Entrevista

Ann Druyan revela que negou série Cosmos a três emissoras para "proteger legado de Carl Sagan"

Roteirista e diretora comenta a repaginação do programa, que bateu o recorde de maior lançamento global da TV

02/04/2014 | 16h31
Ann Druyan revela que negou série Cosmos a três emissoras para "proteger legado de Carl Sagan" NatGeo/Divulgação
Foto: NatGeo / Divulgação

Mais de 200 canais exibiram a estreia da série Cosmos a 180 países no último dia 13, no maior lançamento global da história da televisão. Infrequente popularidade para assuntos de ciência, não fosse a pândega audiovisual, ombreando o cinema-espetáculo de Gravidade, e a tradução do duro hieróglifo científico para uma fala universal: o deslumbramento.

A produtora executiva, roteirista e diretora Ann Druyan atualiza a receita daquele Cosmos dos 1980. O programa original, apresentado por Carl Sagan, marido de Ann falecido em 1996, se sustentou por uma década como o mais visto da história da TV americana e confirmou Sagan como a maior estrela no panteão dos astrofísicos. Mas por pouco a volta de Cosmos não acaba na gaveta, nos contou Ann, em entrevista por telefone:

- Se eu não tivesse conseguido completo controle criativo, acho que não teria acontecido. Eu estava determinada a proteger o legado de Carl Sagan, tão precioso para tantas pessoas do mundo inteiro, e também a fazer algo que eu sabia que era verdadeiramente Cosmos, que não diminuísse a aura da original. Por isso, dispensei propostas de três emissoras que, embora tivessem interesse, não me ofereceram controle criativo.


Ann Druyan com Neil deGrasse Tyson

A roteirista tem a quem agradecer. O time do novo Cosmos conta com o carismático astrofísico Neil deGrasse Tyson, celebridade televisiva e das redes sociais, e com a produção de Seth MacFarlane, conhecido criador do desenho Família da Pesada e "ponte" que levou a série até a Fox, onde houve sinal verde para a livre execução do projeto.


Neil deGrasse Tyson aponta o "endereço cósmico" do planeta no primeiro episódio

- A performance de Neil é tão magnética, há um sentimento por trás das palavras que escrevi com Steven Soter (físico que trabalhou com Ann no início do projeto) conectando-as com o público. E, sem o Seth, acho que não haveria uma nova série. Ele usou a influência dele em Hollywood para nos alçar à mais ampla plataforma possível. Veio de Seth sugestões sobre como contar histórias, animando os "heróis do conhecimento", em vez de recriá-los com atores. Ele queria a Nave da Imaginação em todos os episódios, ideia que eu não havia contemplado, mas que, assim que incorporei ao trabalho, senti que era brilhante.


"Nave da Imaginação" explora o DNA

Cosmos: a SpaceTime Odissey caminha agora para o quinto de 13 episódios totais. No Brasil, o programa passa às 22h30min, às quintas-feiras, no canal NatGeo. Até aqui, a série mostrou o "endereço cósmico" da humanidade, colocando em perspectiva o nosso tamanho em relação ao universo conhecido; apresentou a "árvore" da evolução da vida; descreveu a descoberta das leis que governam os movimentos dos astros; e passeou no interior de um buraco negro.


Episódios incluem espiadas em planetas distantes

Quem comanda a viagem é Neil, sempre a bordo da "Nave da Imaginação", com períodos de animação gráfica que prestam tributo à vida dos grandes cientistas. As biografias escritas em Cosmos mostram especialmente a reação violenta às novas ideias - conduta que Ann não imputa somente à religião.

- É verdade que certas instituições religiosas têm lutado contra a ciência, mas há outras que a abraçam. Acho que quando a teimosia, os negócios ou qualquer instituição, incluindo a religião organizada, lutam e resistem ao que parece ser verdadeiro, há um problema não só para a ciência, mas também para a sociedade. Em Cosmos, contamos histórias em que cientistas dificultam a vida de cientistas. Contamos outras histórias em que empresários fazem o mesmo. Não é apenas a religião, é aquela atitude de resistir ao que as evidências estão mostrando.


No primeiro episódio da série, Neil deGrasse Tyson "reduz" a história do universo a um calendário de 12 meses. Na imagem, ele aparece sobre o dia 31 de dezembro, em cujos "últimos segundos" surgiu a humanidade

Se um dos maiores pecados contra a ciência seria o obscurantismo e a falta de curiosidade, Ann sugere como remédio "começar muito mais cedo" a tatear a prática da descoberta.

- Na véspera do primeiro dia das crianças na escola, pais e professores poderiam levá-las para algum lugar escuro, onde possam ver as estrelas longe da vida urbana. E ali elas poderiam ouvir que a educação é um processo muito antigo, que começou antes mesmo do surgimento dos humanos. Todos somos elos em uma corrente que remonta a umas 40 mil gerações para trás, e ainda temos muito a aprender.


Tem até mergulho em buraco negro

Lamentando a "memorização obrigatória, quase punitiva" na educação, Ann reconhece em Cosmos ainda outro contraveneno, capaz de inspirar gerações inteiras a se interessar por ciência.

- Levo Cosmos em meu coração e mente desde o fim da série original. Quisemos manter a essência, que é a crença de que não podemos compartimentar a vida ou o conhecimento. Não podemos usar nossos celulares, tablets, viver em uma sociedade dependente da ciência e da alta tecnologia, e carregar algo completamente diferente em nossos corações.


"Nave da Imaginação" passa por uns maus bocados

Mais de 30 anos depois da gravação da série original, Cosmos surge repaginada em um contexto que poderia ser considerado menos favorável para as pretensões de audiência. Basta um combo Google+Wikipedia para que o geek se dê por bem-informado em cosmologia. Ann, entretanto, enxerga em Cosmos várias cartas na manga, que também distinguem a série em relação a canais a cabo cuja programação, "com todo o respeito, apenas muito frouxamente se relaciona com a ciência".

- Ao longo das décadas, tenho recebido, especialmente depois da morte de Carl, um retorno enorme. Pessoas dizendo que estudam, fazem, ensinam ciência por causa de Cosmos. E acho que isso se deve a uma rara mistura de ciência dura e imaginação absolutamente ilimitada, nenhuma delas a serviço da outra, nunca o ceticismo ao preço do encantamento, mas as duas coisas no mesmo lugar.


À Kubrick, série retrata o espaço no embalo de música clássica

Ann ressalta que "não é apenas uma questão de entender mais sobre a natureza, mas de sentir algo em relação a ela".

- Acho que, por eu mesma não ter sido uma boa estudante de ciência, encontrei um jeito de contar histórias de modo que as ideias se tornassem acessíveis. Especialmente com o gênio absoluto e o conhecimento prodigioso de Carl, achamos um jeito de criar uma aventura repleta de paixão. Acho que as pessoas ainda lembram a série original, assistem a ela em tão grande número, porque é uma aventura, há um certo romance nela. Espero que esta nova série permita, a pessoas que não sabiam que tinham interesse em ciência, a sensação de estar em casa no universo.

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