Humberto Trezzi

Lava-Jato sofre descentralização, mais do que um desmonte

Diminuição de efetivos em Curitiba não impede continuidade das investigações. Elas até ganharam força em outros Estados

06/07/2017 - 17h38min | Atualizada em 06/07/2017 - 20h50min
Lava-Jato sofre descentralização, mais do que um desmonte Montagem sobre fotos de Heuler Andrey e Evaristo Sá/AFP
Antonio Palocci, Marcelo Odebrecht e Eduardo Cunha, três dos mais famosos alvos da Lava-Jato, presos em Curitiba Foto: Montagem sobre fotos de Heuler Andrey e Evaristo Sá / AFP  

Fãs mais exaltados da Lava-Jato e adeptos da teoria da conspiração em geral enxergam no fim da força-tarefa dedicada com exclusividade a esse assunto uma vingança do governo Michel Temer. De acordo com essas pessoas, o presidente teria o poder de reduzir o pessoal dedicado à maior investigação contra a corrupção na história do país.

A favor dessa tese existe uma diminuição real do efetivo da Lava-Jato: eram 11 delegados, hoje são quatro dedicados ao tema. Agora esses quatro vão concentrar todo o combate à corrupção no Paraná, além de abraçar os assuntos de desvios da Petrobras em todo o país. Seria uma redução proposital do efetivo, para enfraquecer os policiais que enxergam nos políticos os inimigos?

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Falei com dois policiais federais — um delegado que atuou na Lava-Jato e um agente que atuou na Operação Carne Fraca (aquela que apontou fraudes das maiores indústrias brasileiras de beneficiamento de carne). Os dois asseguram que não é iniciativa de Temer a retirada de exclusividade das equipes que atuam na Lava-Jato. É que a demanda por investigações de ponta diminuiu muito em relação ao início da operação, há três anos, asseguram. Há mais trabalho cartorial e menos de vigilância, filmagens e triagem de dados. Isso porque as delações da Odebrecht e da JBS são tão detalhadas que apontam cifras, contas e subornos que antes só eram dedutíveis pelos investigadores. Agora provas decisivas foram fornecidas pelos próprios criminosos. E isso permite que os policiais se dediquem a outras investigações. "Para nós da Carne Fraca é uma boa notícia, teremos agora mais colegas para nos ajudar", resume o agente consultado por ZH.

O delegado ressalta que, mesmo com redução da equipe fixa, a Lava-Jato ganha a volta temporária de dois delegados que já trabalharam no caso e hoje estão no Espírito Santo. Eles darão um reforço, principalmente nos 38 pedidos de investigação feitos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) com base nas delações da Odebrecht e que serão tocados por Curitiba. Entre elas, seis sobre Lula e uma sobre Dilma (ex-presidentes).

— A Lava-Jato diminui de efetivo em Curitiba porque foi regionalizada (espalhada por Brasília, Rio, São Paulo e Bahia) e também cresceu em instâncias superiores, no STF, onde os alvos maiores têm foro — pondera o delegado consultado pelo colunista.

Ele não descarta, contudo, que o fim da exclusividade da equipe da Lava-Jato tenha agradado — e muito — ao presidente Temer e aos políticos aliados dele. Todos ansiosos pelo enfraquecimento da operação que os atormenta.



 
 
 
 
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