Luto

A história de Paulo Bellini, fundador da Marcopolo, morto nesta quinta-feira em Caxias

Ele estava internado no hospital desde semana passada

Por: Pioneiro
15/06/2017 - 10h43min | Atualizada em 15/06/2017 - 10h43min
A história de Paulo Bellini, fundador da Marcopolo, morto nesta quinta-feira em Caxias Jonas Ramos/Agencia RBS
Morreu na manhã desta quinta o empresário Paulo Bellini, presidente emérito e um dos fundadores da Marcopolo Foto: Jonas Ramos / Agencia RBS  

Um empreendedor que transformou uma oficina de pintura de caminhão em fábrica de ônibus globalizada é o resumo da trajetória de Paulo Pedro Bellini, morto nesta quinta-feira, aos 90 anos. O fundador, presidente emérito e principal acionista individual da Marcopolo nasceu em 20 de janeiro de 1927. Nascida como Nicola & Cia, a empresa que se tornaria uma das maiores indústrias do Brasil tinha no início muita vontade e pouco conhecimento dos sócios dispostos a criar carrocerias de ônibus.

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— Fomos muito audaciosos, mas trabalhávamos sem segurança, sem tecnologia. Fazíamos tudo exagerado para garantir que não houvesse problema. Em vez de barra de ferro de uma polegada (2,54 centímetros), a gente colocava de três polegadas — contou Paulo Bellini em entrevista ao Pioneiro em julho de 2008. 

Em Caxias, a Eberle havia criado ambiente e cultura para a metalurgia, então nessa área era fácil obter peças e gente capacitada. O mesmo não valia, por exemplo, para as poltronas dos ônibus. A solução era recorrer a estofarias para móveis residenciais e adaptar os modelos.

— A gente não sabia como trabalhar, mas fazia acontecer — relatou o visionário, sobre outra marca pessoal e empresarial. 

Até 1957, a empresa funcionou num pavilhão de madeira, que pegou fogo mais de uma vez. Naquele ano, mudou-se para novas instalações no bairro Planalto, correndo muitos riscos. A área na época era quase inexplorada, não tinha sequer energia elétrica. Era preciso um gerador com motor a diesel para garantir a solda das peças.

— Naquele tempo, a gente não calculava quanto ia vender, quanto ia faturar. Planejamento estratégico não existia — contou Bellini, há nove anos. 

Em um momento em que a empresa chegou a estar às portas da falência, a solução foi aumentar o número de associados, ideia surgida dos contatos com o pessoal da área bancária,que via a dificuldade de a empresa cumprir os compromissos. O empresário contava que era comum receber fotografias dos ônibus da marca que andavam pelas ruas e estradas de quase cem países. As imagens eram distribuídas em murais espalhados pelas fábricas, para que os funcionários vissem o alcance do seu trabalho.

— Levamos 49 anos para chegar a 100 mil unidades (em 1998). Em outros nove, atingimos 200 mil — contabilizou. 

Desse total, 300 saíram da Tata Marcopolo, joint -venture com a Tata Motors. Assinado em maio de 2006, o acordo previa uma planta em Lucknow e outra em Dharwad, que deve entrar em operação em outubro e deverá se transformar na maior em volume de produção do mundo. Na passagem da década de 1960 para a de 1970, os irmãos Nicola já haviam se retirado da sociedade e formado a Nimbus. O que passou para a história corporativa foi o fato de que o grande sucesso de um modelo de carroceria lançado anos antes determinou a mudança da marca, em 1971. Depois de exaustivas discussões, havia duas opções na reta final: Marco Pólo (o navegadoritaliano) e Bertioga (nem ele lembra a inspiração). Havia fortes resistências ao primeiro, formado por duas palavras. É meio difícil imaginar que, se tivesse vencido a parada, a marca Bertioga significasse tanto hoje. No início, escolher carrocerias da Nicola era uma opção de risco, reconhece Paulo Bellini. Para convencer o freguês, era preciso vender barato, com prazo de pagamento longo. 

Para enfrentar a situação, o método poderia ser descrito como ¿devo, não nego, pago quanto puder¿. Mas com uma diferença importante, observou Bellini: o contato direto. Dentro da fábrica, tem muita gente trabalhando ao mesmo tempo, no mesmo espaço.É preciso se organizar para que tudo funcione bem. Não são robôs que apertam parafusos, mas funcionários que se ocupam de detalhes como tapetes, assentos, lâmpadas e outros itens de conforto.

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Os ônibus que saem das unidades não são customizados por países, mas praticamente por veículo. Um dos pontos altos foi um carro vendido em 2002 para o emirado de Abu Dhabi, com maçanetas em ouro, sofás de couro, luz dicróica e luminárias douradas. Bellini fazia questão de colocar a diferenciação dos ônibus na integração da equipe. Não por acaso que, todo final de ano, ele fazia questão de apertar a mão de cada um dos funcionários – ao menos, os de Caxias do Sul. Presenteava, brindava com espumante, fazia brincadeiras, perguntava pela família. E se sente à vontade. Em 2016, a Marcopolo ousou novamente. A Neobus foi incorporada pela gigante, mas atua com marca e unidade independentes. Com cerca de 1,2 mil trabalhadores, possui unidades fabris em Caxias do Sul e no México. 

Entre os passatempos prediletos de Paulo Bellini estavam a pescaria e o golfe. Nos últimos anos, ia ao menos uma vez à Bacia Amazônica e ao Pantanal. Seguindo as leis locais, pegava o peixe, tirava a foto e o devolvia para o rio - um hábito que começou ainda em 1981. Em terra firme, o empresário gostava de jogar bola. O tamanho da redonda é que foi diminuindo ao longo do tempo. Na juventude, era basquete, futebol ou vôlei. Depois, veio o tênis. Nos últimos tempos, a bola com que se diverte era ainda menor. Mas gostava tanto que mandou cavoucar, no quintal da casa, três buracos para jogar golfe.

 
 
 
 
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