The New York Times

O teatro de marionetes ganha força na cena artística

Por: The New York Times
14/02/2017 - 20h34min | Atualizada em 14/02/2017 - 20h42min

Chicago – Um aspirador de pó vira um amante; com sucção envolvida. Pés se transformam em rostos. Uma grande criatura com presas surge com um homem dentro dela. Aldeões fantasmagóricos se reúnem silenciosos e envoltos em fumaça, enquanto seus prédios queimam.

Foi uma invasão de títeres – parte do Festival Internacional de Teatro de Marionetes de Chicago, que durou 11 dias – e a mais recente prova de que os fantoches, uma arte delicada e misteriosa tão frequentemente restrita às crianças neste país ou relegada a produções marginais, está reivindicando mais visibilidade. Em uma época em que procuramos alívio da implacável enxurrada da tecnologia, essa forma de arte simples, feita à mão, pode oferecer algum.

Uma cidade em que, por anos, a estética de palco dominante foi um tipo de realismo provocador – é só lembrar da Steppenwolf Theater Company, que apresentou John Malkovich ao mundo – pode não parecer o lugar onde o teatro de fantoches floresceria. No entanto, a própria existência do festival de janeiro e o entusiasmo com que foi aprovado por dezenas de instituições por toda a Chicago desde seu início em 2015, é a prova de um processo que já estava acontecendo nos palcos americanos há tempos.

O teatro de marionetes não está tendo um momento efêmero, ele atingiu uma massa crítica e se sedimentou, amado por audiências adultas que cresceram assistindo a "Vila Sésamo" e "The Muppet Show" e que foram alimentados com produções de fantoches marcantes na Broadway como "O Rei Leão", "Avenida Q" e "Cavalo de Guerra", com seus magníficos corcéis.

Apesar de no teatro – como na ópera ou na dança, onde também tem feito incursões – os fantoches geralmente ganharem um papel de apoio e não o do protagonista, eles hoje têm uma presença muito maior do que antigamente.

"A infiltração é bem-vinda", afirma o manipulador de marionetes Blair Thomas, fundador e diretor artístico do festival, que fez um fantoche de cachorro para o personagem de Patti LuPone no musical da Broadway "War Paint" quando a peça chegou a Chicago no ano passado. "As portas foram abertas."

E os fantoches estão marchando por ela.

– Em Dia com o que Acontece no Mundo

É possível perceber a mudança no New York Times, já que as menções de peças com marionetes se tornaram comuns entre as críticas de teatro. No entanto, Nova York é a capital dos fantoches do país, onde diretores inovadores como Lee Breuer e Julie Taymor passaram décadas explorando essa arte híbrida – parte visual e parte interpretação – para criar mundos fantásticos bastante influenciados pelas tradições estrangeiras.

As melhores apresentações que vi em um fim de semana no festival de Chicago vieram de outros países. Uma delas foi "Cendres" ("Cinzas"), da diretora norueguesa Yngvild Aspeli, uma peça assombrada e fascinante sobre incêndios e tormento interno, cheia de fantoches do tamanho de pessoas e prédios em miniatura em chamas, da companhia franco-norueguesa Plexus Polaire.

Outra foi "Chiflón, El Silencio del Carbón", do coletivo chileno Silencio Blanco, cujos artistas manipulavam fantoches de sublime aparência grosseira com uma precisão tênue para contar a estória sem palavras de uma mina de carvão, passada parcialmente debaixo da terra. Essa produção será apresentada em uma turnê nos Estados Unidos até o começo de março.

Mas a abundância de marionetes nacionais em "Mr. e Mrs. Pennyworth", peça neo-vitoriana de Doug Hara, da Lookingglass Theater Company, ficou à altura das estrangeiras – como os títeres de sombra do jovem coletivo Manual Cinema, de Chicago, que levou o público ao delírio em suas recentes incursões em Nova York, e a coleção de lindos animais (um porco fofo, um lobo desgrenhado e um javali imenso) de Thomas, que os construiu em seu celeiro em Wisconsin.

Expor os artistas de Chicago aos trabalhos internacionais é parte do objetivo do festival. Thomas, de 54 anos, pretende preencher parte do vazio deixado pelo Festival Internacional de Teatro de Marionetes de Henson, que aconteceu entre 1992 e 2000, e pelo Festival Internacional de Teatro de Chicago, que no final dos anos 1980 incendiou o seu amor pelos títeres com a visita de uma companhia de Barcelona. Aquele evento mudou Chicago, afirma Thomas, ao mostrar aos artistas e às audiências que o padrão estava em outro lugar.

Ele lamenta a vantagem que os artistas europeus que lidam com fantoches têm simplesmente pelas oportunidades de suas produções serem apresentadas. Mas Cheryl Henson – filha do criador dos Muppets, Jim Henson, e presidente da Fundação Jim Henson, uma força importante no teatro de marionetes contemporâneo – acredita que os manipuladores de títeres dos Estados Unidos já alcançaram os padrões europeus do ofício.

– Apenas Marionetes

Na noite anterior ao meu voo para Chicago, fui ao "Made in China", de Wakka Wakka, no 59E59 Theaters. É um show de fantoches focado nos adultos (há nudez de títeres quase que imediatamente), mas fiquei surpreso ao observar a multidão. Quase todo mundo era de meia-idade ou mais, o que é normal para um teatro de Manhattan, mas ainda assim surpreendente para uma produção apenas de marionetes: sem atores, apenas fantoches e seus manipuladores.

Ter apenas títeres é o ideal para as pessoas no mundo desse tipo de teatro. Essa é uma questão de honra em qualquer argumento sobre a ascensão dessa forma de arte porque, apesar dos muitos ganhos em outras disciplinas, os fantoches raramente são o foco da apresentação. Uma exceção no horizonte: "Top Puppet", um reality show de competição que a NBC recentemente encomendou à Jim Henson Co. e ao produtor do "The Voice".

Cheryl Henson afirmou, no entanto, que mais artistas estão trabalhando com isso hoje em dia e que, graças à "Avenida Q" e a "Cavalo de Guerra", vários atores ganharam experiência como manipuladores de fantoches. (Ela também disse que as melhores cidades para teatros de títeres nos Estados Unidos, depois de Nova York são Atlanta, Chicago e Minneapolis.)

No ano passado, quando a Fundação Henson aumentou o valor de suas bolsas, as inscrições subiram cerca de 80 por cento. Enquanto isso, disse ela, os artistas que usam fantoches têm hoje mais chance de conseguir apoio financeiro de fundos de artes em geral e de ser incluídos em festivais comuns do que antes.

Tudo isso mostra que há mais respeito e uma infraestrutura mais robusta, como se vê na bolsa da MacArthur Fellowship de 2015 dada para o artista de marionetes Basil Twist – que, segundo Cheryl, "está fazendo os Oompa-Loompas", na produção de primavera da Broadway de "A Fantástica Fábrica de Chocolates".

– Além da Periferia

De volta a Nova York, liguei para Twist, que administra o programa Dream Music Puppetry, onde ¿Chiflón¿ será apresentada. Ele vê a proeminência das marionetes no teatro hoje como algo temporário.

Mas reconhece o "efeito cumulativo" de "O Rei Leão", "Avenida Q", "Cavalo de Guerra" e do festival de Henson na formação da percepção do público – persuadindo os adultos que títeres não são apenas coisa de criança.

Twist, de 47 anos, falou de sua preferência por teatro de marionetes puro – uma incompatibilidade, ele sabe, com muitas de suas incursões colaborativas no teatro e na dança. Então, ele me falou de uma exibição que eu deveria ver, "The Theater of Robert Anton", em uma galeria do Upper East Side chamada Broadway 1602.

Quando cheguei lá, encontrei Twist, que alegremente me mostrou tudo, contando-me de Anton, um artista de marionetes avant-garde que morreu em 1984. Os fantoches de Anton, alguns dos quais Twist emprestou à mostra, são objetos pequenos com faces minuciosamente detalhadas – um deles evidentemente teve como modelo Ellen Stwart, a fundadora do La MaMa, onde Anton apresentou a maior parte de seu trabalho.

Anton mostrava suas peças para não mais de 18 pessoas por vez e não permitia que fossem filmadas ou fotografadas. Sua arte era a pureza da pureza, e há algo de sagrado e de belo a respeito dela. Mas também, em seu hermetismo, um pouco de tristeza.

Na época de Anton, nos Estados Unidos, as peças de fantoche para os adultos não estavam à margem por vontade própria. Não havia muito espaço para elas no centro do palco.

"As marionetes são uma forma de arte mais desfavorecida. Sempre existimos na periferia da cultura dominante. De certa maneira, essa é a nossa força", disse Thomas.

Será mesmo? Nem tudo precisa ser arte popular. Nem tudo pode ser. Mas as marionetes sofisticadas parecem estar se movendo rapidamente nessa direção. Até agora, ganhando força no caminho.

Por Laura Collins Hughes


 
 
 
 
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