Fisgados pelo paladar

Oliveiras atraem investidores de outros Estados e estrangeiros

Clima propício para plantio e qualidade do óleo extravirgem tornam o Rio Grande do Sul um polo nacional da produção de azeite de oliva

18/03/2017 - 09h00min | Atualizada em 18/03/2017 - 09h00min

Acostumado a exportar produtores rurais para rincões distantes, o Rio Grande do Sul vem experimentando o caminho inverso ao receber investidores de fora atraídos pelo potencial do cultivo de oliveiras. Com clima propício para a cultura, temperaturas baixas no inverno e estações definidas, o Estado está se tornando um polo nacional na produção de azeite de oliva — despertando o interesse de empresários brasileiros e até de grupos internacionais.

Agrônomo Fernando Rotondo (ao centro), mobilizou produtores, como o grego Galanos (à esq.)  Foto: Duda Pinto / Especial

Diretor de uma grande empresa de agroquímicos até 2008, o agrônomo peruano Fernando Rotondo conheceu a Fronteira Oeste ainda quando representava uma multinacional. Logo que deixou o cargo, decidiu apostar nas oliveiras em uma região do Estado até então dominada pela pecuária de corte.

— Eu era um extraterrestre aqui, me chamavam de aventureiro — lembra Rotondo, 66 anos, que forneceu mudas para os primeiros produtores da Fronteira Oeste.

Hoje, o peruano cultiva 30 hectares próprios em Santana do Livramento, ao lado da mulher paulista Sibele Mantovani Rotondo, e há três anos presta assessoria técnica em outros 170 hectares cultivados no município e também em Alegrete, Dom Pedrito e Candiota. Rotondo reuniu um grupo de 10 produtores, empresários e profissionais liberais interessados no negócio para fomentar a produção na região. Um deles é o grego radicado no Brasil Konstantinos Galanos. Empresário do ramo da construção civil, Galanos cultiva 10 hectares em Santana do Livramento.

— Saí da Grécia aos 18 anos, quando ajudava a minha família a catar olivas — lembra com nostalgia o empresário.

A produção de Galanos e dos outros investidores será beneficiada pelo peruano Rotondo, que instalou um lagar (local onde se espremem as olivas e retira-se o líquido do fruto) na propriedade, com equipamentos importados da Itália. O agrônomo é proprietário da OlivoPampa, que produz a Ouro de Sant'Ana, marca de azeite de oliva e de azeitonas de mesa.

— Temos uma máquina relativamente pequena, que permite o esmagamento das azeitonas logo após a colheita, garantindo um azeite fresco para o consumo — conta Rotondo, especializado em olivicultura na Espanha.

Europeus de olho no azeite gaúcho

Recentemente, o peruano recebeu a visita de um executivo do grupo português Andorinha, uma das maiores indústrias de óleos extravirgem do mundo.

— As oliveiras cultivadas em solo gaúcho estão chamando a atenção de empresas multinacionais — confirma o peruano, que deverá colher 70 toneladas de azeitonas nos 30 hectares próprios.

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No mês passado, um belga e um português estiveram em Bagé olhando áreas para investir, conta Paulo Lipp, coordenador da Câmara Setorial das Oliveiras da Secretaria da Agricultura. Além do clima propício para o cultivo, o interesse no Estado é explicado pelo preço da terra — bem inferior às médias europeias. Enquanto um hectare aqui custa em torno de US$ 3 mil, na Europa pode passar de US$ 50 mil.

— Sem contar que é uma atividade de baixo impacto ambiental, o que a torna ainda mais atrativa — completa Lipp.

Além das condições climáticas e disponibilidade de terras, a topografia plana da Metade Sul do Estado é propícia para a mecanização.

— Diferentemente da Serra da Mantiqueira, onde se produz oliveiras apenas de forma manual, aqui é possível mecanizar as atividades, o que aumenta a possibilidade de expansão — explica Antônio Conte, coordenador de fruticultura da Emater.

O interesse deve ficar ainda maior quando a legislação brasileira para compra de terras por estrangeiros for flexibilizada, o que poderá ocorrer ainda neste ano. 

Mercado brasileiro empolga empresários

Não são apenas as características geográficas do Rio Grande do Sul que atraem investidores de fora para cá. O mercado brasileiro, segundo maior importador de azeite extravirgem e de azeitonas do mundo, também empolga empresários. E não é para menos. Hoje, 98% do azeite de oliva consumido no país é importado, com as marcas nacionais representando apenas 2% da oferta.

— Enquanto o azeite produzido na Europa leva seis meses até chegar ao Brasil, o nosso tem um frescor de uma fruta colhida e engarrafada para o consumo em apenas uma semana — compara o empresário paulista Luiz Eduardo Batalha, que produz 450 hectares de oliveiras em Pinheiro Machado, no sul do Estado.

Maior produtor individual do Brasil, Batalha começou a investir nos olivais em 2010, quando plantou 35 hectares no município, onde cria gado angus há mais tempo. De lá para cá, aumentou em mais de 10 vezes a área dos pomares — estimulado pela mesma visão de empreendedor que o fez trazer a rede Burger King ao Brasil, ainda em 2004.

— Temos um produto de qualidade, premiado em concursos internacionais, e uma oportunidade comercial única — resume Batalha, 70 anos.

Galvão Bueno foi estimulado a investir pelo empresário Luiz Eduardo Batalha (à dir.) Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Estimulado pelo empresário paulista, o narrador esportivo da Rede Globo Galvão Bueno começou a investir em oliveiras no Rio Grande do Sul. Com nove hectares cultivados em Candiota, na Campanha, onde tem também produção de uvas finas, Galvão colheu neste ano a primeira safra de azeitonas. No último sábado, o narrador acompanhou a extração do óleo na propriedade de Batalha, que está colhendo a segunda safra comercial neste ano. A boa produtividade, de 37 quilos de azeitonas por árvore, é atribuída, entre outros fatores, ao consórcio com a ovinocultura.

— Os animais dão conta de comer as gramíneas e adubar o solo, evitando sua compactação com tratores e equipamentos — explica Batalha.

Profissionais liberais apostam na cultura

Dos pouco mais de 2 mil hectares cultivados com oliveiras no Rio Grande do Sul, dos quais 30% em produção, uma parcela é fruto do interesse de profissionais liberais em uma atividade agrícola de médio prazo e investimento relativamente baixo — se comparado a culturas como soja, milho e arroz. Com poucos hectares, é possível investir em uma produção que dará os primeiros frutos a partir do quarto ano.

Engenheiro carioca foi seduzido pela possibilidade de cultivo no Estado Foto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Nascido no Rio de Janeiro e casado com a advogada gaúcha Adriana Mendes Oliveira, o engenheiro Carlos Moniz de Aragão, 59 anos, morava na Colômbia até o ano passado. Decidido a voltar ao Brasil, o casal foi seduzido pela possibilidade de plantar oliveiras no Rio Grande do Sul.

— Provavelmente se não fossem as olivas estaríamos morando em outro Estado — conta Aragão, que atua também em consultoria de projetos na área de energia.

Em agosto do ano passado, o casal plantou 15 hectares em Barra do Ribeiro, próximo à região metropolitana de Porto Alegre. Outros 15 hectares serão cultivados até o final de maio. A assessoria técnica é feita pela empresa gaúcha Tecnoplanta, com sede no mesmo município e maior fornecedora de mudas de oliveiras do país. A ideia do casal, assim que colher a primeira safra, é ter uma marca própria de óleo extravirgem e de azeitonas de mesa.


Detalhe ZH

— Lançado no dia 15 de março, em São Sepé, durante a abertura oficial da colheita de olivas, o cadastro do setor irá traçar uma radiografia da cultura no Estado.

— A ideia é manter um banco de dados atualizado da produção e extração de óleo extra virgem.

— Para concretizar o levantamento, será utilizado um aplicativo, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e as informações serão autodeclaratórias.

— O modelo é o mesmo utilizado no setor da erva-mate. O recurso está em fase de teste, mas a projeção é de que esteja pronto para uso em abril.

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