The New York Times

Afegãos vão reconstruir sozinhos um símbolo do país

Por: The New York Times
17/04/2017 - 14h20min | Atualizada em 17/04/2017 - 14h20min

Cabul, Afeganistão – Nada simboliza a destruição e a ruína do Afeganistão e suas quatro décadas de guerra como o Palácio de Darul Aman, um magnífico edifício visível de sua colina por quilômetros.

O palácio foi agredido e marcado por balas de todos os tipos de calibres imagináveis atiradas por várias facções das guerras recentes do país, com a possível exceção dos americanos e de seus aliados, porque já estava tão danificado na época em que chegaram que não foi muito útil como esconderijo.

Ainda assim, como o próprio Afeganistão, o palácio não caiu completamente, seus quatro domos sobre as torres ainda estão no lugar, embora o prédio esteja tão arruinado que tudo parece desafiar a gravidade.

Agora, muito do que foi o Palácio de Darul Aman está escondido por trás de andaimes e do mato, suas treliças em pedaços e as colunas coríntias mutiladas, visíveis apenas em fragmentos. Os grandes letreiros pendurados nos andaimes, em dari e pashtun, dizem: "Podemos Fazer Isso".

É significativo que não haja nenhum letreiro em inglês. Não apenas o Afeganistão está restaurando seu prédio mais emblemático, como também resolveu fazer tudo sozinho. O financiamento é afegão, assim como os arquitetos, os engenheiros, os trabalhadores e até mesmo os assessores técnicos. Além disso, uma porcentagem surpreendente dos profissionais é formada por mulheres, 25 por cento, apesar da inexistência de cotas de gênero impostas por doadores internacionais – inexistentes nesse caso.

O preço também é afegão: US$20 milhões é o orçamento do projeto de quatro anos para reconstruir o palácio de três andares e 32,6 metros de altura. Poucos anos atrás, segundo Omara Khan Masoudi, antigo chefe do Museu Nacional, os Estados Unidos fizeram um estudo de viabilidade que calculava o custo em US$200 milhões para reconstruir o prédio de 150 salas, usando mão de obra estrangeira, e a ideia foi rejeitada por causa do custo absurdamente alto.

Quando o projeto começou em 2016, de acordo com Nilofar Langar, a porta-voz do Ministério de Desenvolvimento Urbano, o primeiro trabalho foi limpar as quase 545 toneladas de detritos do imenso prédio, desde resíduos humanos e animais até balas e cartuchos de artilharia. Uma empresa estrangeira pediu US$1 milhão para fazer a limpeza inicial; uma equipe de trabalhadores afegãos, liderada por mulheres contratadas pelo ministério, resolveu a questão por US$30 mil, conta Langar. "Economizamos US$970 mil."

O presidente Ashraf Ghani defendeu o projeto como um exercício de orgulho nacional e visitou três vezes o local para checar o progresso da obra. Ele recusou expressamente qualquer ajudar internacional – embora alguns doadores possam dizer que, como são eles que garantem a maior parte do orçamento do Afeganistão, no final o dinheiro seria internacional de qualquer maneira.

A ideia de restaurar o palácio tem sido uma das iniciativas mais populares de Ghani. Em um governo de coalizão frágil, que levou dois anos para concordar no nome do ministro da defesa, o projeto do Darul Aman teve um apoio multipartidário incomum.

"Estou muito feliz de ver que o presidente prestou atenção à reconstrução desse palácio Essa é uma atitude importante. A imprensa diz que este país é a terra do terrorismo, da Al-Qaeda e do Talibã. Isso é uma coisa diferente", afirma Masoudi.

O objetivo é conseguir reconstruir o prédio para o centenário da independência do Afeganistão da Grã-Bretanha, ocorrida em 1919. O Palácio Darul Aman é muito mais do que uma edificação arruinada, o resultado de suas quatro últimas décadas de abandono: ele representa a destruição de quase nove décadas de história afegã.

Na verdade, o local nunca serviu como palácio para qualquer rei ou chefe de Estado. O rei Amanullah, que ordenou sua construção, foi deposto antes que a obra ficasse pronta, por uma revolta liderada por mulás conservadores contra as leis modernizadoras de 1929. (O rei havia introduzido no país escolas para meninas e desencorajado o uso de burcas, entre outras medidas que não se repetiram no meio século seguinte.)

Projetado por arquitetos franceses e alemães, misturando estilos neoclássicos europeus com influência mughal e oriental, o palácio não era apenas possivelmente a maior construção do país, mas também um dos primeiros a ter aquecimento central e água encanada.

Nos anos seguintes, foi de tudo menos o que havia sido construído para ser, funcionando como escola de Medicina para a Universidade de Cabul, armazém de passas, sede de vários ministérios e finalmente do Ministério da Defesa.

Ele pegou fogo e foi reconstruído pelo rei Mohammad Zahir Shah nos anos 1960. Durante a guerra civil dos anos 1980 e 1990, tornou-se a base de várias facções mujahedin, queimou de novo pelas mãos dos integrantes do Talibã, depois se tornou um acampamento de refugiados e de nômades (com as cabras vivendo no grandioso Salão Oval). Na última década, foi o quartel-general do Exército Nacional Afegão.

Durante os anos de conflito civil, foi bastante apreciado por suas paredes maciças e posição de comando no alto de uma colina, de onde era possível controlar as aproximações da cidade pelo lado sul. As consequências são bem evidentes.

"Se há uma coisa que não dá para contar no Afeganistão são as guerras e os tiros", afirma Zabihullah Rahimi, vice-administrador da construção. "Ninguém consegue numerar os buracos de balas. É impossível."

Mesmo as salas internas estão cheias de furos de balas e cobertas de grafites de várias facções, em uma grande quantidade de dialetos e alfabetos. Em uma delas, os membros da equipe de profissionais do projeto de reconstrução trabalham em bancadas com laptops enquanto monitoram o progresso da obra, que no momento consiste principalmente em arrancar vários quilômetros quadrados de gesso e concreto de paredes de tijolo e pilares, apenas com picaretas e martelos.

Masouma Delijam, de 28 anos, arquiteta do projeto, largou o emprego em uma empresa privada para trabalhar aqui para o governo afegão, recebendo a metade do salário. "Estamos todos muito orgulhosos de fazer parte disso. O pagamento não é alto, mas vale a pena participar desse projeto", conta ela.

Segundo Delijam, isso é especialmente verdadeiro porque está sendo feito pelos próprios afegãos. "É muito bom que tenhamos encontrado em nós mesmos a capacidade para fazer a reforma", diz.

Isso não deveria ser uma surpresa, afirma Ajmal Maiwandi, chefe do Aga Khan Trust for Culture, que fornece assessoria técnica para o projeto (com seus especialistas afegãos). "Já faz mais de uma década e meia. Se não tivéssemos a capacidade de lidar com um projeto dessa natureza, seria surpreendente."

Durante toda a vida de Delijam, o arruinado Palácio Darul Aman foi uma lembrança do que o país havia se tornado. "Isso nos afetava. Víamos o prédio todos os dias. E agora as pessoas vão nos ver reconstruindo o palácio, e ficarão mais esperançosas com o futuro do Afeganistão."

Mas nem tudo é perfeito no futuro do projeto. Alguns dos trabalhadores reclamam que não recebem o salário de US$150 há quatro meses.

"Admito que há um atraso", diz Langar, atribuindo a questão a problemas administrativos, não financeiros, e prometendo que todos os salários em breve serão pagos na data certa. Ela também explica que o projeto está um ano atrasado, embora ainda haja esperança de que possa estar pronto a tempo para o centenário.

Os custos altos e os atrasos repetidos têm sido uma característica de vários projetos estrangeiros no Afeganistão, algumas vezes com resultados desastrosos (a Barragem Kajaki ainda está inacabada, depois de um investimento americano de US$500 milhões). Desta vez, afirma Delijam, os afegãos não terão a quem culpar – ou agradecer – a não ser a eles mesmos.

Por Rod Nordland

 
 
 
 
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