Violência sem fim

Chacina em Caxias do Sul segue sem respostas

Famílias aguardam pela identificação oficial das quatro vítimas mortas no bairro Pioneiro

Por: Leonardo Lopes
24/07/2017 - 08h30min | Atualizada em 24/07/2017 - 08h30min
Chacina em Caxias do Sul segue sem respostas Porthus Junior/Agencia RBS
A Delegacia de Homicídios trata o esclarecimento das mortes como prioridade, mas a complexidade do caso requer técnicas de investigação que demandam mais tempo Foto: Porthus Junior / Agencia RBS  

Depois de 40 dias, um dos crimes mais violentos dos últimos anos em Caxias do Sul segue sem explicação ou identificação oficial das vítimas. Em 11 de junho, dois homens e duas mulheres foram baleados e queimados dentro de uma casa na Rua João D'Andréa, no bairro Pioneiro. Os primeiros indícios apontam que o local era utilizado como ponto de tráfico e teria sido alvo de um ataque de uma facção rival. A Delegacia de Homicídios trata o esclarecimento das mortes como prioridade, mas a complexidade do caso requer técnicas de investigação que demandam mais tempo. Uma das estratégias é identificar as movimentações e modo de ação de grupos criminosos na cidade, o que inclui o avanço na Serra de um grupo de Porto Alegre.

— A motivação, provavelmente, é a disputa de território pelo tráfico de drogas. Estamos trabalhando, mas está bem complicado. Pelo modo ocorrido, é provável o envolvimento de facção criminosa e, nestes casos, é comum não ter testemunhas, pois as pessoas tem medo de colaborarem. Temos outros meios (de investigar), mas levam mais tempo — comenta o delegado Rodrigo Kegler Duarte.

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O incêndio premeditado pelos criminosos é visto pela investigação como uma forma de extinguir aquele ponto de tráfico - o que reforça a versão do ataque decorrente de uma disputa entre facções. Outra possibilidade é de que o fogo foi utilizado para destruir alguma prova.Perícias confirmaram que os criminosos jogaram algum tipo de combustível no corpo das vítimas. O estado carbonizado impossibilitou a identificação e o único meio é pela comparação genética com possíveis familiares, contudo um exame de DNA demora entre 60 dias e 90 dias, conforme o Instituto Geral de Perícias (IGP).

Quarta vítima

A Delegacia de Homicídios acredita que a quarta vítima da chacina é Adriano Slongo, 34 anos. A mãe dele foi localizada pelos investigadores, prestou depoimento e cedeu material para comparação genética. Natural de Maximiliano de Almeida, Slongo foi dado como desaparecido desde o dia dos assassinatos. Ele tinha diversas passagens na polícia, principalmente em Erechim. Sua ficha inclui dois homicídios, receptação, posse ilegal de arma de fogo e roubo. Em Caxias do Sul, Slongo havia sido preso por receptação no bairro Planalto, em outubro de 2015.

"Quantos mais precisam morrer?"

Familiares de possíveis três vítimas procuraram a Polícia Civil nos dias seguintes ao incêndio. Eles têm certeza que os mortos na chacina era Anderson Teixeira Maciel, 17 anos, a mãe dele, Tatiane Teixeira, 36, e a namorada do rapaz, Emily Conceição da Silva, 16. De acordo com Julio Vaz Rodrigues, que é tio de Tatiane, Anderson seria dependente químico e as duas mulheres teriam ido atrás dele para impedir que ele comprasse drogas naquela noite.

— Estamos aguardando a polícia, mas eles só dizem que têm que esperar, que o DNA demora. Eu vi os corpos, realmente não tinha como reconhecer. Mas temos certeza que são eles — relata.

Moradores de outra região da cidade, os familiares de Emily têm dificuldades de entender o que aconteceu. Enquanto a polícia fala em disputa do tráfico, eles lembram da jovem de 16 anos que estudava e buscava uma vida melhor. O namorado, Anderson, passava dias na casa dos pais do garota. Ele não apresentava ter inimizades ou qualquer outro problema, principalmente em relação ao uso de drogas.

— Não sabemos o que aconteceu e esperamos que a polícia resolva. A gente tenta acompanhar, mas ninguém nos fala nada. O corpo está sob custódia do governo e a família como fica? Não temos direito a nada, nem enterro ou velório. Estamos presos esperando esse DNA. Parece que, por sermos uma família humilde, ninguém se importa. A Emily tinha gente por ela. Estamos aqui e estamos sofrendo — reclama uma familiar que prefere não ser identificada.

Sobre as hipóteses para a chacina, a família de Emily aponta o descaso do Poder Público com os bairros mais pobres e o cenário de impunidade no país. 

— Dizem que (a casa) era um ponto de tráfico conhecido da polícia. É conhecido e ninguém faz nada? Quantos mais precisam morrer? Criminosos tiram a vida de quem não conhecem. Está acontecendo todos os dias, nós vemos na televisão. É violência e mais violência. E ninguém faz nada? Nunca terá fim? — questiona uma parente da adolescente.


 
 
 
 
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