The New York Times

Na Romênia, briga pelo nome de um time de futebol envolve até o Exército

Por: The New York Times
18/04/2017 - 15h15min | Atualizada em 18/04/2017 - 15h15min

Bucareste, Romênia – Daquela vez a multidão reunida para gritar e protestar não estava furiosa com Gigi Becali.

De uns tempos para cá, o dono do Steaua Bucharest, time de futebol mais popular e bem-sucedido da Romênia, já se acostumou a ser vilipendiado, e não só por ser um dos homens mais ricos e polêmicos do país, virando manchete constantemente por suas opiniões negativas sobre mulheres e gays. Desde 2011, também está envolvido em uma briga judicial pelo controle do Steaua, que ganhou a Copa Europeia de 1986, precursora da Liga dos Campeões da UEFA, contra um adversário formidável: o Ministério da Defesa.

É uma disputa que ameaça destruir um dos times mais famosos da Europa e dividiu os torcedores, com a maioria a favor de um boicote enquanto Becali estiver no poder. Já fez com que ele perdesse os direitos ao escudo do clube e até seu nome e também levou à criação de uma nova equipe do Exército, a CSA Steaua Bucharest, que deve começar a disputar a quarta divisão do campeonato romeno na próxima temporada.

Entretanto, nos últimos meses, quando milhares de manifestantes ignoravam o frio cortante das noites de inverno e se reuniram na Piata Victoriei, ou Praça da Vitória, para exigir o fim da corrupção do governo, Becali não foi o alvo de sua ira; na verdade, ele se juntou à multidão.

"Foi um gesto de solidariedade", diz, sentado no salão de recepções de pé-direito alto de sua mansão, a poucos metros da praça.

"Quis mostrar que sou benquisto pelo povo. Acho que sou a única pessoa pública neste país que pode chegar no meio da multidão sem escolta ou segurança", prossegue.

É no mínimo estranho pintar a imagem do milionário tão achincalhado como homem do povo, mas que não deixa de ser verdadeira, afinal envolve um grande time europeu de futebol na briga por seu nome, quiçá sua existência, enquanto o dono luta uma guerra solitária contra o Exército romeno.

A briga pelo Steaua Bucharest é uma história complicada que envolve ganância, dinheiro e, muito provavelmente, vingança. O time foi formado em 1947 e, como muitos da Europa Oriental sob o comunismo, pertencia ao governo, que também o gerenciava. Durante várias décadas foi visto como um representante do Exército, enquanto seu maior adversário, o Dinamo, representava o Ministério de Assuntos Internos.

Quando o Steaua Bucharest venceu o Barcelona nos pênaltis para faturar a Copa Europeia, em 1986, a Romênia ainda estava sob o controle do ditador comunista Nicolae Ceausescu. O time voltaria às semifinais do torneio, em 1988, e à final no ano seguinte. Após a queda do comunismo, porém, a posse de equipes por parte do Estado se tornou impraticável e o Steaua foi afastado da associação esportiva militar, a CSA Steaua Bucharest, in 1998.

Àquela altura, Becali, um ex-pastor de ovelhas que fez fortuna no ramo imobiliário depois da queda do comunismo, já aumentava sua influência aos poucos e, em 2003, assumiu o controle do Steaua.

"Eu enriqueci e quando um homem fica rico, ele também quer ficar famoso. Foi por isso que assumi o Steaua. E me tornei famoso", disse.

Para muitos romenos, Becali, 58 anos, representa a Romênia que deveria ter ficado no passado. Ele se autodenomina um "nacionalista antiglobalização" e já foi comparado a Donald Trump, de quem é fã.

Depois de ensaiar uma carreira como político no Parlamento romeno e europeu – e uma campanha furada à presidência de seu país –, Becali acabou na prisão, em 2013, por causa de um acordo com o Exército envolvendo uma troca de terras. Quando foi solto, a batalha legal pelo Steaua já tinha tido início.

Sob seus cuidados, o time foi um sucesso, faturando cinco títulos do campeonato nacional, além de outros, de torneios menores, e disputou regularmente a Liga dos Campeões, considerada uma fonte importante de renda. Por outro lado, também afastou torcedores e outros membros do clube, incluindo torcedores dentro das Forças Armadas, com suas explosões com lendas do time e a população em geral.

Logo depois que o clube se classificou pela primeira vez para a Liga dos Campeões, em 2006, e meses após ter chegado às semifinais da Copa da UEFA, hoje conhecida como Liga da Europa, o Exército começou a analisar de perto o acordo que permitiu que Becali comprasse o clube e chegou à conclusão de que houve irregularidades graves. Seus advogados, inclusive, alegaram que alguns documentos foram forjados, acusação que Becali nega veementemente até hoje.

Em 2011, uma série complexa de ações legais teve início para questionar a venda e o uso das cores e da marca do time. A princípio, as maquinações passaram despercebidas, mas a iniciativa se tornou pública em dezembro de 2014, quando um tribunal romeno decidiu que Becali não tinha mais direito de usar o brasão nem qualquer outro símbolo relacionado ao time.

Do outro lado da cidade, de frente para um shopping center novo, o time revitalizado do CSA Steaua Bucharest está tomando forma dentro de uma base militar.

"Não houve um momento exato em que decidimos recuperar a marca. Foi uma questão de análise. Decidimos proteger o símbolo Steaua. Essa ação legal teve início após uma análise minuciosa dos documentos", explica o Coronel Cristian Petrea, presidente do CSA Steaua.

A princípio, achava-se que o novo Steaua pudesse substituir o FC Steaua na primeira divisão nacional, mas embora Petrea tenha insistido em um novo começo, há ligações, reais e sentimentais, com os dias de glória do time.

O estádio Ghencea que, apesar de famoso, estava caindo aos pedaços – palco de muitos momentos de glória na Copa Europeia dos anos 80, mas abandonado por Becali, em 2015, que o preteriu por um novo estádio nacional – está sendo reformado com US$65 milhões do dinheiro público, em preparação aos Campeonatos Europeus de 2020. Um dos jogadores da equipe de 1986, Marius Lacatus, foi nomeado o novo diretor de esportes da equipe.

"Nunca quis um conflito entre meus colegas" afirmou Lacatus, tentando se afastar da disputa legal.

Membros do CSA Steaua Bucharest negam que o processo de disputa pela marca do time ou a decisão de criar o Steaua paralelo tenha a ver com vingança ou que tenham ocorrido como punição a Becali.

"Não consideramos Becali nosso inimigo. Temos o nosso clube, ele tem o dele", resume Petrea.

Mesmo assim, muitos torcedores do Steaua Bucharest, incluindo o maior grupo dos ultras, decidiram abandonar Becali e passaram a apoiar o clube militar. Esses, inclusive, afirmam que o magnata não os valoriza, e nem o time, que só quer saber de dinheiro. Um pequeno grupo continua fiel à equipe original, ainda que não ao próprio Becali.

"Nós não apoiamos Gigi Becali, apenas torcemos por seu time. Ele fez muitas coisas boas pelo futebol romeno, mas é muito bocudo e falou muita besteira a respeito de nossos ídolos, nossas lendas", disse um rapaz chamado Cosmin, mas que se recusou a dar o sobrenome.

Uma grossa camada de neve cobria a frente do estádio nacional da Romênia. Era dia de jogo, em fevereiro, e o Steaua Bucharest de Becali enfrentava o FC Voluntari.

A oito quilômetros da Praça Vitória, onde 70 mil romenos mais uma vez enfrentaram as baixas temperaturas para protestar contra a corrupção, Becali se mostrava imperturbável, mesmo com o FC Voluntari tendo saído na frente. Logo em seguida o Steaua empatou e, após várias faltas e decisões discutível do juiz, o jogo acabou empatado em 2 x 2.

Poucas semanas depois, os cartolas anunciaram o novo nome da equipe: FC FCSB. Talvez a mudança seja mais uma manobra legal, ou quem sabe uma tentativa de acabar com a briga contra o Exército, mas o efeito foi óbvio: durante alguns meses, talvez até mais, o tão celebrado nome do Steaua Bucharest vai simplesmente desaparecer.

Por James Montague

 
 
 
 
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