The New York Times

Aqui jaz um cemitério onde o Oriente encontra o Ocidente

Por: The New York Times
19/04/2017 - 14h31min | Atualizada em 19/04/2017 - 14h31min

Singapura – No meio dessa ilha-nação de rodovias e elevados, há uma dobra do tempo: Bukit Brown, um dos maiores cemitérios chineses do mundo.

Agora negligenciado e abandonado, exibe uma incrível variedade de lápides, estátuas e santuários a cerca de 6,5 quilômetros ao norte dos bancos, shoppings e sedes regionais no centro da cidade.

Durante anos, a área de 86 hectares foi um destino para caçadores de emoções no Dia das Bruxas e para observadores de pássaros, um refúgio verde em uma cidade superlotada, mas, nos últimos anos, tornou-se algo muito mais poderoso: um local de peregrinação para os singapurenses que tentam se reconectar com o passado de seu país.

Isso colocou Bukit Brown no centro de um importante movimento social em uma nação que raramente tolera o ativismo comunitário: uma batalha entre o Estado, que planeja acabar com parte do cemitério, e um grupo de cidadãos dedicados à sua preservação.

Surpreendentemente, em uma cultura de modernização implacável, seus defensores estão conquistando alguns sucessos em limitar os danos ao cemitério e elevar a consciência sobre a história movimentada da ilha.

Construído em 1922, Bukit Brown foi o lugar de descanso final para cerca de cem mil famílias de Singapura até ser fechado, em 1972. Sua importância é maior que sua história relativamente recente de 50 anos, porque muitos túmulos históricos foram transportados para lá, trazidos de outros cemitérios que foram pavimentados.

Acrescente-se a isso um cemitério abandonado ali ao lado, de um proeminente clã chinês, e os peritos estimam que até 200 mil sepulturas estejam espalhadas em meio às florestas tropicais circundantes, incluindo as de muitos dos cidadãos mais famosos de Singapura.

"Você tem que pensar no cemitério como um incrível arquivo histórico. Mas, levando-se em conta o modo em que as coisas têm se desenrolado recentemente, tenho grandes preocupações sobre quanto tempo ele sobreviverá", disse Kenneth Dean, chefe do Departamento de Estudos Chineses da Universidade Nacional de Singapura.

Esses temores têm a ver com o apetite insaciável desta cidade-Estado por terra. Os 5,7 milhões de habitantes de Singapura vivem em pouco mais 717 quilômetros quadrados, área um pouco menor que a cidade de Nova York, mas que tem que acomodar mais do que as necessidades de um município: deve conter a infraestrutura de um país, incluindo bases militares, aterros sanitários, reservatórios, parques nacionais e um dos mais movimentados aeroportos e portos do mundo.

Mais de 20 por cento do país são construídos em terra recuperada, levando seus dois vizinhos imediatos, Malásia e Indonésia, a proibir a exportação de areia para Singapura para proteger sua própria terra. E, com planos de atingir uma população de 6,9 milhões em 2030, o preço da terra é altíssimo.

Parte da solução tem sido um exame interno. Em 2011, o governo decidiu suavizar uma curva na estrada de norte a sul da ilha, fazendo-a passar por Bukit Brown. Logo depois, anunciou que, dentro de 40 anos, o resto também iria ser pavimentado.

Depois de ver muitos de seus monumentos e bairros mais conhecidos derrubados nas últimas décadas, os singapurenses começaram a agir – um momento de mudança que as pessoas daqui comparam à destruição, em 1963, da Pennsylvania Station, uma obra-prima de beaux-arts em Nova York, cuja perda catalisou a preservação histórica nos Estados Unidos.

No centro de tudo está um grupo informal de duas dúzias de voluntários que se intitulam "Brownies". Eles oferecem passeios gratuitos e administram um site que detalha a história do cemitério e conta com depoimentos de moradores e visitantes.

Um dos primeiros foi Raymond Goh, de 54 anos, farmacêutico que costumava liderar excursões do Dia das Bruxas em torno do cemitério. (Como a cultura chinesa, Singapura é obcecada por histórias de fantasmas.) Depois de um tempo, Goh começou a ler as inscrições nas lápides com mais atenção e se surpreendeu com a antiguidade das sepulturas.

"Percebi que muitos túmulos pareciam muito velhos e, aliás, que alguns eram da época de Raffles", disse Goh, referindo-se ao colonizador britânico fundador de Singapura, Sir Stamford Raffles. "Eu pensei: 'Por que ninguém me disse que isso estava aqui?'."

Quando os planos do governo foram anunciados, em 2011, Goh e seu irmão Charles começaram a pensar em um modo de salvar Bukit Brown. Passaram a treinar outros voluntários, incluindo professores familiarizados com o mundo da pesquisa acadêmica, ex-jornalistas que ajudaram com a parte de relações públicas e pessoas do mundo dos negócios que garantiram a sensibilização da comunidade e o financiamento. Em outras palavras, era uma amostragem da classe média de Singapura apegada à cidade perdida de sua juventude e que estava ansiosa para entender melhor suas raízes culturais.

Os Brownies me guiaram pelo local várias vezes ao longo dos últimos meses, e percebi que, de fato, ele é uma maravilha. A vegetação exuberante faz com que você se sinta isolado da próspera cidade moderna, e as lápides são bonitas por si só, mesmo sem explicações.

Alguns são como minifortalezas, guardadas por leões de pedra chineses ou britânicos, ou mesmo soldados sikhs; outras, decoradas com símbolos e imagens taoistas e confucionistas. Algumas falam sobre a lealdade da pessoa falecida a um partido político ou a uma dinastia perdida.

Graças a explicações de guias como Ian Chong, professor da Universidade Nacional de Singapura, o engenheiro Ang Yik Han, o advogado Fabian Tee e Claire Leow, ex-jornalista, comecei a entender como esta cidade-Estado foi crucial nas explorações asiáticas do império britânico.

Examinamos o enorme mausoléu de Ong Sam Leong, fornecedor de mão de obra para as Ilhas Christmas, que morreu em 1917 e cujo túmulo foi transferido para cá. Eu vi também o túmulo de Tan Kim Cheng, que apresentou Anna ao Rei do Sião, e os dos revolucionários que apoiaram Sun Yat-sen, que planejou a queda – bem sucedida – da última dinastia chinesa.

Muitos túmulos são decorados com a cerâmica típica, que foi usada durante muito tempo por imigrantes chineses que vieram para estas bandas, enquanto outros mostravam a forte influência da cultura malaia.

"Este é o local onde o Oriente e o Ocidente se uniram. Estamos no centro da ilha, a barriga do dragão, e não podemos deixar que seja cortada", disse Ang.

Não pude deixar de pensar nos vários outros importantes cemitérios do mundo. Em termos de árvores e animais selvagens, Bukit Brown evoca o cemitério Highgate, em Londres; como um retiro da vida diária, parece o Green-Wood no Brooklyn, em Nova York; como um registro de pessoas famosas de um país, lembrou-me o Père Lachaise em Paris ou o Cementerio de la Recoleta em Buenos Aires, Argentina.

Para Dean, essas lápides mostram as ricas ligações entre o sudeste asiático e regiões específicas da China. Sob sua direção, uma equipe de pesquisadores está alimentando um banco de dados com as informações dos túmulos, permitindo o desenvolvimento de mapas que mostram como clãs e aldeias migraram do litoral da China para estas paragens longínquas.

Recentemente, um dos projetos de Dean recebeu financiamento do governo. Embora as autoridades tenham recusado inúmeros pedidos de entrevista por telefone e fax para falar sobre o cemitério, elas parecem estar começando a entender sua importância.

O governo já se rendeu a algumas das exigências dos Brownies. Originalmente, cinco mil túmulos seriam removidos, mas o número foi reduzido para 3.700. E em vez de destruir as lápides, elas estão sendo catalogadas e armazenadas. Além disso, o governo criou um conselho de avaliação de patrimônio para rever projetos futuros.

Essa vontade de se engajar parece refletir um sentimento mais amplo de uma sociedade que mudou tão rapidamente que as pessoas se sentem sem raízes e sem laços profundos com seu país. Durante um passeio pelo cemitério, conheci um funcionário do Ministério da Defesa que pediu que apenas seu primeiro nome fosse usado, Pete, por causa de seu cargo.

"Nossa nação é jovem, e nós estávamos tão concentrados no futuro que às vezes esquecíamos o passado. Bukit Brown é um enorme baú de histórias."

Por Ian Johnson

 
 
 
 
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