Violência urbana

Guerra de facções espalha atos de terrorismo nas ruas de Porto Alegre

Crimes típicos de guerra mergulham a Região Metropolitana em rotina de esquartejamentos, decapitações e chacinas

Por: Eduardo Torres
09/01/2017 - 18h57min | Atualizada em 10/01/2017 - 00h49min
Guerra de facções espalha atos de terrorismo nas ruas de Porto Alegre Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
No final de setembro, moradores encontraram corpo esquartejado na Vila Jardim, em Porto Alegre Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS  

Daniel Navarro de Moura, aos 27 anos, era pedreiro como o pai e o irmão. Não tinha nenhum envolvimento com o tráfico de drogas. Morava com eles e os filhos em uma casa simples no alto da Vila Colina, bairro Jardim Carvalho, na zona leste da Capital. No domingo, 25 de setembro, saiu de casa por volta das 19h para beber com amigos em um bar. 

Alguns moradores dizem que ainda o viram circulando pela região com um homem, oferecendo um celular a outras pessoas. Nada disso foi comprovado pela polícia. Moura só foi visto novamente após ter sido brutalmente desfigurado. Foi esquartejado, teve a cabeça separada do corpo e acabou desovado no bairro Vila Jardim.

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— As decapitações são uma amostra do nível de empoderamento das facções criminosas. Não servem só para botar medo nos rivais, mas para mostrar para todos que aquela facção existe, tem poder e não pode ser desafiada. É uma violência simbólica, porque eles sabem que todos vão falar do crime — avalia Francisco Amorim, mestre em Sociologia.

O caso de Moura foi um entre 16 em todo o ano passado na Região Metropolitana. No ano anterior, nenhuma decapitação havia sido registrada na área. O pedreiro, segundo a delegada Luciana Smith, que investiga o caso pela 5ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), se enquadra em um perfil comum em todas as ocorrências. Não tinha qualquer importância na hierarquia das facções em guerra na cidade, mas foi usado como símbolo disso.

— O que parece importar é o lugar onde o corpo é abandonado, como uma forma de recado — aponta a delegada.

Confira, abaixo, o mapa da brutalidade dos crimes cometidos na Capital e Região Metropolitana em 2016:

Entre 16 decapitações, só um inquérito concluído

Até hoje a polícia tenta entender o que aconteceu entre a noite daquele domingo e o começo da manhã de 26 de setembro, quando o corpo de Moura foi encontrado na Avenida Circular, um dos pontos de maior movimento da Vila Jardim, na zona norte da Capital. Na Vila Colina, onde ele morava, uma facção tem o controle da área. 

Uma das suspeitas é de que integrantes do grupo rival tenham invadido a área e o capturado aleatoriamente. Mas não é descartada a possibilidade de que a própria facção local tenha cometido o crime para usar o corpo — depois de esquartejado, provavelmente, a golpes de facão — como um aviso.

— Virou um método cruel e assustador. É algo novo para nós e tem sido praticado pelos dois grupos em guerra. É um desafio desvendarmos esses crimes — admite o diretor do Departamento de Homicídios, delegado Paulo Grillo.

Entre os 16 casos do ano, só um teve inquérito concluído até o momento, com a prisão de um homem e a apreensão de um adolescente. Ambos confessaram ter esquartejado e decapitado Sérgio Eraldo Guimarães, 21 anos, no início de agosto, no Loteamento Timbaúva, bairro Mario Quintana. O motivo: Guimarães era morador de uma área dominada por facção rival, que havia executado o primo de um dos suspeitos, e foi visto no Timbaúva.

A polícia acredita que ao menos os primeiros casos de decapitação tenham seguido uma ordem do comando do tráfico justamente do loteamento. Depois, o método de terror se espalhou.

Violência alcança o nível da Síria

Os crimes de decapitação representam praticamente 1% de todos os assassinatos na Região Metropolitana em 2016. Houve ainda dois casos de vítimas esquartejadas que não tiveram suas cabeças arrancadas. O percentual é o mesmo estimado por especialistas para os casos de decapitações de vítimas na guerra da Síria. Números que guardam um alerta, observa o pesquisador do Núcleo de Pesquisas sobre Violência da UFRGS Francisco Amorim.

— É uma epidemia. Temos indicadores de violência semelhantes a uma guerra civil, mas não estamos em uma guerra civil — analisa.

Amorim tem se debruçado no estudo da violência recente da Região Metropolitana.

— Há um acirramento da disputa econômica entre as facções. Elas se armaram, aparentemente estão mais organizadas e têm uma estrutura, sobretudo nos presídios, para garantir o comando. Miram o modelo de gestão do PCC (Primeiro Comando da Capital, de São Paulo), agem em outras áreas do crime e até atividades lícitas. Usam da força para se impor nesse avanço — afirma o pesquisador.

Neste contexto, segundo Amorim, os esquartejamentos lembram episódios dos confrontos entre cartéis na Colômbia ou no México. Lá também não são os grandes traficantes que sofrem essa morte bárbara.

A guerra, na prática, envolve o segundo e o terceiro escalão desses grupos. E as redes sociais se tornaram ferramenta para espalhar o terror do conflito. Os crimes geralmente são filmados — por vezes, no momento em que são praticados.

Para o pesquisador, a tendência é mais preocupante do que o momento violento atual:

— Se nada for feito, as facções vão avançar para o controle de outros setores. E quando isso acontecer, é possível, sim, desencadear uma guerra civil.


Carro branco foi encontrado com quatro decapitados em Alvorada, na Região Metropolitana, em novembro Foto: Brigada Militar / Divulgação

Mais de 60 mortos em ações típicas do terror

Além dos esquartejamentos e decapitações, a imposição da força das facções pelo terror tem outras facetas. As chacinas, por exemplo, vitimaram ao menos 50 pessoas em 15 episódios em 2016 na Região Metropolitana. Todos os casos, segundo a polícia, têm relação com a rivalidade entre quadrilhas de tráfico.

Outra modalidade, seguindo o modelo dos terroristas, é o dos atentados violentos que, em geral, deixam vítimas inocentes pelo caminho. Os chamados "bondes", quando invadem área rival ou agem em locais públicos, têm como meta matar. Só na Capital, conforme o levantamento da Editoria de Segurança do Grupo RBS, foram nove ataques desse tipo, com pelo menos 12 vítimas em 2016. Em mais de uma oportunidade, as investigações comprovaram que as ordens para essas frentes partiram das cadeias.

 
 
 
 
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