Turismo espacial

O céu ganha um afronauta

Conversamos com um cara que, em 2015, vai romper mais de uma fronteira ao conquistar o espaço

17/03/2014 | 15h50
O céu ganha um afronauta Divulgação/Divulgação
Jovem sul-africano alçará voo como totem da igualdade racial Foto: Divulgação / Divulgação

O primeiro africano negro no espaço será filho de pai mecânico e mãe faxineira, morador dos arrabaldes de Pretória, na África do Sul, e DJ nas horas vagas, que são horas em que Mandla Maseko, 25 anos, se desocupa do estudo da Engenharia Civil, faculdade trancada por falta de dinheiro. Numa dessas, ouvindo o rádio, ele descobriu uma competição que levaria pessoas para passear no espaço.

Era agosto do ano passado. Quatro meses adiante, 5 de dezembro, depois de chorar a morte de Nelson Mandela, Mandla Maseko soube que, entre mais de 1 milhão de candidatos, ele havia sido escolhido para passar uma hora vaga erguido 100 quilômetros sobre a superfície da Terra, ladeado por outros 22 escolhidos, embora também solitário, dianteiro, inaugurando a categoria dos afronautas.

– Se você pensar nos primeiros presidentes negros, Nelson Mandela, Barack Obama… Saber que o seu nome será escrito junto ao dessas pessoas é inacreditável. Eu dizia para a minha mãe, outro dia, que quero servir de exemplo: aqui está um cara que não tinha nada e conquistou tudo – diz.

Mandla sabe que representa algo mais que ele próprio. A exemplo de Neil Armstrong, o primeiro homem na Lua, que em 1969 espichou um passo pequeno ao caminhar em nome de toda a humanidade, o jovem sul-africano alçará voo como totem da igualdade racial. Ganhar os horizontes todos, apanhá-los num só golpe de vista, é para Mandla uma extensão dos horizontes que o maior revolucionário anti-apartheid devolveu aos negros.

– Nelson Mandela é o meu herói. O meu pai antes, e então Nelson Mandela. Ele trouxe o país lá de baixo e nos colocou onde estamos hoje. Foi ele, na verdade, que me fez acreditar que eu poderia conseguir o que quisesse – afirma, se confessando honrado por entrar num rol de pioneiros conterrâneos que inclui o primeiro presidente negro, Mandela, e o primeiro sul-africano no espaço, Mark Shuttleworth, empresário branco que pagou cerca de R$ 50 milhões para ficar oito dias na Estação Espacial Internacional.

No voo programado para 2015 a bordo da nave Lynx Mark II, Mandla pretende levar a bandeira do seu país e colocar para rodar o hino nacional, hino de cinco línguas. Xhosa, zulu, sesoto, africâner e inglês para musicar a paisagem que, diz quem voltou, é de mudar a vida.

– Olhar pela janela e ver a Terra como essa bola azul e branca, pequena e grande, enquanto orbito sem peso… Uau. Acho que vou voltar com outra perspectiva sobre o mundo.

O “overview effect” tem sido relatado por astronautas que regressam balançados pelo cinema dinâmico de um planeta suspenso num vazio sem fim, frágil sob o véu fino da atmosfera, redondo numa unidade sem o garrancho torto das fronteiras. É com esse verniz “conscientizador” que empresas como a Virgin Galactic enfeitam os seus projetos de turismo espacial para milionários. Lá de cima, diz a Virgin, as pessoas podem se tornar mais sensíveis aos problemas da Terra. Essa tomada de consciência, entretanto, não deve chegar como lição dos astros a Mandla Maseko, que ainda nem saiu do chão e já vê, à lupa ampla de Mandela:

– Somos primeiro a raça humana. A cor da pele vem depois.

*

A COMPETIÇÃO: Axe Apollo Space Academy
A SELEÇÃO: Enviar uma foto "pulando de algo, junto à "motivação" para entrar no concurso. Mandla pulou da parede do quintal de casa e disse que queria "desafiar as leis da gravidade"
OS COMPETIDORES: Mais de 1 milhão, sendo 30 sul-africanos na primeira peneira, que selecionou 85 mil pessoas
A PREPARAÇÃO: No Kennedy Space Center, em Orlando, Flórida (EUA), com testes de inteligência, força, coragem, pilotagem de Air Combat, simulador G-Force, skydiving, construção, lançamento de foguete e corrida de obstáculos
BUZZ ALDRIN, SEGUNDO HOMEM A PISAR NA LUA, ENTRE OS JURADOS: "Apertei a mão dele e perguntei: 'É você mesmo?' "
O PAI COMO HERÓI: "Não lembro de ir dormir sem todos terem jantado. Meu pai deu tudo a nós"
TRILHA SONORA NO ESPAÇO: Hino Nacional da África do Sul e Lick Your Speakers (DJ Jawz & Tbo Touch)
FUTURO: Completar a graduação em Engenharia Civil. "Quero provar para as pessoas que não apenas ganhei esta competição, mas que, se eu puder estudar e me qualificar como um especialista [em astronáutica], eu vou fazer"

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