiência e sua capacidade de recuperação.

Enquanto isso, Lewis também foi a uma viagem de caiaque pela Groenlândia com amputados do exército britânico. Agora, planeja fazer uma viagem similar para a África do Sul e para a Namíbia ainda este ano, mas disse que será a última por algum tempo.

¿Pode parar de graça, não dá pra ficar saindo pra andar de caiaque. Você tem que trabalhar!¿, Lewis se lembra de ter ouvido da esposa. ¿Eu tento levar a vida¿, completou.

Por Kimiko De Freytas Tamura

 
 
 
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