The New York Times

Qual é seu tipo de romance?

Por: The New York Times
20/03/2017 - 13h35min | Atualizada em 20/03/2017 - 13h40min

Polina Aronson passou os primeiros 16 anos de sua vida na Rússia. Lá, as pessoas costumavam ver o amor como uma espécie de loucura divina enviada pelos céus. O amor é visto, nas palavras da socióloga Julia Lerner, como "um destino, um ato moral e um valor; ele é irresistível, exige sacrifícios e supõe dor e sofrimento". Os russos avaliam um ao outro por sua capacidade de lidar com as reviravoltas do amor, muitas vezes em nível absurdo.

Contudo, quando estava no ensino médio, Aronson se mudou para os Estados Unidos e se deparou com uma edição da revista Seventeen. E ficou impressionada. Ela percebeu que, nos Estados Unidos, as pessoas costumavam se perguntar se o parceiro preenche suas necessidades. Se você se sente confortável declarando seus direitos no relacionamento. Ou se o parceiro responde às suas expectativas mínimas.

Aronson chegou à conclusão de que estava se mudando do Regime Russo do Destino ao Regime Americano da Escolha.

"A exigência mais importante para a escolha não é a existência de muitas opções, mas a existência de uma pessoa bem informada e no controle de si mesma, consciente de suas necessidades e capaz de agir com base em seus interesses individuais", escreveu ela na revista Aeon.

O Regime da Escolha encoraja um certo pragmatismo mundano. Ele nutre uma leveza emocional, pessoas semi-isoladas. Embora o modelo russo seja irresponsável, o modelo americano envolve muito cálculo e habilidade de jogo. "O maior problema com o Regime da Escolha vem da noção enganosa de que maturidade significa ser completamente autossuficiente. O apego emocional é visto como algo infantil. O desejo de reconhecimento é visto como 'carência'. Intimidade nunca deve desafiar os 'limites pessoais'", afirmou Aronson.

De fato, boa parte da fragmentação social americana vem do individualismo utilitário e distanciado que esse regime representa.

O mercado dos relacionamentos se tornou um mercado de verdade, no qual as pessoas avaliam cuidadosamente umas às outras, a procura de sinais negativos. A ênfase é dada a essa escolha prudente, na busca pela pessoa certa para satisfazer seus desejos. Contudo, à medida que as pessoas "selecionam" pragmaticamente umas às outras, a instituição do casamento entrou em crise. O número de casamentos caiu consideravelmente entre todas as faixas etárias. A maioria dos filhos de mulheres com menos de 30 anos não é fruto de casamentos. A mentalidade da escolha parece autodestrutiva.

Até mesmo as pessoas que já passaram por maus bocados olham para quem parece ter resolvido os relacionamentos para o resto da vida e enxergam uma série de atitudes e pressupostos, que podemos chamar de Regime de Convenções. Uma convenção não é uma escolha, mas um compromisso que muda a vida e todas as outras coisas afetadas por essa promessa.

O Regime de Convenções reconhece o fato de que não escolhemos efetivamente as pessoas com as quais mais nos apegamos da mesma forma que escolhemos uma torradeira na loja. No fluxo da vida, conhecemos alguns indivíduos absolutamente incríveis, geralmente em meio a um redemoinho de circunstâncias complexas. A sensação de ser levado pela corrente é maior do que podemos prever e controlar. Na maior parte do tempo estamos apenas tentando encontrar as respostas corretas para o momento em que estamos inseridos.

Quando duas pessoas se atraem e se comprometem, o redemoinho não acaba; a diferença é que agora temos companhia para a viagem. No Regime das Convenções, fazer a escolha certa é menos importante do que a ação contínua de se dedicar ao relacionamento.

Pessoas nesse tipo de relacionamento tendem a pensar em "nós". O bem do relacionamento vem em primeiro lugar, as necessidades do parceiro vêm em segundo e as próprias, em terceiro. As convenções só funcionam quando cada parceiro, na medida de suas possibilidades, coloca as necessidades do outro acima de suas próprias, com a certeza de que o outro fará a mesma coisa.

A verdade subjacente do Regime de Convenções é o fato de que é preciso deixar de lado as escolhas, se você quiser chegar à terra prometida. As pessoas que vemos em casamentos bem sucedidos e de longa duração abriram o peito para a vulnerabilidade, deixaram de lado o orgulho e aprenderam a confiar profundamente no outro. Essas pessoas encararam de frente os próprios defeitos e tentaram resolvê-los. E também passaram por todos os episódios normais em que fizeram confissões, pediram desculpas, ficaram na defensiva, perdoaram e amaram seus parceiros nos momentos em que o amor parecia improvável.

Só é possível fazer isso quando se adota uma mentalidade segundo a qual o fim do relacionamento não é uma possibilidade fácil, quando há a certeza de que o amor do parceiro não vai acabar e que a única forma de sobreviver à crise é mergulhar ainda mais fundo no relacionamento.

A característica final do Regime de Convenções é que o relacionamento não visa apenas uma satisfação individual, mas tem um objetivo mais amplo. Em muitos casos o mais óbvio é criar um filho. Mas o mais profundo é a busca por transformação. Pessoas que adotam esse tipo de relacionamento tentam amar seus parceiros de forma a despertar neles o amor, esperando que dessa maneira ambos se tornem versões menos egoístas de si mesmo.

O Regime de Convenções se baseia na ideia de que nossa fórmula atual é uma conspiração para tornar as pessoas infelizes. O amor é uma força maior do que o interesse próprio. Nesses casos, o cálculo distanciado é sufocante, pois a felicidade mais profunda só se revela quando você se entrega para essa promessa sagrada.

Por David Brooks

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.