The New York Times

Desde a posse de Trump, estrada tranquila vira saída movimentada dos EUA

Por: The New York Times
20/03/2017 - 13h44min | Atualizada em 20/03/2017 - 13h44min

Champlain, Nova York – Roxham Road é uma estrada tranquila que sai de outra estrada tranquila no interior, onde cavalos pastam o feno úmido e a neve derretida corre por uma vala ao longo das vias lamacentas. Ela corta um bosque, passando por alguns trailers que servem de moradia e, depois de mais de um quilômetro, chega a uma fila de rochas e uma grade enferrujada com a placa: Estrada Fechada.

Chris Crowningshiele é motorista de táxi há 30 anos nessa área rural do estado de Nova York, conhecida como North Country. Ele mora mais ao sul, em Plattsburgh, e sua renda normalmente vem do transporte de alunos de uma universidade estadual da região ou de compradores do Wal-Mart que pegam sua minivan cinza; recentemente, porém, os passageiros lhe pedem – duas, três, às vezes até sete vezes por dia – para levá-los até o fim da Roxham Road.

Ele os transporta na última etapa de sua viagem para deixar os Estados Unidos. Isso porque logo depois da placa, fica o Canadá. Funcionários da fronteira e da ajuda humanitária de lá dizem que houve um aumento no número de pessoas entrando ilegalmente no país nos últimos meses, desde que o presidente Donald Trump foi eleito, muitos deles nativos de nações muçulmanas em busca de asilo. Roxham Road, que desvia de um grande posto de fronteira na rodovia I 87, tornou-se um dos pontos de entrada ilegais mais movimentados.

Crowningshiele pega os passageiros em Plattsburgh, principalmente no aeroporto ou estação de ônibus, e dirige 40 quilômetros rumo ao norte. Eles lhe contam que atravessaram todo o país. Alguns eram migrantes saídos do Iêmen e da Turquia. Confessam ter medo do que acontecia nos países que deixaram para trás – não só na terra natal, mas agora também nos Estados Unidos – e do que precisarão enfrentar depois de sair de seu táxi.

"Você fica pensando no que passa pela cabeça deles, sabe?", contou. Muitos passageiros eram famílias inteiras, com os pais carregando os filhos e todas as posses que conseguiam trazer consigo.

"As pessoas só querem viver sem medo", disse Crowningshiele, de 48 anos.

Dada a sua proximidade com o Canadá, a população daqui sempre teve alguma consciência do mundo além da fronteira. Uma estação de música pop em Montreal pega muito bem no rádio local, e não é raro dar um pulo do outro lado para fazer compras. Mas o fluxo constante de táxis subindo a Roxham Road fez todos pensarem na vida na fronteira e nas decisões tomadas em Washington de uma forma que nunca havia acontecido antes.

Esta não é exatamente uma área de eleitores de Trump. A região, que inclui Champlain, pende para Hillary Clinton, que obteve 610 votos a mais que Trump. Muitos moradores de Roxham Road disseram que nem chegaram a votar e seguiam a política apenas o suficiente para se sentir desencantados, para não dizer enojados.

"Eu nem dava bola. Não ligava para política até que a estrada ficou famosa", disse Melissa Beshaw, cuja casa é a penúltima antes da fronteira.

Ela, como outros, foi rápida ao atribuir a culpa a Trump. Defensores da imigração no Canadá disseram que as razões para a fuga eram mais complicadas: o decreto do presidente sobre a imigração em janeiro, atingindo países de maioria muçulmana, foi certamente um fator, mas também a frustração com o processo de imigração em geral e a preocupação com a retórica antimuçulmana.

Os migrantes chegam a lugares como Roxham Road não porque querem passar secretamente pela fronteira; a expectativa é cair nos braços das autoridades canadenses. Um acordo entre os dois países torna virtualmente impossível para eles pedir asilo em um posto de controle legal, ou seja, os agente teriam que mandá-los de volta – mas um detalhe técnico lhes permite contornar o problema ao entrar ilegalmente.

"Quando são presos, já estão em solo canadense. Por isso, temos que deixá-los fazer o pedido de asilo", disse Jean-Sébastien Boudreault, presidente da Associação dos Advogados de Imigração de Quebec.

Em uma tarde recente, logo depois que a chuva suave parou, um Prius azul com um sinal de táxi amarelo preso na capota se aproximou da fronteira.

Um casal saiu do carro. Ele carregava uma mochila, um saco de lona e vários sacos plásticos; ela levava um menino. O casal preferiu não falar com o repórter, mas o homem disse que eram turcos. A família foi a segunda flagrada chegando naquele dia pela Roxham Road, com pelo menos dois outros táxis vindo mais tarde. De acordo com as pessoas que vivem na estrada, o dia estava calmo. Quase 20 outras haviam chegado no dia anterior.

Quando a família se aproximou da fronteira, um membro da Real Polícia Montada Canadense informou que era ilegal entrar por ali. Se continuassem, seriam presos.

"Desculpe, mas tenho que desobedecer suas regras", respondeu o homem com a voz insegura.

Fez uma pausa.

"Desculpe."

O casal pulou um riacho estreito e turvo que divide os dois países. Um oficial canadense agarrou suavemente o braço esquerdo da mulher enquanto ela segurava o filho no braço direito, ajudando-a a se levantar.

Advogados dizem que famílias como essa geralmente são levadas para escritórios de imigração do posto de fronteira mais próximo, onde podem oficialmente pedir asilo. Ainda segundo os advogados, se possuírem identificação e não parecerem constituir uma ameaça à segurança, normalmente são liberadas e recebem passagens de ônibus para Montreal, onde esperam pela audiência que decidirá sobre seu estatuto de refugiado. Muitas ficam em uma ACM da cidade.

As chegadas ao Canadá, apesar de carregadas de emoção, acontecem rapidamente e podem parecer quase como uma formalidade, ocorrendo cada vez mais todos os dias nas últimas semanas.

Tony George Hogle vive na Roxham Road há quase 25 anos, tendo chegado aqui quando ela ainda era uma faixa de terra. Ele disse que há anos a estrada é uma entrada oficial. De fato, notou o recente aumento do trânsito. Viu pessoas sendo deixadas no cruzamento, forçadas a arrastar as malas por mais de um quilômetro pela neve. Sua apneia do sono o mantém acordado, por isso viu os táxis cruzando a estrada na calada da noite.

Hogle, de 54 anos, não votou em novembro e disse que "desconfia" de Trump.

Ele entende a motivação do presidente em sua política de imigração, mas a situação em sua própria porta faz com que questione "o modo com que tudo foi feito".

"Entendo seu ponto de vista. Ele está tentando proteger os Estados Unidos. É difícil. Alguns são bons; nem todo mundo é mau. O mesmo vale para os brancos, existem os bons e os maus. Deve haver algo melhor que isso", disse ele.

Do outro lado da rua, Matthew Turner disse que o influxo é inquietante.

"Eu costumava caçar ao longo da fronteira e há muitos lugares por onde é fácil atravessar", disse Parker Cashman, que estava hospedado na casa de Turner.

Melissa Beshaw, que fica em casa para cuidar de dois netos, disse que nunca havia tido uma conversa ou mesmo trocado uma única palavra com os migrantes, mas observa os táxis chegando a todo instante e vê os passageiros, especialmente as crianças, sair e andar pela chuva, pela neve e pelo frio extremo.

"Não sinto muita pena dos adultos; é mais das crianças", disse. Mesmo assim, ela entende sua motivação. "Eles só querem uma vida como a nossa."

Por Rick Rojas

 
 
 
 
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