The New York Times

Velhos inimigos se tornam vizinhos após acordo de paz na Colômbia

Por: The New York Times
14/02/2017 - 20h31min | Atualizada em 14/02/2017 - 20h48min

La Paz, Colômbia – O nome da cidade significa "a paz" em espanhol. Mas os próximos dias vão mostrar até que ponto ele está correto.

Depois de meio século de guerra, os rebeldes colombianos estão começando a se desarmar, se preparando para entrar para a vida civil conforme o acordo de paz assinado em 2016. Nessa cidade montanhosa, 80 ex-guerrilheiros estão chegando para ficar, como em muitas outras cidades do país.

Os uniformes foram substituídos pelas mesmas roupas usadas por aqueles que vivem nas cidades, e que agora observam temerosos. As barracas e postos de observação feitos de madeira também estão sendo desfeitos, substituídos por uma pequena biblioteca, um centro comunitário e uma loja – uma miniatura de cidade a poucos metros da floresta.

"Passamos 52 anos dormindo em redes. Chegou a hora de vivermos em casinhas", afirmou o comandante dos guerrilheiros, que ainda usa seu nome de guerra, Aldemar Altamiranda.

Em todo o país, acredita-se que cerca de sete mil rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, entregarão suas armas para monitores da ONU ainda este ano. As armas serão derretidas e transformadas em monumentos de guerra. As FARC também esperam se transformar em um grupo político que represente a esquerda, como os que surgiram após o fim das guerras de guerrilha na Nicarágua e em El Salvador.

O assentamento em La Paz, conhecido como Tierra Grata, está na vanguarda das iniciativas para concretizar o disputado acordo de paz da Colômbia. O acordo foi negado em plebiscito popular no ano passado, mas foi imposto através do congresso pelo presidente Juan Manuel Santos, que venceu o Prêmio Nobel da Paz por buscar o fim de décadas de conflito.

Contudo, a decisão do presidente de firmar o acordo a despeito do desejo dos eleitores – e simplesmente ignorar o resultado de uma votação – foi mal vista por muitos colombianos, trazendo incerteza para o futuro do acordo, caso os oponentes de Santos vençam as eleições do ano que vem.

La Paz é uma clara evidência da persistência da cisão política do país: embora o referendo tenha sido apoiado na cidade, quatro em cada 10 habitantes ainda votou contra o acordo de paz. Muitos ainda têm memórias dolorosas da guerra – e de um inimigo que durante muitos anos esteve à espreita, mas que do dia para a noite passou a viver na mesma cidade.

"Muita gente tem capacidade de perdoar, mas não dá para esquecer a violência em que vivemos por todos esses anos", afirmou Julio Fuentes, de 42 anos, um médico que afirma ter votado contra o acordo. Fuentes, cujo irmão foi morto no fim dos anos 1990, disse que fez as pazes com a guerrilha.

Contudo, ele alerta que, para muitas pessoas, "essa será uma escolha individual".

As únicas pessoas armadas aqui são os rebeldes. O perímetro é guardado pelo exército colombiano, que está se ajustando a seu novo papel: proteger os guerrilheiros, ao invés de lutar contra eles.

Um contingente da ONU também está na região, encarregado de coletar as armas dos rebeldes antes de irem embora de vez.

O assentamento se tornou um local de reflexão. Sem a sombra da guerra, os rebeldes passam os dias pensando em que vida irão escolher de agora em diante. Eles voltarão aos vilarejos de onde foram embora e trabalhar a terra? Ou vão entrar para o novo partido político que os líderes rebeldes prometeram criar?

"Muitas pessoas veem a forma como a política é feita no país, com gravatas chiques e carros caros, e acreditam que não podem fazer igual", afirmou Yimmy Ríos, de 47 anos, agente de inteligência rebelde que agora vive no assentamento. Ele acredita que será um desafio para os guerrilheiros que decidirem entrar gradualmente e fazer campanha em um cenário político para o qual não foram preparados.

Os primeiros eleitores que precisam conquistar é a comunidade de La Paz, que por enquanto está profundamente desconfiada.

A cidade, que fica na base da Sierra de Perijá, uma cordilheira elevada que serviu durante muito tempo como reduto para os guerrilheiros, foi atacada durante anos pelas FARC e seus inimigos paramilitares. Em 1997, o prefeito foi morto por homens armados em seu escritório, representando uma das incontáveis mortes que os moradores atribuem às guerrilhas.

Esse passado problemático estava na cabeça de Alcides Daza Quintero, o vice-prefeito de 27 anos, quando ele ligou a TV em agosto do ano passado e viu Santos anunciando o acordo de paz diretamente do palácio presidencial. Com o anúncio veio a surpresa: o governo disse que ele e as FARC haviam escolhido La Paz como uma das zonas onde iriam iniciar o desarmamento.

"Foi como um soco", disse Quintero, afirmando que a cidade não foi consultada por nenhum dos lados. "Receber um grupo vindo das margens da lei dessa maneira. Ficamos chocados com isso".

O resto da cidade também está profundamente ambivalente. Alguns protestaram em frente à prefeitura. Outros, como Juan Martinez, líder comunitário do vilarejo de San José del Oriente, argumentou que a presença dos rebeldes seria positiva, trazendo a atenção do estado ao vilarejo, que só recebe água duas horas por dia.

"Esses acordos trouxeram muitas promessas", afirmou. "É possível dizer que a reconciliação já está começando".

As FARC prosseguiram, descendo das montanhas e se organizando em um terreno não muito longe de La Paz. Mas lá, foram friamente recebidos: membros da tribo Yukpa, grupo indígena seminômade que usava o terreno, afirmou que os rebeldes não eram bem vindos e precisariam procurar outro lugar para viver em breve.

Contudo o resultado negativo do referendo surpreendeu os rebeldes em outubro.

"Estávamos todos colados ao rádio, ouvindo os resultados; então ouvimos os comandantes dizendo o que iríamos fazer em seguida", afirmou um combatente de 25 anos vindo da cidade de Barranquilla, que se identifica como José. Assim como outros, ele escondeu o nome completo com medo de represálias.

Os principais comandantes das FARC vieram a público para acalmar as pessoas, apesar de o acordo não ter sido firmado, eles estavam abertos à renegociação e não iriam voltar a lutar. Além disso, Altamiranda, o comandante de La Paz, decidiu que era hora de se reunir com o público cético.

Durante uma noite no fim de outubro, centenas de pessoas se reuniram no parque municipal, enquanto líderes religiosos, políticos e líderes guerrilheiros discutiam os termos do acordo. As vítimas tomaram o microfone para falar sobre seus entes queridos que foram mortos durante a guerra. Altamiranda pediu perdão pelos crimes cometidos pelas guerrilhas.

O evento mexeu com líderes como Sol Marina Torres, de 39 anos, integrante do Centro Democrático, o partido de direita que liderou a campanha contra o acordo e continua se esforçando para impedir que ele se concretize. Torres decidiu ir contra os líderes do partido e apoiar a presença dos guerrilheiros na cidade, afirmando que a única escolha era fazer as pazes.

"Não posso concordar com tudo o que o partido diz. Não posso dar as costas ao bem-estar da minha comunidade", afirmou Torres.

No campo nos arredores de La Paz, alguns aspectos da vida na guerrilha permanecem inabalados. Os combatentes ainda acordam às 4h30 da manhã, mas agora assistem aulas sobre o acordo de paz, ao invés de marcharem. Um guerrilheiro patrulha o campo atentamente, com uma arma pendurada no ombro.

Outras cenas já mudaram. Na entrada do campo, uma jovem guerrilheira abraçava os parentes. A família estava em lágrimas.

Boa parte dos combatentes questionados afirmou que planeja permanecer com as FARC, que para eles agora é sua família, seguindo em direção à formação política que a organização assumir nos próximos anos.

"Não havia qualquer opção no lugar de onde vim", afirmou Yackeline, de 32 anos, guerrilheira que fugiu para um campo quando tinha apenas 13 anos, porque esse era o único lugar onde ela poderia estudar.

Por Nicholas Casey

 
 
 
 
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