Com a palavra

"Na prática, estamos sozinhos no cosmos", diz o cientista Marcelo Gleiser

Carioca revela preocupação com alguns dilemas éticos que a ciência vai colocar diante de nós

13/10/2013 - 06h22min
"Na prática, estamos sozinhos no cosmos", diz o cientista Marcelo Gleiser Luciana Whitaker/Folhapress
Gleiser virou referência ao traduzir para o cidadão comum algumas das mais complexas descobertas e dúvidas sobre o universo Foto: Luciana Whitaker / Folhapress  

O carioca Marcelo Gleiser talvez seja a mais improvável das figuras pop do Brasil. Ele não chegou lá dando dribles, interpretando sucessos sertanejos ou exibindo o peitoral desnudo em alguma telenovela. O que o converteu em nome e rosto reconhecidos por milhões de brasileiros foi a maestria em áreas que não são propriamente populares: a física, a astronomia, a astrobiologia.

> COM A PALAVRA: leia todas as entrevistas da série

Primeiro como escritor de artigos e livros de ciência e mais tarde como apresentador de quadros no Fantástico, da TV Globo, Gleiser virou referência ao traduzir para o cidadão comum algumas das mais complexas descobertas e dúvidas sobre o universo. Chegou ao povão sem perder o respeito de seus pares cientistas. Professor de física e astronomia no Dartmouth College, dos EUA, acumula prêmios, integra academias científicas e continua a produzir estudos de ponta, vertidos em linguagem impenetrável para o leitor desavisado.

Na terça-feira, ele enfrentou em Porto Alegre o desafio de explicar implicações de um tema complicado em nosso dia a dia. Veio dos EUA para falar sobre a ética na ciência.

Antes de pegar o avião para o Brasil, Gleiser, 54 anos, conversou com ZH por telefone e revelou sua preocupação com alguns dos dilemas éticos que a ciência vai colocar diante de nós nos próximos anos. Também propôs um novo tipo de moralidade, mais abrangente, que batizou de "ética cósmica" e que decorre da possível condição humana de única forma de vida inteligente no universo.

— Enquanto estivermos sozinhos aqui, temos uma responsabilidade cósmica extremamente importante, de preservação da vida a todo custo — explica.

Zero Hora — O senhor veio a Porto Alegre para falar sobre "ética na ciência". Curiosamente, uma recente coluna sua sobre o tema está repleta de pontos de interrogação. O texto é uma sucessão de perguntas difíceis. O senhor já chegou a alguma resposta?
Marcelo Gleiser — Nessa coluna, comecei tratando do romance Frankenstein, um dos símbolos mais poderosos sobre a questão da ética na ciência. Esse romance, de força mítica profunda, diz que existem certas questões científicas que estão além do que os humanos podem controlar. Mesmo que tecnologicamente possamos fazer algo — caso do doutor Victor Frankenstein, ao ressuscitar um cadáver usando eletricidade — não significa que moralmente estejamos prontos para fazê-lo. Você me pergunta se eu tenho respostas. O que a gente está tentando é começar a fazer as perguntas certas. Porque só quando se faz as perguntas certas é possível começar a encontrar algumas respostas.

ZH — E estamos prontos para chegar a essas respostas?
Gleiser —
A questão em que você está interessado é se temos maturidade moral para decidir. E a resposta é simplesmente a seguinte: não. Não temos maturidade moral para certas questões. Mas isso não significa que a gente não deva fazer a pesquisa. Existe a ideia da Caixa de Pandora, onde estão guardados todos os males do mundo, e se você abre a Caixa de Pandora tudo escapa. As pessoas veem a ciência como um tipo de Caixa de Pandora: "Ah, esses cientistas ficam fuxicando, descobrem problemas sérios e depois a sociedade fica à mercê de avanços sobre os quais não temos controle". Na verdade, não é nada disso. A ciência tem de ter total liberdade de pesquisa, contanto que certas questões sejam controladas ou pelo menos monitoradas por corpos especiais. Por exemplo, a questão da clonagem humana. Para mim, essa é uma das áreas que deveriam ser controladas com muito cuidado.

ZH — Quem deveria decidir as regras sobre o que se pode fazer?
Gleiser —
Essa é a grande questão. Quem decide o que pode e o que não pode? Quem tem o direito de decidir por todas as pessoas? Acho que deveria haver uma aliança entre o Judiciário e um corpo de cientistas escolhido por órgãos do governo para estabelecer regras. Mas, infelizmente, qualquer tecnologia que possa ser desenvolvida mais cedo ou mais tarde vai ser desenvolvida.

ZH — Onde o senhor acredita que essas questões vão emergir com mais força nos próximos anos?
Gleiser —
A manipulação genética é onde isso mais vai aparecer. Se você parar para pensar, vai ver que a questão dos alimentos geneticamente modificados gera uma grande divisão. Para algumas pessoas, a Monsanto é o grande salvador da humanidade, pois desenvolve tecnologias que dão um ganho enorme na produtividade das plantações. Se você tem mais produtividade, o preço cai e as pessoas comem mais. Mas há uma outra facção que diz que a Monsanto é o próprio diabo na Terra, que ela está monopolizando os alimentos genéticos, a ponto a ponto de o fazendeiro ser quase forçado a comprar a semente deles. A ciência da engenharia genética é importante e deve ser desenvolvida e aplicada com cuidado. Mas a isto se adicionam interesses corporativos onde o lucro é o primeiro foco. Empresas como a Monsanto tem o seu lado messiânico e o seu lado hipócrita. Infelizmente, o hipócrita parece estar vencendo no momento.

ZH — Há outras questões na manipulação genética que são espinhosas, como a possibilidade de um casal escolher características de um filho. Quando se trata de humanos, os parâmetros precisam ser diferentes?
Gleiser —
A partir do momento em que existe uma nova tecnologia capaz de beneficiar a população, só uma pequena parcela da população vai ter acesso a ela em um primeiro momento, porque vai ser cara. Você cria na sociedade uma diferenciação entre os que podem e os que não podem. Isso é um problema seríssimo, porque não é justo. Se existe um valor moral, ético, universal, é que todas as pessoas têm o mesmo direito. Se existe uma tecnologia nova que aumenta a longevidade, por que certas pessoas vão poder e outras não?

ZH — O senhor já afirmou que talvez exista vida fora da Terra, mas que provavelmente não é inteligente. Acrescentou que nós, humanos, somos a "inteligência cósmica". Que responsabilidades isso traz?
Gleiser —
Essa é uma pergunta muito cara ao meu coração. O que estamos aprendendo sobre o sistema solar, sobre a propriedade dos planetas no sistema solar e sobre a propriedade de outros planetas em outros sistemas solares é que as condições que levaram ao desenvolvimento da vida na Terra são extremamente particulares. Mesmo que você encontre outro planeta que tenha água na superfície, clima relativamente estável e temperaturas equilibradas, não significa que vai encontrar vida lá. E se encontrar vida, muito provavelmente essa vida vai ser simples. Quando falo em vida simples, falo de bactérias, seres unicelulares. Não podemos negar a possibilidade de que exista, sim, vida complexa em outras partes da nossa galáxia e em outras galáxias. Mas o ponto é que a gente não tem indicação de que essa vida exista ou que possamos ter contato com essas formas de vida, caso existam. Sob o ponto de vista prático, estamos sozinhos no cosmos.

ZH — E o que isso implica?
Gleiser —
O universo é tão grande, a Terra é só um planetinha, o Sol é só uma estrela, até nossa galáxia é uma entre centenas de milhões. Há essa ideia de que quanto mais os cientistas aprendem sobre o universo, menos importante vamos ficando. E eu estou dizendo o oposto. Estou dizendo que quanto mais a gente aprende, mais importante a gente fica. Somos produto de tantos acasos, de tantos acidentes cósmicos, e mesmo assim temos capacidade de pensar, temos autoconsciência, temos capacidade de reflexão e de compreensão de quem somos. Isso torna a espécie humana não um acidente cósmico irrelevante, mas um acidente cósmico relevante. Enquanto estivermos sozinhos aqui, enquanto formos os únicos com essa consciência, temos uma responsabilidade cósmica extremamente importante, de preservação da vida a todo custo. O que estou propondo é uma espécie de moralidade cósmica, uma moralidade mais abrangente, em que passamos a ser guardiões da vida.

ZH — Em uma ocasião, ao falar que a raridade da vida nos impõe essa ética cósmica, o senhor referiu que tal ética abrange espalhar a vida pelo universo. Isso é viável?
Gleiser —
É viável, sem dúvida. Em ciência, contanto que não exista uma violação das leis da natureza, é possível. Fazer uma viagem interestelar é difícil? Com certeza. É inviável no momento? É. Mas é impossível? Não. É uma questão de desenvolver tecnologias para isso. Eventualmente vai acontecer. Temos apenas 400 anos de ciência e acabamos de mandar uma sonda que conseguiu sair do sistema solar pela primeira vez. É um marco no desenvolvimento tecnológico da humanidade. Para chegar à estrela mais próxima, são entre 50 mil e 100 mil anos de viagem. É uma coisa absurda no momento. Mas no futuro, não.

ZH — Está em andamento um projeto para colonizar Marte a partir de 2023. O senhor considera essa ideia factível?
Gleiser —
Considero factível, mas não sei se vale muito a pena, para ser sincero. Seria mais um aquecimento, para ver se a gente consegue colonizar outro planeta e se adaptar a viver lá. Marte é relativamente parecido com a Terra, mas é diferente da Terra também. Tem uma série de questões de adaptação importantes. É possível. Mas vai custar um dinheiro absurdo para ser feito.

ZH — O senhor pessoalmente gostaria de participar de um projeto desse tipo?
Gleiser —
Eu adoraria ir até a Lua, fazer uma órbita em torno da Terra. Para mim, já estaria bom. Não tenho curiosidade sobre Marte. Se alguém quiser ter uma ideia de como é Marte, é só ir ao deserto de Atacama, no Chile.

ZH — Ainda sobre nossa responsabilidade de preservar a vida: o novo relatório sobre mudanças climáticas traça um quadro bastante preocupante. Resta pouca dúvida de que a ação humana está por trás de um processo de aquecimento global que pode causar mudanças dramáticas. Já estragamos tudo?
Gleiser —
De certa forma, sim. O processo de aquecimento global é praticamente irreversível. O que a gente pode fazer é parar agora para tentar minimizar os efeitos no futuro. É possível chegar a isso se houver um esforço planetário para controlar as emissões. Está mais do que na hora.

ZH — Mesmo que se comece a mudar o quadro das emissões, efeitos dramáticos vão vir, como por exemplo a elevação dos oceanos?
Gleiser —
Vai acontecer e já está acontecendo. Mas uma coisa é cair uma chuvinha, outra é cair uma tempestade. A gente pode manter ao nível da garoa, e não da tempestade. Isso a gente pode fazer, ainda. Dá tempo. Talvez as Ilhas Maldivas, coitadas, sofram com isso. Mas o Rio de Janeiro, espero que não. Ele ainda pode ser salvo.

ZH — O senhor leciona um curso conhecido como Física para Poetas. Na condição de físico e escritor, pode-se dizer que o senhor transita pelas duas culturas, a científica e a das letras e artes. Nunca achou que seria válido oferecer também um curso de Poesia para Físicos?
Gleiser —
Ótimo. Não sei se eu seria a pessoa indicada e preparada para isso. Na verdade, Física para Poetas não significa que só existam poetas na classe...

ZH — O sentido da pergunta é se não seria interessante inverter a equação e levar um pouco de humanismo para a área das ciências.
Gleiser —
Acho ótimo levantar essa questão. Não existe a menor dúvida de que é importante. Esse meu curso de Física para Poetas também é um curso de poesia para físicos. O que eu tento fazer é inscrever a história da ciência como uma história intelectual das ideias. Crio um modo de explicar a história da física que está imerso na história da religião, na história da filosofia. Quando falo de Galileu, tenho de falar também de Shakespeare e de Michelangelo, porque eles todos viveram mais ou menos na mesma época. Estou fazendo isso. A dificuldade é atrair cientistas para as aulas.

ZH — Por existir alguma espécie de menosprezo dos cientistas pela cultura humanística?
Gleiser —
Não acho que exista menosprezo. No caso dos estudantes universitários, existe é falta de tempo. Mas, nas universidades aqui dos EUA, há o que chamam de currículo de artes liberais, em que você vai se formar em Cinema, mas mesmo assim tem de estudar filosofia, ciência, matemática, tem de ter uma formação intelectual ampla. E isso serve para os cientistas também. Eles vão se formar em Física ou Química, mas têm de ter um curso de filosofia ou de literatura. A coisa funciona bem aqui, nesse sentido. No Brasil, infelizmente, ainda não.

ZH — A história da ciência é, sob certo ponto de vista, uma permanente conquista de terreno que pertencia à religião, no que diz respeito a oferecer explicações sobre o mundo. Porém, apesar da aparente vitória, quase todo mundo acredita em divindades, mas poucos são capazes de compreender a ciência por trás de tudo que os cerca. O que isso ensina sobre a relação da humanidade com a razão e com a fé?
Gleiser —
A ciência é uma maneira de pensar sobre a vida e sobre o mundo que, de certa forma, é mesmo antagônica à questão religiosa. Na religião, o que você não entende você atribui a uma divindade que explica ou que cria. Na ciência, o que você tem de fazer é duvidar sempre e tentar encontrar respostas que não dependam de ações sobrenaturais. São posições bastantes antagônicas. O povo brasileiro, em particular, é bastante espiritualizado. É raro eu dar uma palestra sobre a ciência sem que alguém me pergunte se acredito em Deus ou não.

ZH — Isso ocorre porque a mente se sente mais à vontade com o pensamento religioso do que com o científico?
Gleiser —
É muito mais simples você lidar com o pensamento religioso do que com o científico. Porque o pensamento religioso tem um lado acolhedor que o científico não tem. Não temos controle sobre a nossa vida, mas quando se diz que há uma entidade que tem controle sobre tudo e eu dou minha confiança a essa entidade, passo pelo menos a ter a sensação de controle sobre coisas que eu não posso controlar. Essa é a condição que leva as pessoas à religião. É tentar, de alguma forma, ter controle sobre o que não é controlável. É compreensível que as pessoas sejam levadas a isso. Não saber o que acontece quando a gente morre, o sentido da vida, o motivo de estarmos aqui, tudo isso é angustiante. A religião de certa forma oferece um grande abraço para as pessoas, que a ciência não oferece.

ZH — Uma pergunta mais prosaica: para a maioria das pessoas, quando se fala em física quântica, a associação que se faz é com o esoterismo. Isso é irritante para um físico?
Gleiser —
Profundamente irritante. Física quântica não tem nada a ver com esoterismo. Com a separação entre ciência e religião, pessoas mais modernas se distanciaram da religião, mas querem ter uma espécie de espiritualidade. Há uma porção de oportunistas que não sabem nada de ciência e passam a usar termos como curas quânticas, magnetismo quântico, cristais magnéticos e não sei mais o quê. As pessoas acreditam nisso porque têm de acreditar em alguma coisa, porque acham melhor acreditar nisso do que no Deus do Antigo Testamento.

ZH — É uma forma de dar um verniz cientifico à crença?
Gleiser —
Nada mais do que marketing. Algumas das pessoas que fazem isso são bem intencionadas. Mas não entendem de física. Pegam um conceito aqui e outro conceito ali e adaptam a uma filosofia de vida que não tem nada a ver com esse conceito físico. Há pessoas que exploram exatamente esse lado das coisas e vendem livro para caramba. Por quê? Porque usam a ciência para produzir uma forma de autoajuda, e as pessoas querem ser ajudadas.

ZH — Estamos habituados a ver pesquisas receberem o Nobel anos ou mesmo décadas depois de realizadas. No caso do bóson de Higgs, a premiação na semana passada veio apenas alguns meses após experimentos confirmarem a existência da chamada Partícula de Deus. Esse foi mesmo uma marco da ciência?
Gleiser —
A teoria sobre a nova partícula foi proposta em 1964 por Higgs, Englert e Brout, que faleceu em 2011. Os experimentos, cujos resultados foram revelados em julho de 2012, comprovaram que eles estavam corretos, ou seja, que a partícula existe mesmo. Portanto, a premiação segue os padrões do Nobel, em que uma teoria extremamente importante, quando comprovada por experimentos, recebe as láureas da academia. Quanto à aplicabilidade, essa expectativa também deve ser repensada. Volta e meia estas descobertas geram aplicações tecnológicas sensacionais, como foi o caso da física quântica, que hoje é responsável por toda a tecnologia digital. Não sabemos se o bóson de Higgs terá aplicação. Mas, certamente, os instrumentos que foram construídos para a sua detecção, os programas de computação e a rede gigantesca de computadores que é usada na interpretação dos dados encontrarão aplicações tecnológicas.

ZH — O conhecimento tem limites? A nossa razão está apetrechada para ir até onde?
Gleiser —
Esse é justamente o tema do meu livro novo. Vai se chamar A Ilha do Conhecimento. Você vai ter de me fazer essa pergunta de novo quando eu lançar o livro no Brasil. Mas a resposta básica é: sim, existem limites para o conhecimento.

ZH — Pessoalmente, qual é o enigma científico que o senhor mais gostaria de ver resolvido?
Gleiser —
Acho que é a origem da vida, como o universo foi de uma coisa simples para uma coisa mais complexa. De repente, um grupo de moléculas orgânicas interagindo entre si se transforma numa entidade autossuficiente capaz de se reproduzir, ou seja, uma entidade viva. Essa transição do não-vivo para o vivo é fascinante. Se entendermos isso, vamos entender como a vida surgiu. Outra implicação: se entendermos cientificamente como a vida surgiu, quem acredita que Deus fez a vida vai ter de começar a pensar de novo sobre o que é deus.

NA LITERATURA
Após ganhar duas vezes o Prêmio Jabuti por livros sobre questões científicas, Gleiser arriscou-se em território novo. Lançou, em 2006, o romance A Harmonia do Mundo. O subtítulo entrega: Aventuras e desventuras de Johannes Kepler.
— Foi a coisa mais difícil que fiz em minha vida — reconheceu.

NO VÔLEI
Antes de enveredar pela ciência, Gleiser atuou no vôlei. Na seleção infanto-juvenil do Rio, nos anos 70, foi campeão brasileiro. Bernardinho era seu colega de time. Em 1984, venceu o campeonato britânico de universidades no time da Universidade de Londres.

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.