The New York Times

Em busca de um bom imperador

Por: The New York Times
19/04/2017 - 14h38min | Atualizada em 19/04/2017 - 14h38min

Uma das duras verdades das relações humanas é que a diversidade e a democracia não se dão muito bem. No Oriente Médio de hoje, assim como no passado não tão distante da Europa, a transição do autoritarismo para a soberania popular parece ter passado por limpezas étnicas ou religiosas. Em todo o mundo, muitos dos modelos de governos democráticos de sucesso são efetivamente etno-Estados, construídos com base nas limpezas ou partições do passado, ou no forte isolamento. E no Ocidente, nos últimos anos, tanto a imigração em massa quanto a fragmentação cultural reavivaram tentações autoritárias.

Esse padrão é forte na história de nossa espécie. Um novo trabalho dos economistas Oded Galor e Marc Klemp encontrou uma forte correlação entre diversidade e autocracia em sociedades pré-coloniais, com um legado que também se estende às instituições atuais. Os autores sugerem que o autoritarismo emerge de pressões tanto de baixo para cima quanto de cima para baixo: uma sociedade diversificada busca instituições centrais fortes por uma questão de coesão e produtividade, e a divisão, estratificação e desconfiança internas aumentam "as possibilidades de dominação" pelas elites poderosas.

Nos Estados Unidos, os americanos gostam de pensar em si mesmos como a exceção a essa regra e, apesar do destino das tribos nativas americanas e do legado da escravidão, têm sido mais bem sucedidos ao combinar governo republicano com diversidade racial e religiosa.

Mas, ao mesmo tempo, a governança não vem mais de reuniões em cidadezinhas da Nova Inglaterra. Conforme os Estados Unidos foram crescendo, se tornando mais diversificados, e recentemente mais fragmentados, o poder foi se centralizando em Washington, e o rosto do governo central, a presidência, vem acumulando mais e mais autoridade. O estilo de caudilho-do-Queens de Donald Trump é exclusivo dele, mas também é uma consequência natural das tendências que remontam a gerações. A nação ainda conta com métodos republicanos, mas também tem um tipo de imperador eleito que preside as duradouras linhas de raças, os imigrantes nem sempre integrados, e grupos, tribos e classes cada vez mais desconfiados.

A União Europeia não tem um líder tão singular, mas sua classe dominante está em uma situação semelhante – são os guardiões de um império diferente, tentando presidir gregos e alemães, escandinavos e sicilianos, cristãos nativos e imigrantes muçulmanos, enquanto exercem poderes que estão a pelo menos um passo de distância da responsabilidade democrática.

Isso significa que, para entender o desafio da liderança ocidental, vale ponderar sobre as maneiras nas quais os regimes autoritários do mundo interagem com a diversidade étnica e religiosa – explorando-a, controlando-a ou ambas as coisas.

Em um padrão comum, o governo autoritário evolui como um meio para que a maioria ou um grande grupo tenha poder contra as reivindicações das diversas minorias e para impor uma espécie de uniformidade aos grupos étnicos ou religiosos mais fracos. O regime de Erdogan na Turquia e o autoritarismo monárquico sunita na Arábia Saudita são exemplos óbvios, assim como o chauvinismo do Politburo chinês de etnia Han, o nacionalismo cristão ortodoxo russo de Putin e muitos mais.

Em outro padrão, um líder autoritário – às vezes ele próprio de uma minoria – se lança como um protetor da diversidade, prometendo defender as minoridades que seriam ameaçadas caso um populismo majoritário tomasse o poder. Esse é o padrão do regime da família Assad na Síria, que conquistou o apoio de sua própria seita alauíta, além de cristãos sírios e outros que temiam o que um regime sunita poderia significar para eles. O regime militar egípcio, da mesma forma, promete proteger habitantes urbanos e cristãos coptas de uma ordem islâmica que a democracia poderia impor.

Esses padrões têm ecos em nossa própria política imperial – opa!, perdão –, presidencial. A coalizão que Barack Obama construiu durante duas eleições presidenciais uniu círculos eleitorais de minoria à intelligentsia da classe alta e prometeu defender seus interesses diversos contra o resto do núcleo branco e cristão do país. A reação de Trump foi mais Erdoganiana ou Putiniana, prometendo proteger uma maioria outrora dominante, restaurar seus privilégios e reverter sua sensação de declínio cultural.

Enquanto isso, no Velho Mundo, a União Europeia muitas vezes parece ser governada para o benefício dos alemães de centro e das minorias étnicas na periferia, favorecendo separatistas e imigrantes em detrimento de antigas maiorias nacionais. O atual surto populista é, por sua vez, uma tentativa de estabelecer uma dinâmica diferente entre as diversas facções do continente – nas quais a Alemanha tem menos poder, os imigrantes são barrados e as antigas nações se reafirmam como centros de influência mais uma vez.

Acho que nenhum dos continentes está pronto para uma guinada autocrática real, mas em ambos, paradoxalmente, a causa da ordem liberal pode ser mais bem atendida por líderes que assumam uma perspectiva ligeiramente mais imperial – não no sentido de impor políticas na marra, mas no sentido de perceber que suas sociedades são tão diversas que necessitam de um tipo de visão mais desinteressada de seus governantes.

Um governante assim desinteressado – vamos chamá-lo de bom imperador – veria uma parte crucial de seu papel como uma garantia, reconhecendo que, em uma paisagem diversificada, fragmentada e desconfiada, qualquer coalizão governista pareceria perigosa para aqueles que não estão incluídos nela. Se ele vier de um grupo historicamente dominante e falar em seu nome, precisará se desdobrar para abordar as angústias das minorias e dos recém-chegados; se estiver formando uma coalizão de grupos minoritários, precisa garantir à antiga maioria que o país do futuro ainda terá um lugar para eles. Qualquer que seja a base de seu poder, precisará estar constantemente sintonizado com as formas nas quais a diversidade, a diferença e a desconfiança podem fazer um conflito político parecer muito mais existencial do que deveria.

Nossos dois últimos líderes reconheceram que precisavam trabalhar nesse sentido, mas com exceções – Bush depois do 11 de setembro, Obama na sua campanha de 2008 – não foram particularmente bem-sucedidos. No caso de Obama, sua Casa Branca não conseguiu captar o sentimento de abandono e crise dos brancos e o quanto esse sentimento estava criando um novo bloco de votação baseado em identidade. Ele também não conseguiu entender o quanto as leis nacionais de liberação sexual eram ameaçadoras para os conservadores religiosos, o quanto isso os fez se sentirem como estranhos em seu próprio país.

Dessa alienação e desse medo surgiu Trump, que nem tenta fazer algo para confortá-los, fazer seu nacionalismo parecer maior do que a política de identidade só dos brancos, fazer os grupos que se sentem acuados por sua administração perceberem que o presidente tem suas ansiedades em mente. Pode haver uma forma de nacionalismo que ajude a unir uma sociedade diversificada, mas Trump parece mais propenso a colocar uma ex-maioria "realmente americana" contra todas as outras raças, fés e grupos.

Seu eventual sucessor, liberal ou conservador, não deveria procurar aprender com Assad ou Erdogan ou Putin, mas ele (ou ela) poderia aprender alguma coisa com os antigos guardiões de sociedades fragmentadas e diversas – com monarquias, como a dos Habsburgos austríacos, em particular, que trabalhou para conter e equilibrar as divisões étnicas e religiosas para evitar a desintegração e prevenir o totalitarismo, e que poderia ter durado mais não fosse a loucura de 1914.

Se os americanos vão ter uma presidência imperial, deveriam querer um presidente que pensa menos como líder de partido e mais como um bom imperador – que não quer só dividir e conquistar, mas que tenta fazer de seu império um lugar onde muitos povos se sintam seguros, reconhecidos e em casa.

Por Ross Douthat

 
 
 
 
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