The New York Times

À caça do Boko Haram, o Exército da Nigéria é acusado de massacrar civis

Por: The New York Times
16/03/2017 - 13h59min | Atualizada em 16/03/2017 - 13h59min

Maiduguri, Nigéria – Foi um carrinho de mão que lhe salvou a vida.

Deitado sobre ele, Babagana sentiu cada sacolejo, gemendo de dor por causa dos quatro ferimentos a bala. Coberto de sangue dele, a esposa, grávida, ajudou a transportá-lo pelo interior da Nigéria até um hospital.

Não se sabe como, o jovem sobreviveu à ambulância improvisada. E conta que mais de 80 homens do vilarejo onde mora foram mortos a tiros, todos forçados primeiro a tirar a camisa e deitar no chão de bruços. A seguir, os atiradores incendiaram a pequena aldeia agrícola antes de fugir.

O ataque se encaixa no padrão das atrocidades cometidas pelo Boko Haram, grupo terrorista que extermina os pobres desta região há anos, mas Babagana e várias testemunhas da violência, ocorrida em junho, e de outro atentado, dias antes, em um vilarejo vizinho, garantem que, dessa vez, os radicais não foram os responsáveis.

Afirmam que os massacres foram perpetrados por militares nigerianos.

"Os soldados, que estavam de uniforme, disseram que estavam ali para ajudar a gente e, aos gritos, pediram para o pessoal apontar quem era membro do Boko Haram. Quando perceberam que não tinha nenhum, aí começaram a atirar a esmo", conta Falmata, 20 anos, repetindo o que vários outros moradores disseram.

De uns meses para cá, o exército nigeriano fez grandes progressos na guerra contra o Boko Haram, organização militante islamita que aterroriza o nordeste do país.

Acontece que as operações agressivas que realiza para acabar com os guerrilheiros que resistem não afetam só os membros do grupo; testemunhas acusam os soldados de matar também civis desarmados.

Relatos de massacres começaram a surgir agora que os moradores das áreas anteriormente isoladas pela facção têm liberdade para fazer denúncias.

Na verdade, as forças de segurança da Nigéria há tempos têm um histórico de abuso dos direitos humanos. Em 2013, queimaram casas e abriram fogo no vilarejo de Baga, matando por volta de 200 pessoas, de acordo com os sobreviventes. Os civis reclamam há anos das detenções arbitrárias, tortura e morte promovidas pelos soldados. Preocupado com tais abusos, o governo dos EUA suspendeu a venda de helicópteros de ataque ao Exército nigeriano.

O presidente Muhammadu Buhari, ex-general eleito por causa das promessas de derrotar o Boko Haram e acabar com a corrupção, jurou esclarecer e acabar com os abusos.

"Agimos de acordo com as regras e somos guiados pela transparência das operações", afirma o Brigadeiro Rabe Abubakar, diretor de Informações de Defesa das Forças Armadas locais. E negou que a instituição fosse responsável pelos massacres, garantindo que a responsabilidade foi dos insurgentes, de "elementos criminosos" ou membros de algum culto.

Muitos observadores dão crédito ao presidente por implantar e levar adiante a campanha contra o Boko Haram e por tomar medidas para a profissionalização das tropas.

Os homens são enviados para as florestas que há muito escondem os membros do Boko Haram. Novos vilarejos vêm sendo libertos e as estradas, reabertas. O Exército garante ter enfraquecido a milícia e, com isso, permitiu que mais de dois milhões de desalojados pela violêncai no país pudessem voltar para casa.

Em algumas áreas, os soldados tratam os doentes, que também recebem ajuda alimentar e têm os poços recuperados. Aqui no estado de Borno, epicentro da luta contra o Boko Haram, um comandante conseguiu até um projetor para realizar uma sessão de cinema em um acampamento de desalojados, exibindo desenhos do Tom e Jerry e filmes dublados nos dois idiomas locais.

Entretanto, as acusações de abuso continuam. Soldados detiveram adolescentes e crianças durante várias semanas, depois que suas famílias fugiram ou foram libertas do território controlado pelo Boko Haram. Centros de detenção enormes foram montados para manter as famílias até que se pudesse identificar e eliminar os simpatizantes da facção. Em janeiro, o exército nigeriano bombardeou, por engano, um acampamento de desalojados, matando pelo menos 90 pessoas.

O pessoal da ONU que trabalha com ajuda humanitária já tinha ouvido reclamações repetidas de que os militares estavam evacuando vilarejos inteiros para queimá-los em seguida. Em um sobrevoo de helicóptero pela área, os restos enegrecidos das aldeias ainda eram bem visíveis.

Os moradores confirmam que o Boko Haram recrutou gente das minúsculas vilas da região. E que os militantes frequentam os mercados para comprar combustível e carne. Em meados de 2016, soldados mataram três membros da organização em Marte e capturaram mais onze, recuperando granadas de mão e armas.

De acordo com relatos das testemunhas, poucos dias antes do massacre de junho, soldados e milicianos locais cercaram a vila de Ngubdori, pequena comunidade agrícola da área, e reuniram todos os moradores, inclusive os que trabalhavam nas plantações.

Os homens foram forçados a tirar a camisa, talvez para revelar alguma arma escondida. Ficaram seminus diante dos militares, segundo Mallam, 25 anos, que obedeceu ao que lhe mandaram fazer.

"Identifiquem os membros do Boko Haram entre vocês", exigiram os soldados. Os moradores retrucaram , explicando que ninguém ali era insurgente.

"Dissemos também que éramos atacados pelo grupo de vez em quando, mas não tínhamos para onde ir. Nossas plantações estavam ali e ainda não tínhamos colhido nada. Os animais estavam ali", prossegue Mallam que, como muitas outras testemunhas, se recusou a dar o sobrenome, com medo de represálias.

A certa altura, dois homens saíram de suas casas. Os soldados atiraram em ambos. Outros sete fizeram o mesmo e também foram alvejados.

"Vimos muitos serem mortos dessa forma", completa o rapaz.

Foi aí que eles viraram as armas para o grupo, abatendo mais treze homens. Pegaram um recipiente com combustível, encharcaram meia dúzia de trapos e incendiaram as cabanas de sapé antes de partirem.

"Tivemos que separar os cadáveres e os que ainda estava vivos. Ficamos cobertos de sangue", relembra Zainaba, 42 anos, informando também que perdeu seis parentes nesse dia.

Quatro dias depois, um míssil caiu em Alamderi, povoado vizinho, anunciando a chegada dos soldados.

"Foi o primeiro sinal dos problemas que estavam por vir", diz Babagana.

Ele e um representante da comunidade estavam na periferia quando ouviram o míssil, seguido do espocar de tiros. Os dois retornaram com as mãos para cima. "Para mostrar nossa lealdade", explica.

Só que quando chegaram, os militares já estavam queimando as casas. Todos os moradores estavam com as mãos para o alto.

"'Abaixem as mãos. Estamos aqui para identificar quem faz parte do Boko Haram', foi o que disseram", prossegue Babagana.

A seguir, reuniram as mulheres e crianças de um lado e mandaram não olhar para trás.

"'Vou mostrar para vocês quem é Boko Haram', disse um dos homens, antes de pegar alguns homens no meio do povo e matá-los a tiros. E continuou insistindo na pergunta. Queria saber quem fazia parte do grupo."

Os moradores começaram a implorar, mas os soldados mandaram todo mundo deitar de bruços e saíram atirando sistematicamente.

Maryam, 20 anos, conta que saiu correndo e chorando na direção do marido, Babagana. Outros fizeram algumas covas rasas. Os cadáveres, a maioria com marcas de bala na cabeça, foram empilhados, mas Babagana ainda respirava e Maryam o colocou encostado contra a parede.

"Eu não parava de rezar", admite ela. Levou uma hora para Babagana abrir os olhos, mas voltou à inconsciência várias vezes.

Assim que os tiros cessaram, moradores da aldeia vizinha correram para ajudar. Vários se alternaram no transporte de Babagana durante horas até conseguirem convencer o motorista de um veículo a levá-los ao hospital, onde foram confirmados os ferimentos causados por quatro disparos.

"Todo mundo ficou coberto com o sangue dele", relembra Maryam.

O casal e outras testemunhas que entrevistei hoje vivem em um dos acampamentos para desalojados mais pobres de Maiduguri, maior cidade no estado onde o Boko Haram atua.

Por Dionne Searcey

 
 
 
 
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