Em nota

FHC sugere que antecipação de eleições seria "gesto de grandeza" de Temer

Anteriormente, o ex-presidente havia classificado a manobra como golpe. Agora, ele afirmou que falta 'legitimidade' a Temer para governar

15/06/2017 - 17h25min | Atualizada em 15/06/2017 - 17h43min
FHC sugere que antecipação de eleições seria "gesto de grandeza" de Temer Jefferson Botega/Agencia RBS
Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS  

Em uma nota encaminhada ao Jornal O Globo nesta quinta-feira (15), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu o que vê como um gesto de grandeza do presidente Michel Temer: pedir a antecipação de eleições gerais. A manifestação de FHC ocorre no momento de divisão do PSDB e sob o risco de o partido não figurar como alternativa eleitoral competitiva para as eleições do ano que vem.

No texto, Fernando Henrique afirma ainda que sua percepção sobre a situação do país tem sofrido "abalos fortes". Para ele, falta "legitimidade" ao presidente para governar e a República experimenta um tipo de "anomia" (falta de regras, desorganização). Com base nesse cenário, FHC diz ter mudado de opinião de que seria um golpe a convocação de eleições antes do término do mandato de Temer, que ocorre em 2018.

"A ordem vigente é legal e constitucional (daí ter mencionado como 'golpe' uma antecipação eleitoral) mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto", escreveu o tucano na nota.

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A proposta de eleições antecipadas para interromper a permanência de Temer no poder é uma das bandeiras de partidos de esquerda, liderados pelo PT. Essa possibilidade não havia encontrado representação no PSDB até o momento. O próprio FHC havia se manifestado, antes, classificando a manobra como golpe.

Fernando Henrique também defendeu mudanças na legislação eleitoral antes da antecipação das diretas, mas não mencionou quais seriam elas.

"Não obstante e ainda mais por isso, devemos obedecer estritamente a Constituição. Novas eleições requerem emenda constitucional que, a meu ver, deveria ser antecedida por mudanças na legislação eleitoral. Portanto, tudo ocorreria mais facilmente com a anuência do presidente."

O novo posicionamento de FHC surge na mesma semana em que o PSDB decidiu continuar no governo Temer, apesar de parte do partido não concordar com a decisão, gerando novo desgaste político na legenda.

Ao encerrar, o tucano afirma que "preferiria atravessar a pinguela, mas se ela continuar quebrando será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular".

Confira a íntegra da nota de Fernando Henrique Cardoso:

"A conjuntura política do Brasil tem sofrido abalos fortes e minha percepção também. Se eu me pusesse na posição de presidente e olhasse em volta reconheceria que estamos vivendo uma quase anomia. Falta o que os políticólogos chamam de `legitimidade¿, ou seja, reconhecendo que a autoridade é legítima consentir em obedecer.

A ordem vigente é legal e constitucional (dai o ter mencionado como "golpe" uma antecipação eleitoral) mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza por parte de quem legalmente detém o poder pedindo antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto.

É diante desta perspectiva que os partidos, pensando no Brasil, nas suas chances econômicas e nos 14 milhões de desempregados, devem decidir o que fazer.

A chance e a cautela a que me refiro derivam de minha percepção da gravidade da situação. Ou se pensa nos passos seguintes em termos nacionais e não partidários nem personalistas ou iremos às cegas para o desconhecido.

A responsabilidade maior é a do Presidente que decidirá se ainda tem forças para resistir e atuar em prol do país.

Se tudo continuar como está com a desconstrução continua da autoridade, pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o PSDB possa continuar no governo.

Preferiria atravessar a pinguela, mas se ela continuar quebrando será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular.

É este o sentimento que motiva minhas tentativas de entender o que acontece e de agir apropriadamente, embora nem sempre no calor dos embates diários e de declarações dadas às pressas tenha sido claro nem sem hesitações.

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente"

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