The New York Times

Movimento marginal de ódio agita o Canadá, defensor da imigração

Por: The New York Times
16/02/2017 - 19h37min | Atualizada em 16/02/2017 - 19h37min

Toronto – Não faz muito tempo, François Deschamps saiu do prédio onde mora, no bairro de Limoilou, em Quebec, e parou ao ver o anúncio preso no poste.

"Incendeie sua mesquita local" era a mensagem sobre a silhueta de um templo, no estilo turco, envolto em chamas. Tirou uma foto com o celular para acrescentá-la à sua coleção de declarações antimuçulmanas que começaram a pipocar na cidade.

O Canadá é uma sociedade excepcionalmente aberta, legado dos políticos liberais que colocaram o país pouco populoso na rota do multiculturalismo agressivo décadas atrás. Para a agência federal de estatísticas, até 2036, quase metade da população será composta de imigrantes ou filhos deles, a maioria sendo o que o país chama de "minorias visíveis", ou seja, não brancos.

Essa rápida transformação está afetando os elementos mais conservadores, ou os canadenses brancos, que consideram a nação como sendo sua, apesar do fato de os europeus terem ocupado a terra de uma série de povos indígenas que há muito existiam ali.

Porém, poucos acreditam que essa comoção, moderada em comparação aos padrões norte-americanos, tenha contribuído diretamente no ataque de 29 de janeiro à maior mesquita da cidade, matando seis pessoas e ferindo oito. E não há evidência ainda de que o aluno da Universidade de Québec responsável pela violência tenha ligação com qualquer grupo específico.

A verdade, entretanto, é que o ocorrido levou muita gente a desconfiar que a abertura canadense à imigração muçulmana esteja gerando tensões. E mesmo os grupos mais tradicionalistas parecem sentir que expressar o radicalismo pode ser perigoso.

Há pelo menos cem grupos de extrema-direita no Canadá, segundo dois estudos publicados em 2016, sendo a maioria ativa nas províncias de Ontário, Quebec, Alberta e na Colúmbia Britânica.

Embora tenham como alvos gays, lésbicas, judeus e outras minorias, os muçulmanos enfrentam uma hostilidade considerável. Em 2014, último ano de estatísticas disponíveis, a polícia registrou 99 crimes de ódio cometidos por motivos religiosos contra muçulmanos; em 2012, foram 45.

"Há quem culpe a linguagem nacionalista de Donald Trump, mas a verdade é que o extremismo de direita há muito existe no Canadá, fomentado por skinheads, supremacistas brancos e outros", revela Barbara Perry, especialista do Instituto de Tecnologia da Universidade de Ontário em Oshawa e principal autora de um relatório publicado no ano passado na revista científica Studies in Conflict & Terrorism.

"O sentimento já faz parte da sociedade", completa a estudiosa para quem a internet tem um papel fundamental na disseminação da ideologia.

De uns anos para cá, o Canadá testemunhou a proliferação de facções nacionalistas, incluindo o Soldiers of Odin, grupo nacionalista branco que começou na Finlândia – e embora a versão canadense negue crenças racistas e seus membros participem de patrulhas comunitárias a pé em cidades como Edmonton e Vancouver, sua página no Facebook prega o anti-Islã e contém referências preconceituosas aos imigrantes.

As autoridades registraram milhares de crimes de ódio recentemente, mas Barbara Perry diz que o policiamento canadense minimiza a ameaça da extrema-direita, preferindo, em vez disso, se concentrar no terrorismo islâmico. "É para onde vai toda a verba e a atenção. As autoridades de comunidades onde a presença dos extremistas é considerável ou negam sua existência, ou a relevância do fato."

A Real Polícia Montada do Canadá e o Serviço de Inteligência de Segurança Canadense se negaram a comentar as atitudes que tomam para monitorar e impedir a disseminação dos grupos nacionalistas, embora a agência tenha, no passado, minimizado a influência do movimento, dizendo à imprensa local que "os círculos de extrema-direita pareciam estar fragmentados e, a princípio, representavam uma ameaça à ordem pública e não à segurança nacional".

Na cidade de Québec, panfletos, cartazes e manifestações ocasionais de grupos como a Fédération des Québécois de Souche (que significa "Federação dos Quebequenses de Estirpe") proliferam. Seu slogan é "Existo, logo ajo", mas como qualquer movimento marginal, é mais ativo por trás do anonimato garantido pela internet.

"É muito difícil saber quantos são porque há sempre um pequeno núcleo e, à sua volta, seguidores menos ativos. Nos últimos vinte anos o movimento se fragmentou e se reformulou, as células mudaram de nome várias vezes e o aumento recente na imigração deu fôlego novo à causa, mas nada disso é novidade", explica Stéphane Leman-Langlois, professor de Sociologia da Universidade de Laval que estuda a extrema-direita de Québec.

La Meute, grupo que inclui vários veteranos da guerra do Afeganistão, já reúne 43 mil seguidores desde que criou uma página fechada no Facebook, em 2016. O nome significa "alcateia" em francês e seus integrantes não são politicamente virulentos pelos padrões dos EUA, mas se concentram em temas como a imigração muçulmana.

Já do outro lado da balança estão os seguidores da Légitime Violence, banda de heavy metal que além de se orgulhar de ser fascista, anuncia seus shows a uma lista exclusiva de fãs e toca músicas como "Final Solution" (Solução Final), cuja letra é tão sutil quanto o título.

Outros grupos extremistas em Quebec incluem Atalante Québec; Pegida Québec, ramificação da versão alemã; Soldiers of Odin.

Classificar essas associações de "extrema-direita", entretanto, pode ser errado: a Fédération des Québécois de Souche, por exemplo, afirma que entre seus afiliados há gente de várias visões políticas, incluindo socialistas e libertários. O denominador comum parece ser a oposição à imigração, principalmente de muçulmanos.

"Nosso objetivo não é encolher uma minoria; grupos como o nosso ajudaram a instaurar um debate sobre a imigração e o multiculturalismo que seria impensável há dez anos, quando da nossa fundação. Queremos garantir liberdade para as pessoas falarem o que pensam sem a restrição da correção política", afirma Rémi Tremblay, porta-voz da Fédération des Québécois de Souche.

Essa discussão, principalmente entre extremistas anônimos anti-imigração existe, em um conceito mais amplo, na cultura dos programas de rádio que pendem para a direita em Québec, criticando a imigração muçulmana e o que vê como "fracasso" de adaptação à cultura local. Esse veículo é raro em outros lugares que não no Canadá e lembram um pouco a versão histérica de mesma vertente nos EUA, embora mais tranquila.

As estações Radio X e FM93 estão entre as que dão voz aos ativistas antimuçulmanos. Embora seus integrantes não se manifestem, ela oferece uma plataforma às vozes menos tolerantes de associações como o Point de Bascule ("Ponto de Ruptura") e o Poste de Veille ("Posto de Observação"), cujo site mostra um navio pirata de bandeira jihadista se aproximando de Québec.

Mesmo o prefeito da cidade, Régis Labeaume, visivelmente abalado durante a coletiva de trinta de janeiro, na qual reforçou seu apoio à comunidade muçulmana, se mostra frustrado com os costumes islâmicos ortodoxos.

Em 2014, durante entrevista sobre o surgimento do burquíni nas piscinas públicas, relembra ter visto, em um dia muito quente de verão, um homem de short e chinelo ao lado da mulher usando o niqab, coberta da cabeça aos pés, incluindo luvas pretas. Labeaume conta que sua esposa teve que segurá-lo para não "ir lá e xingar o homem".

Muita gente pediu que se baixasse o tom do debate após o ataque à mesquita.

"Sem dúvida, o tom deve ser mais respeitoso de ambos os lados", dispara Dominic Maurais, que tem um programa na Radio X e é um dos líderes do conservadorismo em Québec e faz questão de dizer que é pró-imigração.

"Porém, é preciso ter cuidado para não deixar que a correção política leve a melhor sobre as discussões cruciais, francas e básicas sobre o radicalismo do Islã e os valores islâmicos em nossas democracias", diz ele em entrevista por telefone.

Tanto a Fédération des Québécois de Souche como a Atalante Québec, em nota conjunta, condenaram o atentado, classificando o atirador de "demente".

Por Craig S. Smith E Dan Levin

 
 
 
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