Impasse Trabalhista

O drama vivido pelos funcionários da empresa caxiense Guerra SA

Mais de 600 trabalhadores estão sem receber salários desde abril. Fábrica está em recuperação judicial e eles imploram por uma definição da Justiça. Decisão está nas mãos da juíza

Por: Ivanete Marzzaro
15/09/2017 - 11h24min | Atualizada em 15/09/2017 - 11h24min
O drama vivido pelos funcionários da empresa caxiense Guerra SA Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS  

Márcio Nascimento Goulart, 41 anos, é pai de três filhos: o mais velho tem 17 anos e a caçula, 3. É separado e, atualmente, é sustentado pela atual mulher e chefe de cozinha, Marinete Dalchiovon, 43. Goulart é um dos mais de 600 funcionários da empresa Guerra SA,  em processo de recuperação judicial, e que está desde o mês de abril sem receber os salários.  

A homologação do plano de recuperação,  que permite a venda das unidades separadamente, está nas mãos da juíza Cláudia Brugger. Com a venda da unidade 2, por exemplo, seria possível pagar todas as pendências trabalhistas e ainda sobraria dinheiro para quitar outras dívidas. O valor do negócio gira em torno de R$ 48 milhões.

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Desde abril, a vida de Goulart desabou. Sem trabalho, sem salário, sem plano de saúde, sem perspectivas, passa o dia trancado em casa. Para tentar equilibrar as contas, renegociou as prestações do apartamento, pediu dinheiro emprestado, vendeu o carro, a máquina lava-roupa, a bicicleta e o aparelho de videogame. E mais: não consegue dormir.

— Perdi tudo. Mas não sou um coitado. Sou um trabalhador. Quero trabalhar e ter meus direitos — reclama.

Goulart trabalha na Guerra desde 2013. Ele percebeu as dificuldades da fábrica em 2016, quando o segundo turno foi fechado e 200 trabalhadores foram demitidos em uma leva só. Seu último dia na empresa foi em meados de abril, quando  a Guerra mandou os funcionários embora sem almoço e sem transporte.

A partir daí, começou uma jornada em busca de seus direitos. Até agora, nada conseguiu. Está com a carteira de trabalho "presa" e por isso não pode buscar uma vaga no mercado formal, não consegue sacar o FGTS e nem o seguro-desemprego.

A companheira, Marinete, desabafa:

— Ele não come, não dorme e vive triste e estressado. Ele não tem mais qualidade de vida!

Este mês, o casal não tem saída. Se pagar o condomínio, a água e a luz não terá dinheiro para comprar comida.

"Queremos ser ouvidos"

Goulart já participou de vários protestos em frente à empresa e ao Fórum de Caxias. Mas ninguém deu explicações.

— Fui até na prefeitura para tentar pedir que o prefeito Daniel Guerra tentasse interferir no processo. Não consegui nada. 

Ele quer que a empresa volte a funcionar. Independentemente de quem for o dono.

— Não quero ver a Guerra fechada. Ela faz parte da história de Caxias. Quero voltar a trabalhar lá (na Guerra)

O técnico de manutenção faz parte de um grupo no whatsapp de mais de 200 funcionários. Segundo ele, a maioria está doente, depressiva.

— Não queremos cestas básicas, queremos nossos direitos.

"Tenho esperança que a empresa volte a funcionar"

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (13/09/2017). Moacir Mapelli relata a situação vulnerável ficar sem receber salários da empresa Guerra. (Roni Rigon/Pioneiro).
Moacir Mapelli roma remédio para depressão e não consegue dormir. "Tudo está desmoronando"Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

A esperança do jatista da Guerra Moacir Mapelli, 55 anos, é de que um milagre aconteça e que a empresa volte a funcionar a qualquer momento. 

— Rezo todos os dias para que isso aconteça. Na semana passada estava olhando as fotos das pessoas trabalhando na empresa e chorei. É muito triste saber que todas as máquinas estão paradas — conta.

Ele trabalhou na empresa durante oito anos. Foi onde construiu seu plano de vida. 

— Hoje tudo está desmoronando. Tomo remédio para depressão e não consigo mais dormir.

Mapelli vive da aposentadoria de um salário mínimo e dos R$ 700 que a esposa recebe como cozinheira. Segundo ele, só dá para pagar o aluguel da casa onde moram. 

— Minha esperança é que a juíza tenha um bom coração e pense nos funcionários. Só queremos voltar a trabalhar, mesmo que seja sem o pagamento de todos os salários atrasados.


 
 
 
 
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